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Câmeras de segurança, etiquetas antifurto e olhos bem atentos não são suficientes para inibir o “sumiço” de livros em Curitiba, que em alguns estabelecimentos representa 3% do acervo

Câmera monitora a área de livros da Fnac, em Curitiba. 20% menos furtos do que em São Paulo | Giuliano Gomes/Gazeta do Povo
Câmera monitora a área de livros da Fnac, em Curitiba. 20% menos furtos do que em São Paulo (Foto: Giuliano Gomes/Gazeta do Povo)
Aramis Chain e o temido

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Aramis Chain e o temido

Quem desconfiaria de um inofensivo velhinho bem trajado, circulando entre as prateleiras de uma livraria? Laércio Jean Demarch, gerente do setor de livros da Fnac Curitiba, passou a desconfiar dos estereótipos depois de flagrar um senhor de 70 anos ocultando três volumes entre as folhas do jornal que levava debaixo do braço. "Eu estava organizando os produtos na livraria e, como não usava crachá, aquele senhor não poderia imaginar que eu era o gerente do setor. Assim que ele pegou os livros, saiu apressado da loja. Eu avisei o segurança e ele foi abordado do lado de fora", lembra.

Segundo Demarch, pelo menos 40 livros são furtados todo mês na loja, o que parece muito, embora o índice seja 20% menor do que o da cidade de São Paulo. "Hoje não chega a um caso por mês, mas houve épocas em que éramos surpreendidos até seis vezes neste mesmo período e a perda ultrapassava os cem livros", revela. Na opinião do diretor da Fnac Curitiba, Danilo Boeno, reforços na segurança do ParkShop­ping Barigüi, onde a loja está localizada, podem ser um dos motivos para a melhora, mas a presença de sete câmeras de vigilância só na área de obras literárias certamente intimida os mal-intencionados.

Infelizmente, o recurso não estava disponível no setor de obras raras da Biblioteca Pública do Paraná (BPPR) em 2006, quando uma dupla de gatunos levou 79 volumes escondidos debaixo da capa de chuva, alguns do século 18 e com valor estimado em R$ 50 mil.

A delegada do Centro de Operações Policiais Especiais, Vanessa Alice, que investigou o caso, conta que este foi o primeiro furto de obras raras no Paraná, e que, apesar de os ladrões terem sido identificados meses depois, os livros jamais foram recuperados. Segundo Vanessa, o furto é considerado crime pelo artigo 155 do Código Penal Brasileiro, cuja pena varia de um a quatro anos de reclusão, mas se for considerado qualificado – aquele envolvendo fraude ou violência à vítima – pode chegar a oito anos.

Cláudio Fajardo, diretor da Biblioteca Pública do Paraná, admite que o furto histórico aconteceu porque, diferente dos outros 500 mil títulos do acervo da instituição, as obras raras não recebem a etiqueta antifurto para não serem danificadas. De acordo com ele, a prática deste crime não é tão expressiva atualmente, contabilizando um ou dois casos ao mês. "Para burlar o sistema de segurança, no entanto, os ladrões costumam arrancar a capa e levar só o miolo, que não aciona o alarme na saída", conta.

Destino: sebo

Se todos os donos de sebos fossem cuidadosos como Paulo José da Costa, proprietário do sebo Fígaro, ele garante que o furto de obras literárias não seria tão frequente. "Quando alguém vem nos vender um livro, sempre peço a carteira de identidade. Se a pessoa já vai se desculpando, dizendo que esqueceu em casa, pode saber que é roubado", avalia.

Mas os sebos não são apenas o destino certo de livros furtados. Eles também são o alvo. Protegida por apenas quatro câmeras de segu­­rança – pouco, para os 300 m2 da loja –, a Fígaro contabiliza um desfalque anual de pelo menos 3% de seu acervo, mas pode ser bem mais, já que as obras não são numeradas. "Essas são apenas as que a gente percebe, imagine quantas somem e nem nos damos conta", lamenta. Costa, que antigamente anotava o preço dos livros a lápis e passou a fazê-lo a caneta para dificultar um pouquinho a vida de quem os furtava, explica que até existem bibliófilos e estudantes sem grana, mas 80% dos surrupiadores de livros são mesmo ladrões interessados em revender os títulos. "Os outros a gente até perdoa", confessa.

Campeões

Existe algo em comum entre a Obra Aberta, de Umberto Eco, A Paz Perpétua, de Immanuel Kant e Alô Chics, de Glória Kalil: todos foram alvo de furtos recentes na BPPR, onde os temas mais cobiçados são autoajuda, filosofia e ocultismo. Paulo José da Costa, do sebo Fígaro, conta que os títulos mais visados em seu estabelecimento são os Guias da Folha, livros de arte da editora Taschen e de autores como Edgar Allan Poe e Jack Kerouac, sinônimos de venda garantida em outros sebos. Na Fnac, os campeões de sumiço são os best sellers, que teriam repasse fácil nas livrarias de usados – A Menina Que Roubava Livros, portanto, encabeçou a lista anos atrás. Crepúsculo, Lua Nova e outros títulos de Stephenie Meyer são o alvo da vez, mas Harry Potter já foi um clássico nas mãos dos larápios. "Sumiam pilhas inteiras", lembra Laércio Demarch.

Na percepção do gerente, outra modalidade comum é o furto por encomenda, geralmente de livros técnicos de Medicina, Odontologia e Engenharia. O Atlas de Anatomia Humana, em dois volumes, de Johannes Sobotta, está mais para campeão de furtos do que de vendas. Custando em torno de R$ 600, ele é a menina dos olhos dos malandros. Para se precaver, a editora costuma enviar às livrarias o que os vendedores conhecem popularmente como "robô": um livro idêntico ao original, porém com todas as páginas internas em branco. Até hoje Laercio se diverte ao lembrar um caso de furto do "robô" de Sobotta, em uma livraria onde trabalhou anos atrás.

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