Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Literatura

Sozinho contra o frio, a neve e a montanha

Norman Ollestad escreve sobre a experiência de sobreviver ao acidente de avião que matou seu pai em Loucos pela Tempestade

Pai e filho nos anos 1970: comportamento do primeiro beirava a irresponsabilidade e fazia a mãe do menino passar mal | Fotos: Divulgação
Pai e filho nos anos 1970: comportamento do primeiro beirava a irresponsabilidade e fazia a mãe do menino passar mal (Foto: Fotos: Divulgação)
Ollestad amarrado às costas do pai:

1 de 1

Ollestad amarrado às costas do pai:

O pai de Norman Ollestag Jr. o obrigou a surfar quando ele não estava a fim e a esquiar apesar do medo paralisante. Também o fez beber água em vez de suco, evitar cerveja e comer alimentos saudáveis. "Suco de água", dizia Norman pai para enrolar o filho birrento.

Os dois viajavam num avião pequeno, de quatro lugares, acompanhados da namorada de Norman pai e do piloto, rumo à uma competição de esqui. O tempo ruim acabou criando mais problemas do que o piloto esperava e o avião se espatifou numa montanha, deixando apenas o garoto de 11 anos e Sandra, a namorada, vivos. Era 1979.

Ollestad conta a história de como sobreviveu ao acidente em Loucos pela Tempestade – A Memória de um Sobrevivente. No livro de memórias, best-seller nos Estados Unidos, ele procura reconstituir o dia fatídico, lembrando como foi salvo por um morador da região depois de nove horas enfrentando a neve. Essas cenas são intercaladas por lembranças anteriores da rotina intensa a que seu pai o submetia.

Ollestad (que optou por não usar o "Jr.") repassa também a relação complicada com Nick, o namorado de sua mãe, e outros momentos da adolescência. Mas o astro do livro é mesmo o pai do autor.

Ollestad (agora, o pai) foi preparado pela mãe para ser um ator de cinema. Chegou a trabalhar em uma pequena produção, mas seu sonho era jogar beisebol profissionalmente. Adulto e formado em Direito, chegou a trabalhar para o FBI, mas se decepcionou com as porcarias que encontrou na agência criada por J. Edgar Hoover. Chegou a escrever um livro sobre os bastidores do FBI, levando a especulações sobre o quanto a queda do avião não teria sido uma vingança de Hoover – hipótese descartada mais tarde.

Acabou essa fase e Ollestad virou um viciado em esportes radicais com planos extraordinários para o filho. Ele o imaginava como um grande atleta capaz de conquistar bolsas em universidades de respeito, ou uma vaga num time profissional de respeito. E o treinava diariamente com essas ideias em mente.

Segundo o escritor, se o pai não o tivesse exposto a todas essas atividades, ele não conseguiria escapar com vida da montanha, pois sua experiência como esquiador se mostrou fundamental para encarar as circunstâncias. (O que ele não menciona é que, se o pai fosse diferente, talvez eles não teriam entrado naquele avião em meio a uma tempestade para uma competição na neve.)

Os apelos de Loucos pela Tempestade são evidentes e vários, mas a maneira como Ollestad os utiliza torna a leitura esquemática. As cenas radicais de surfe e esqui são envolventes de início, mas a repetição as torna maçantes.

A alternância entre os capítulos sobre o acidente e outros sobre a convivência com o pai é um recurso pobre e banalizado. Para arrematar, o epílogo salta quase três décadas no futuro e o autor conta como foi reencontrar as pessoas que o ajudaram no acidente e refaz o trajeto de voo com a ajuda de um amigo piloto. Poderia ser um dos momentos mais intensos do livro, o acerto de contas com o passado, o ponto de partida para escrever suas memórias, mas ele se limita a dizer que "o estômago subiu na garganta" ao entrar no avião e vai em frente.

Depois do voo, caminhando pela montanha, desta vez sem neve, Ollestad encontra o que acredita serem pedaços do avião Cessna que caiu 30 e tantos anos antes. Na conversa com o amigo piloto, encontra uma explicação possível para o acidente e a banalidade dela é atordoante (para o autor e para o leitor).

Em alguns parágrafos, Ollestad tenta fazer um paralelo entre a relação que teve com o pai e a que tem com o filho, Noah, de 6 anos. Ele descreve uma cena em que obriga a criança a descer uma parede íngreme de gelo, exatamente como o pai havia feito com ele no passado.

Apesar de hesitar, o pequeno Noah enfrenta o desafio e, de acordo com a descrição do escritor, acaba gostando da aventura. Ollestad argumenta que essa é uma boa maneira – não a única, mas a que conhece melhor – de fazer o filho criar autoconfiança.

Pelo trauma que viveu e pelo afeto que demonstra com relação ao pai e às lições que aprendeu, Ollestad consegue criar uma história emocionante. Debaixo do relato dele, no entanto, é possível encontrar muitos mais temas que valem ser pensados. Entre eles, estão o surfe e o esqui, atividades que o exasperavam às vezes por causa da insistência com que o pai o incentivava a praticá-las. Hoje, elas são sua vida e talvez representem o maior elo que ainda guarda com o Ollestad morto.

Serviço:

Loucos pela Tempestade – A Memória de um Sobrevivente, de Norman Ollestad. Record, 308 págs., R$ 42,90.

Na internet

Leia mais sobre literatura no blog Livros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.