
"Enigmático", "misterioso" e "imprevisível" aparecem em textos que tentam se aproximar do cinema de Apichatpong Weerasethakul. O diretor tailandês tem recebido atenção desde que se tornou o primeiro de seu país a vencer a Palma de Ouro, no Festival de Cannes de 2010, com Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas. O longa-metragem está em cartaz em São Paulo e, de acordo com a distribuidora Filmes da Mostra, há planos de exibir o filme em Curitiba, porém, nenhuma data definida.
Tim Burton, o diretor de Edward Mãos de Tesoura (1990) e presidente do júri que premiou Tio Boonmee..., o descreveu como "um sonho estranho e belo". A filmografia de Weerasethakul é tão incomum quanto o seu nome (os norte-americanos o rebatizaram de "Joe", tamanha a dificuldade de pronúncia) e subverte todos os padrões de narrativa cinematográfica transformados em regra pelo cinema ocidental em geral e por Hollywood em especial.
Baseado no livro de um monge budista que dizia ter memórias de existências anteriores, Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas não é o tipo de filme que você tem de entender. Ele não é complicado na forma nem no conteúdo, mas pode ser difícil na medida em que pede do público algo que filmes não costumam pedir: contemplação. É preciso "sentir" o filme de um modo semelhante ao que se usa para apreender uma pintura, ou uma instalação. É menos uma questão de "raciocínio" e mais de "sensibilidade".
Tenha em mente que Tio Boonmee... surgiu de um projeto de videoinstalações chamado Primitive, inspirado nos conflitos que marcam a história política do país. Resumindo de maneira grosseira, há um embate entre as regiões rurais do país, que enfrentam inúmeros problemas, e a elite situada em Bangcoc, onde vive inclusive a realeza do país.
Weerasethakul nasceu e viveu na parte rural, no nordeste da Tailândia, e costuma ser destemido para criticar a política do seu país, chamando atenção para o quanto ele é violento e administrado por "uma máfia". Não por acaso, existem trabalhos dele que foram censurados e o cineasta é alvo de comentários violentos por se posicionar contra os poderosos. Na internet, em meio aos ataques anônimos típicos da rede, há até quem peça a cabeça do diretor.
No filme, Tio Boonmee sofre de problemas renais e precisa fazer diálise. Ele é viúvo e convive com a cunhada (irmã da esposa morta) e com um rapaz (enfermeiro?), que o ajuda no tratamento. Boonmee está se preparando para morrer e começa a receber a visita de fantasmas e, como o título diz, a lembrar vidas passadas.
A cena de abertura mostra um boi amarrado a uma árvore, tentando escapar. É notável como a selva de onde saem os fantasmas é uma presença forte no filme, quase um personagem. A riqueza de sons que preenchem essa sequência é mais marcante do que uma trilha sonora (e não há música nenhuma no filme).
Falando sobre o projeto Primitive para a imprensa norte-americana, Weerasethakul explicou que Tio Boonmee é sobre "ir às raízes das coisas, do que nós temos nos nossos corpos, da energia primitiva". O filme é sobre memória e também sobre a morte. Para realizá-lo, o diretor voltou ao lugar onde nasceu, Khon Kaen, e visitou também as cidades natais de seus atores (aliás, todos amadores).
Usando como cenários a selva e o campo, o filme teve um orçamento inferior a US$ 700 mil, um valor insignificante para qualquer padrão na indústria norte-americana, é dinheiro do chiclete. Antes de levar a Palma de Ouro, o cineasta já havia sido premiado em outras duas ocasiões: Sud Sanaeha ganhou a mostra Un Certain Regard em 2002 e Sud Pralad levou o Grande Prêmio do Júri em 2005.
Numa das reportagens feitas pelo jornal The New York Times, outro cineasta de nome trava-língua, o tailandês Anocha Suwichakornpong, disse que não se importa com os temas abordados nos filmes de Weerasethakul, pois eles são sempre "uma experiência sensorial". É uma boa definição.
Experimente abrir este jornal na página seis, a do roteiro de cinema. Vê os filmes que estão em cartaz hoje? Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas é muito, muito diferente de todos eles. Quando (e se) você for ver qualquer trabalho de Weerasethakul, a questão não será decidir se ele é bom ou ruim. Fará mais sentido perguntar: o que você sentiu diante do que viu?







