
Desde o fim da década de 70, quando Jean Michel Basquiat começou a chamar a atenção em Nova York por conta de seus grafites em prédios abandonados de Manhattan e ganhar status de celebridade dentro do meio artístico, o grafite evoluiu. A princípio marginalizada, a arte urbana vem não somente ganhando mais espaço como levando o nome e os artistas do país para um patamar internacional (como os irmãos Gustavo e Otávio, Os Gêmeos, que são constantemente convidados para grafitar prédios importantes fora do Brasil). Dando um exemplo local, quem observa o mar de novas construções em Curitiba certamente já deve ter visto tapumes ou grandes paredes decoradas com a street art, tendência que começa a pipocar na cidade.
Os artistas Jorge Galvão e Thiago Syen transformaram os tapumes que cercam o terreno onde será implantado um novo empreendimento imobiliário no Centro Cívico. Os 130 metros de parede colorida e repleta de desenhos de símbolos do bairro chama a atenção de quem circula por ali, seja de carro, ônibus ou a pé. Da "primeira leva" de grafiteiros de Curitiba, Galvão acredita que essas obras de arte urbanas estão em sintonia com o que vem acontecendo na cidade. "As manifestações de rua que temos visto, como a Virada Cultural e o bloco Garibaldis & Sacis, mostram que o curitibano está saindo do apartamento e prestando mais atenção na rua. De certa forma, o grafite acaba sendo um reflexo disso, e também mais valorizado."
Apesar da contratação dos artistas pela empresa responsável pela obra, Jorge Galvão conta que não houve um direcionamento ou tema a ser seguido. "Tivemos liberdade total. Sugeri personagens e não houve interferência. Algumas coisas até inventamos na hora", conta. O artista André Mendes, responsável por duas obras (uma no Água Verde e outra no Campina do Siqueira) do projeto Urban Gallery, da Incorporadora Brookfield, acredita que essas ações permitem que as pessoas interajam com algo construtivo. "Muita gente não vai ao museu. A possibilidade de se deparar com uma obra de arte por acaso é muito interessante, ainda mais hoje, com o bombardeamento de publicidade e propaganda."
Na obra do Campina do Siqueira, Mendes fez um grande desenho (escolhido por internautas, em um concurso cultural promovido pela incorporadora) na parede do prédio que fica ao lado da construção o que necessitou de uma infraestrutura pesada, com uma empresa de pintura que ajudou no preenchimento das formas e uma plataforma aérea, durante os 15 dias de trabalho. Com curadoria da empresa espanhola Rojo, o projeto surgiu em 2010 pensando em contribuir com o espaço urbano. "Ao fazer uma construção, você passa a integrar o local, no caso, Curitiba. Nossa ideia foi a de transmitir uma oportunidade para os moradores da cidade", diz a diretora de marketing institucional e responsabilidade social da Brookfield, Adriana Henriques Pusch.
Vandalismo
Evitar pichações no muro foi a primeira motivação da diretora da revista Top View, Cintia Peixoto, de convidar artistas locais para fazer arte no muro da casa onde está instalada a redação da revista. O projeto, que já dura três anos, deu tão certo que há, segundo Cintia, uma "fila" de artistas esperando para pintar. Foram mais de 40 profissionais nesse período, desde grafiteiros iniciantes até nomes como Denise Roman. "Havia muito a ideia de não valorizar o artista daqui, como se eles não produzissem. A intenção é mostrar o contrário", ressalta.
Anterior ao projeto artístico, a incorporadora Monarca, responsável pelo empreendimento do Centro Cívico, já havia tentado outras ações para evitar pichações nos tapumes brancos que cercam as construções. "Não durava um dia limpo. Pensamos no projeto como uma oportunidade de explorar algo mais artístico e, ao mesmo tempo, percebemos que há um respeito pelo trabalho em grafite", diz o diretor Seme Raad Filho, que também focou na conquista do público-alvo do empreendimento. "É um cliente essencialmente urbano, que quer morar no coração da cidade e está mais familiarizado com essas manifestações." De acordo com Raad, a intenção da empresa é levar a ideia para grande parte das novas obras.
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