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Cênicas

Arte de improvisar é “o jazz do teatro”

  • Helena Carnieri
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TOPO

Faz sentido treinar alguém para improvisar melhor? Esse é o trabalho do argentino Omar Galván, que vive em Madri e esteve em Curitiba na semana passada para apoiar um espetáculo do grupo Antropofocus. O gênero da improvisação, especialidade de Galván, é representado no país pelos curitibanos e por grupos como o paulistano Barbixas. A Gazeta conversou com Galván e com Andrei Moscheto, do Antropofocus.

Como você entrou no improviso?

Galván – Comecei estudando teatro clássico em Buenos Aires. Mas dois, três anos depois senti que me faltava algo físico... a escola onde eu estava era muito intelectual: para fazer uma cena se pensava muito, se falava muito. Eu sentia que isso era bom, mas ainda me faltava algo como um treino. Então vi um pôster sobre teatro de improviso, em 1994. Era um gênero que já vinha do final dos anos 1980.

E no Brasil?

Moscheto – Aqui havia algumas experiências mais ligadas à commedia dell’arte, tentativas de trazer os theater sports [competições de improviso], na década de 90, mas sem sucesso. Uma dessas tentativas ocorreu em Curitiba, creio que por gente ligada do Barracão EnCena. Fizeram por um período e pararam. No Brasil, o primeiro evento de improviso foi Jogando no Quintal, de palhaços de São Paulo.

É difícil, mas tentamos não ser previsíveis. Nosso trabalho é jogar aberto um ao outro, senão você termina pensando que só alguém genial pode improvisar, e não é isso.

Omar Galván, ator.

E hoje, em Buenos Aires, ainda está em voga?

Galván – Ainda tem muito improviso, e existem companhias dessa técnica em todo o mundo. Estive há três anos na Índia, em Bombaim, e ali fazem improviso com a mesma técnica, e trabalhamos normalmente. Às vezes se diz que esse é o jazz do teatro, porque é possível encontrar alguém que nunca se viu na vida e improvisar juntos.

Como o humor na internet modifica a técnica?

Hoje com mais informação via internet há um verdadeiro intercâmbio de informações.

No seu show as pessoas escrevem frases que você usa nas histórias que cria no palco. As frases pedidas ao redor do mundo são parecidas?

Galván – Uma coisa curiosa foi em Ibiza. Para as pessoas que vivem lá é um lugar parado no tempo, em que reina a onda do amor e paz. E vieram frases do tipo “paz e amor”, “amor e paz”. Era difícil, porque era tudo muito similar. E depois soube que a pessoa na entrada solicitando que o público escrevesse as frases pedia na verdade que escrevessem “desejos”.

Qual é o seu estilo de improvisação?

Galván – Uso, por exemplo, o estilo de García Márquez, do realismo mágico, num universo em que alguém vive 300 anos, morre só por amor... ou da Bíblia, similar ao Monty Python em A Vida de Brian: irreverente, com anedotas que não sucederam de verdade.

E o Antropofocus, por que tem caminhado para o improviso?

Moscheto – Queria fazer uma peça de improviso em que você olhasse para a cena e dissesse “isso é teatro”. Você não vai para casa lembrando das piadas, e sim das histórias que viu ali. O teatro requer que você entre em conexão com o artista de tal modo que você compre que aquela história realmente se passou na sua frente, quando a plateia topa entrar naquele pequeno universo onírico. Quando fui ver o Omar [Galván], meu impacto foi esse.

Não é um paradoxo ensinar a improvisar?

Galván – É como na música. Um músico pratica acordes, notas, novos ritmos. Nós praticamos também, e depois jogamos não com um material ensaiado, mas com o que vai surgindo. O que precisa é escapar um pouco das estruturas, não nos repetirmos. É difícil, mas tentamos não ser previsíveis. Nosso trabalho é jogar aberto um ao outro, senão você termina pensando que só alguém genial pode improvisar, e não é isso.

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