
O projeto Teatro Mágico já alcançou números impressionantes em sua trajetória de quatro anos e meio no ramo independente. O segundo CD do grupo, intitulado "Segundo Ato", está disponível gratuitamente na Internet ou em formato físico. Uma mídia não inibiu a outra foi um total de 1 milhão de downloads até então e 15 mil álbuns vendidos. O fundador do grupo, Fernando Anitelli explicou, em entrevista à Gazeta do Povo, a importância de manter o projeto nos mesmo moldes em que começou, sem estar atrelado a uma grande empresa.
"Todas as grandes gravadoras já ligaram para a gente. Mas não faz sentido algum. Vem alguém com um monte de dinheiro e fala que vai comprar o projeto. Na cabeça deles, música é entretenimento. Mas na verdade, não é", explicou Anitelli.
Para o artista multifuncional, que dentro do espetáculo não só canta, mas também dança, interpreta e declama poesia, "arte é algo sagrado". "É para que o público possa sair debatendo questões que você pode refletir sobre o que passa com você mesmo", detalhou Anitelli. "Tudo cabe no Teatro Mágico, pois toda arte dialoga uma com a outra. Dentro deste perfil, começamos a fazer misturas e sempre tivemos como foco o público. Só temos rabo preso com ele", disparou.
Anitelli garantiu que a opção por se manter na cena independente é um caso "pensado". "Não é porque somos muito loucos. Se nós tivéssemos em uma gravadora, o CD não iria custar R$ 5", explicou.
Apesar de garantir um retorno financeiro menos expressivo, o artista explicou que é possível viver "dentro do nível da classe média". "Conseguimos viver do nosso trabalho com dignidade, cuidando de tudo aquilo que é nosso", disse.
Com dois álbuns lançados, o próximo passo é o terceiro que completará uma trilogia. "A idéia é conceber três CDs, nos quais os três trabalhos falam de ética, política e religião", explicou Anitelli.
Ele adiantou ainda que o grupo vai lançar três DVDs, cada um relacionado a um dos álbuns de estúdio. Sem data para terminar, o Teatro Mágico ainda não sabe qual será o caminho após o fim desta etapa, mas garantiu que seguirá adiante. "Não queremos jogar fora tudo que nós conquistamos, mas queremos trabalhar com qualidade, tempo e carinho", completou.
Confira a íntegra da entrevista:
O grupo começou com destaque apenas em São Paulo e hoje já em conhecido em várias partes do País. Como foi este processo?
O Teatro Mágico começou há quatro anos e meio. Nós fizemos apresentações em todos os locais possíveis que podíamos ocupar. Foram centros culturais, escolas, teatros pequenos, barzinhos pequenos, quadras, ginásios. Nada nos aconteceu por acaso. O histórico que a gente teve foi de sempre se dispor a ocupar os espaços que a gente tinha da maneira que fosse mais adequada para poder traduzir a idéia do projeto para todas as pessoas. Misturamos tudo, músicos diversos, cada músico com um histórico diferente. Circo, teatro, poesia, artes plásticas, artes visuais, dança. Tudo cabe no Teatro Mágico, pois toda arte dialoga uma com a outra. Dentro deste perfil, começamos a fazer todas essas misturas e sempre tivemos como foco o nosso público. Só temos rabo preso com o nosso público.
Por que o Teatro Mágico não está em uma gravadora de grande porte?
Não é porque somos muito loucos. É tudo pensado. Se nós estivéssemos em uma gravadora, o CD não iria custar R$ 5 na mão do público. Eu não iria poder divulgar de graça o meu trabalho na Internet. Eu não iria poder falar sobre o que eu quiser no CD. Eu não iria poder gravar uma música com sete minutos de duração.
Mas vocês já receberam convites de grandes gravadoras?
Todas as grandes gravadoras ligaram para a gente: Universal, Warner, EMI, BMG, Sony. Todas vieram com o mesmo discurso: "nós queremos comprar o produto de vocês. Vamos cuidar do Teatro Mágico pelos próximos dois anos". Mas poxa, não faz sentido algum. Com o trabalho independente nós fazemos tudo com carinho, com responsabilidade. Agora, vem alguém com um monte de dinheiro e fala que vai comprar o projeto para colocar-nos em tal e tal mídia e aí, pronto, você é um sucesso. Espera aí. Hoje, nós temos a possibilidade de utilizar a Internet, que é uma mídia que até então é livre e é capaz de nos colocar frente a frente com o nosso público de maneira muito clara. Isso é muito importante.
Vocês permitem uma grande intervenção do público dentro do projeto?
Sim. Toda vez que acaba uma apresentação a gente conversa com o público. Essa sintonia que a gente tem faz do nosso público co-autor do Teatro Mágico. O público filma e joga na Internet. Eles tiram fotos e colocamos no site. O público cria coreografias. Eles vão vestidos de personagens e até interrompem a apresentação para falar alguma coisa. Uma porção de coisas acontece. As gravadoras não teriam esse cuidado com a música e com o projeto. Na cabeça deles, música é entretenimento. Arte é entretenimento. Mas na verdade não é.
Como você definiria a arte?
Arte é algo sagrado. A gente tem que cuidar. A música tem que ser usada como ritos, ritos de passagem. Você usa a música para a cura. Para louvar, para celebrar, para fazer uma crítica. Eu sou daquela linha Plínio Marcos, na qual você faz um texto para que, parafraseando Clarisse Lispector, as pessoas podem brincar de pensar. É para poder sair debatendo questões que você pode refletir sobre o que se passa com você mesmo, para que você possa contextualizar. Tudo isso é importante.
Você tem retorno financeiro com este trabalho independente?
Conseguimos. É justamente aí que está a grande "sacada". O mercado independente, paralelo a esse mainstream que a gente está acostumada a ver, ele existe. Ele é possível. Existem milhões de grupos no mundo afora se organizando não somente virtualmente, mas também fisicamente, por meio de festivais, apoios, patrocínios. Esse apoio e este patrocínio não é aquela coisa que você tem que vestir a camiseta da Fanta Laranja e sair cantando. Não precisa nada disso. Você pode fazer parcerias, apoios culturais com outras empresas dentro de outro perfil que não faz do artista um vendedor ambulante. Já está criado o mercado paralelo independente. Tudo isso fortalece o artista independente para continuar em sua caminhada sem precisar o tempo todo inquieto e se vendendo. Ele não precisa sujar sua carreira por nada. O retorno financeiro vem automaticamente. Prova disso é que o Teatro Mágico sempre liberou todas as músicas na Internet e lançamos o segundo CD, "Segundo Ato", por meio do site Trama Virtual, no qual as pessoas podem baixar o álbum de graça. Nessa semana, alcançamos 1 milhão de downloads em quatro meses.
Vocês receberam alguma coisa por isso?
A Trama tem o projeto do artista remunerado, no qual a própria Trama tem parcerias com outros grupos e os artistas que são mais baixados recebem um incentivo financeiro da empresa. Não é lá essas coisas, mas tudo bem. O que interessa para nós não é se meu CD vai custar R$ 5, R$ 10, R$ 15. E que as pessoas conheçam o nosso trabalho, porque aí sim o público vai se interessar, vai a uma apresentação, vai pagar para entrar, vai levar um amigo.
E como ficaram as vendas do CD físico?
Mesmo com os downloads, a gente já vendeu em quatro meses um total de 15 mil CDs. Uma coisa não inibe a outra de certa maneira.
O projeto, que foi fundado por você, é uma união de vários segmentos artísticos em um único espetáculo. Como você definiria o objetivo principal do Teatro Mágico?
O objetivo principal é conseguir estabilidade com este projeto, poder caminhar com ele para cima e para baixo, tocar em Marte, em outros países. Ter relação com outros músicos, outros grupos. É amadurecer dentro daquilo que estamos fazendo. Do primeiro para o segundo CD tem isso claramente. A gente buscou esse amadurecimento musical, filosófico. Estamos conquistando tudo isso. Hoje, o Teatro Mágico viaja semanalmente com 25 pessoas dentro da equipe, são praticamente 15 pessoas no palco e outras dez ajudando como contra-regra, no figurino, equipe técnica, iluminação. As pessoas conseguem viver. O salário mínimo hoje chega a R$ 400, então hoje a gente consegue estar em uma classe média. Conseguimos viver do nosso trabalho com dignidade, cuidando de tudo aquilo que é nosso. Dá para viver. Sempre queremos mais, queremos melhorias, mas vamos conquistando.
Como foi feita a audição para selecionar esta equipe que está no Teatro Mágico?
O Teatro Mágico já está na quarta formação em quase cinco anos. Nós não somos uma banda, somos uma trupe. Banda tem música, é um projeto essencialmente musical. Mas nós temos os atores, as atrizes que fazem a parte circense. Tem a parte de dança, tem quem declame poesia. Todo esse jogo requer muita criatividade, responsabilidade, maturidade, sonoridade. Temos que somar tudo isso para fazer parte do grupo. Eu conheci muitas pessoas através de saraus. Eu freqüentava e fui conhecendo uns e outros. Aos poucos tivemos que ir lapidando. Nesses anos todos, a formação foi feita gradativamente. O pessoal começa a integrar a equipe naturalmente.
Quais foram as referências para criar o Teatro Mágico?
A idéia veio de colocar em um mesmo plano todas as coisas que aconteciam dentro de um sarau. Era aquela mistura toda. Mas tenho referências de artistas como Ney Matogrosso, Secos e Molhados, Antônio Nobre, Zeca Baleiro, Tom Zé, Chico Science, Dave Matthews Band, Ben Harper, Simon and Garfunkel, Stones, Beatles, The Killers, Radiohead. Vai de tudo um pouco. Desde a concepção do cenário. Tem também Oswaldo Montenegro, Raul Seixas, essa coisas de trazer a fantasia, o lúdico, o personagem, letras críticas. Como fazer isso de maneira acessível. O curioso é que todas as referências são pessoas que se relacionam em verdade com a sua própria arte. Esse povo todo eram pessoas que tinham como foco o seu trabalho em si, e não a vendagem. É lógico que a gente se preocupa com isso, não é uma coisa de "ah, eu sou um neo-hippie que não penso na grana". Não é isso. Mas não é isso também que nos faz acordar diariamente e se pintar e fazer canções. É um trabalho como qualquer outro, mas no primeiro plano está a tradução da nossa própria expressão.
O que é mais difícil de fazer no palco: cantar ou realizar os movimentos da arte circense?
Em cima do palco é um jogo de atenção o tempo inteiro. Eu canto, toco, danço, declamo poesia e improviso. Todos os músicos são atores, então estão todos como personagens. Tem que ter uma iluminação casada, um espaço no palco para um monstro de pernas e braços de pau entrar. Tem o momento em que a dança acontece e tem que ter a fumaça X ou Y. Tudo isso é muito ensaio. Um depende muito do outro.
Como é feita a produção e seleção de repertório?
Todas as músicas são minhas. Eu escrevo os textos e as músicas, eu levo para o pessoal da banda. A gente faz um apanhado geral de idéias, de arranjos. Eu falo do que se trata a música, o que eu quero passar, qual é a densidade dela. Os atores buscar trazer encenações para compreender tudo isso. Todo mundo dá idéia, se vai ser um aparelho circense, malabares, acrobacias. São músicas do primeiro CD, que é o "Teatro Mágico: Entrada para Raros", e o segundo que é o "Segundo Ato". A gente mistura as duas coisas. Agora, nós estamos justamente divulgando o "Segundo Ato" e tocando as coisas que já são consagradas do Teatro Mágico.
O projeto já gravou dois CDs em estúdio, sendo que um deles foi lançado este ano. Há preparativos para um próximo trabalho?
Sim. O Teatro Mágico é uma trilogia. A idéia é conceber os três CDs, onde os três trabalhos falam de ética, política e religião. Dentro disso, brincamos com a palavra, com os timbres. No primeiro trabalho tinha muita batucada regional, percussão, poesia, gaita, violões e até eletrônico. No segundo, já tem uma metaleira, trompete, sax, um hip hop, samba, cravo, coral. A essência, que é essa coisa de experimentar, permanece. A gente vai pensar no próximo ano ainda para dar tempo de ir a todos os locais que estamos pensando em ir. Aí, a idéia do terceiro virá. Não sei nem o nome nem o conteúdo. Tenho uma prévia, o que possa vir a ser.
Por que uma trilogia e o que virá depois do encerramento deste projeto? O Teatro Mágico tem data para terminar?
Não termina. Nesse primeiro momento eu pensei em uma trilogia. Talvez por assistir "De Volta para o Futuro", "Indiana Jones", "Guerra nas Estrelas". Aí fica esse negócio: "ah, eu quero uma trilogia". A gente pára um ano e depois volta com "O Retorno do Palhaço Jedi" (risos). Na verdade, eu quero trabalhar também com um projeto infantil, além de ter um livro só de poesia e contos que eu estou fazendo. Também faço quadrinhos, que eu não quero abandonar. Cada um no Teatro Mágico é um artista independente que compõe os seus trabalhos e projetos também. Queremos dar oxigênio e espaço para isso. A gente vai conceber essa trilogia, e depois a gente pode trazer outra trilogia. Vamos formatando essas coisas todas. Vamos gravar também três DVDs sobre cada CD. Não queremos jogar fora tudo que nós conquistamos, mas queremos trabalhar com qualidade, com tempo, com esse carinho.




