
"Aquilo que não vai para o teatro e para a literatura, não existe." A frase foi dita por Nélida Piñon à reportagem da Gazeta do Povo, na terça-feira passada, por telefone, do Rio de Janeiro, e diz respeito ao mais recente projeto da escritora. Trata-se de Coração Andarilho, livro de 352 páginas, em que a integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL) recupera momentos de sua trajetória. "Vivemos para traduzir os fatos em arte", diz. E, nesta obra, ela trasforma em arte literária muito do que a marcou e a fez chegar até o presente.
"Meu testemunho é impreciso." Assim começa a autobiografia. A memória impulsionou e, durante 2006 e 2007, ela escreveu sobretudo burilou o texto e os episódios marcantes de sua vida. As aventuras foram muitas, desde antes dela nascer. Em 1937, o fato de uma criança ter sumido de uma maternidade comoveu a população do Rio de Janeiro. Carmen, a mãe de Nélida, impressionada com o cirme e, também com medo de que a filha fosse trocada por outro recém-nascido, decidiu dar à luz em casa naquele 3 de maio. "Até o final da vida, a minha mãe repetia para mim: Graças a Deus que não tenho dúvida de que você é minha filha".
Nélida interrompeu duas vezes a entrevista para fazer recomendações a uma cozinheira a respeito de um jantar que seria realizado naquela noite em seu apartamento. Ela gosta, e faz questão, de incrementar pratos, de acordo com a ocasião, com por exemplo hortelã, cominho e mesmo gotas de mel. "Temos o direito de dar provas de que conhecemos o processo civilizatório. Um tempero, que passou a ser utilizado, é um marco na história dos homens."
Idiossincrasias
Dia desses, ao caminhar pelas imediações da Lagoa Rodrigo de Freitas, Nélida parou uma mulher, desconhecida, e pediu para olhar os olhos dela, azuis. "É que procuro em todo o lugar o azul que havia nos olhos do meu avô Daniel." Esse ancestral, por parte de mãe, mais do que querido, é uma referência que jamais abandona o imaginário da autora. Ele transmitiu sabedoria, a exemplo do que se lê nas páginas de Coração Andarilho: "Minha neta, aprenda a devolver a refeição que não lhe agrade. Não aceite o que não estiver bem. E sem pedir muitas desculpas."
O pai, Lino, figura ausente em depoimentos e relatos da autora, praticamente "pediu" para aparecer nesse livro. Nélida fez uma confissão para a reportagem da Gazeta do Povo: "Meu pai queria um menino, para dar prestígio à família e ao sobrenome. Pensava que uma filha não seria capaz. Mas eu consegui". O pai, que abdicou de falar galego e castelhano em casa iria, com isso, legar para a filha (descendentes de espanhóis) o português como língua do bem-querer e da expressão em geral.
Origens
Nélida conheceu a Europa e, em especial, a Espanha, ainda menina. Tinha 10 anos. E a mais visceral expressão cultural daquele país, o flamenco (originário da Andaluzia), desde então, faz parte de seu repertório. "A música andaluza tem a eloquência do silêncio do deserto. Clama por sentimentos que batizamos com a nossa incerteza." A voz rascante do cantaor Camarón de la Ilsa (1950-1992), acompanhado que sempre foi pela guitarra de Paco de Lucia, é para ela algo inesquecível. O contato com esse suposto "diferente" foi fundamental para a sua percepção de ser e estar no mundo.
"O outro não é diferente, antes, um igual. E foi o outro, o espanhol, que me fez sentir ainda mais brasileira, e isso quando eu era bem pequena." E, enquanto menina, pediu à mãe que indagasse uma cartomante para dizer se ela, Nélida, seria um dia escritora. Os vaticínios foram os piores possíveis. Recomendavam que esquecesse a literatura. Mas a vida se encarregou de fazer dela a escritora que o Brasil e, por que não?, o mundo conhece. "A minha vida, como a de todo escritor, está possivelmente embutida no meu texto, ali cravada como uma lança. Sobre esta vida, e este texto, só posso referir-me com absoluta relatividade."
Serviço
Coração Andarilho. Nélida Piñon. Record. 352 págs. R$ 38.



