
Aos poucos, o legado literário da geração beatnik fica inteiramente às disposição dos leitores brasileiros. Após o lançamento, no início do ano, do manuscrito original da obra máxima do gênero On the Road Pé na Estrada, de Jack Kerouac (L&PM) chega às prateleiras nacionais neste mês mais uma tradução de uma obra inédita do escritor: E os Hipopótamos Cozinharam em Seus Tanques (Companhia das Letras), escrito a quatro mãos, ao lado do também ícone beat William S. Burroughs.
Tirado de uma notícia de rádio ouvida por Burroughs, o título esquisito, que relatava os estragos causados por um incêndio em um circo na década de 1940, pouco (ou quase nada) tem a ver a temática do livro, escrito em 1945 e só publicado pela primeira vez no ano passado. Trata-se de uma espécie de romance policial, um relato ficcional do crime cometido em 1944 pelo jovem Lucien Carr, amigo de Kerouac, Burroughs e Allen Ginsberg (poeta beat, autor do celebrado Uivo, de 1956).
Garoto rico do Missouri, Carr, um "belíssimo jovem esbelto, louro de olhos amendoados verde-esmeralda", conforme descrição de Yves Buin, um dos biógrafos de Kerouac, despertou o interesse da Edie Parker no final de dezembro de 1943. Namorada e futura esposa de Kerouac, Edie convidou o "sedutor irresistível" para uma visita ao apartamento que ela dividia com o escritor, em Ozone Park, Nova Iorque. As afinidades entre os dois eram gritantes e Carr e Kerouac passaram a conviver intensamente. Foi através dele que Kerouac conheceu figuras como Allen Ginsberg, William Burroughs e Dave Kammerer.
Mais velho que os demais do grupo de estudantes boêmios, Kammerer, desde sempre, fora apaixonado por Carr e chegou a abandonar um posto de professor de literatura em Washington para se tornar porteiro em Nova Iorque, quando Carr deu início a seus estudos na Universidade de Columbia. Oito anos de uma relação platônica e doentia em um episódio narrado no romance, Kammerer ingere uma colher cheia de páprica a mando do jovem só poderiam resultar em uma tragédia, que ficou conhecida como "o assassinato que deu origem aos beats".
Na madrugada de 14 de agosto de 1944, na agitada Riverside Park, no Upper West Side, em Nova Iorque, Lucien Carr e Dave Kammerer estavam sós e bêbados quando uma discussão terminou em luta corporal. Com seu canivete de escoteiro, Carr esfaqueou seu admirador no alto do peito. Desacordado e sangrando, Kammerer teve as mãos amarradas com os cadarços de seus sapatos e os bolsos recheados de pedras. Carr então, deu o golpe de misericórdia e jogou o corpo de Kammerer, ainda vivo, Rio Hudson abaixo.
Imediatamente, Carr foi até a casa de Burroughs para relatar o acontecido. Foi aconselhado a contar tudo a seu tio, o empresário Godfrey S. Rockefeller, proprietário de uma companhia têxtil, que contratou dois bons advogados para impedir que o sobrinho fosse condenado à cadeira elétrica. A segunda pessoa a tomar conhecimento do assassinato foi Kerouac, que ajudou Carr a se livrar da faca (jogada numa saída de esgoto) e dos óculos de Kammerer, queimados em um parque.
Com o argumento de ter sido perseguido durante oito anos por Kammerer, homossexual assumido, Carr foi condenado a apenas dois anos no reformatório de Elmira, em Nova Iorque. Durante 15 dias, Kerouac permaneceu detido, acusado de cumplicidade. Saiu da prisão mediante o pagamento de uma fiança de US$ 2,5 mil, doados pela família de Edie Parker, que, em troca, exigiu o casamento dos dois, realizado na cadeia, com um policial como testemunha.
A tragédia rendeu um material vasto aos beatniks. Além de em E os Hipopótamos..., o crime aparece disfarçado, com detalhes e nomes alterados em The Blood-Song, romance inédito de Allen Ginsberg, escrito quando ele ainda estudava em Columbia. O assassinato também está presente em Cidade Pequena, Cidade Grande (1950), primeiro romance de Jack Kerouac, e Vanity of Duluoz (1968), última obra do escritor. Sem falar nas biografias de todos os integrantes do primeiro "bando" beatnik, publicadas ao longo das décadas. E os Hipopótamos..., no entanto, permaneceu guardado a sete chaves por James W. Grauerholz, curador do espólio de Burroughs e amigo de Lucien Carr, a quem prometeu não publicar a obra enquanto este vivesse. Agora que todos já se foram Kammerer, Carr, Kerouac e Burroughs , os leitores podem conferir a primeira versão escrita da maior tragédia beatnik.
Serviço
E os Hipopótamos Foram Cozidos em Seus Tanques, de William S. Burroughs e Jack Kerouac. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza. Companhia das Letras. 169 págs. R$ 34.





