Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Guimarães rosa – 100 anos

Travessia universal

O trajeto de Riobaldo, o narrador de Grande Sertão: Veredas, pelo interior de Minas Gerais, Bahia e Goiás traça um mapa simbólico que transcende a dimensão geográfica

João Guimarães Rosa era um curioso. Em suas andanças pelo sertão mineiro, "perguntava mais que um padre", como relatou o companheiro de viagem Manuel Narde, o Manuelzão, que viria a ser personagem do livro Manuelzão e Miguilim. Nada lhe escapava: queria saber o nome do que via, das flores a uma certa coloração do céu, e anotava tudo em suas cadernetas, hoje arquivadas no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (USP).

As experiências que teve e as descobertas que fez no interior de Minas Gerais, onde nasceu e exerceu a Medicina, serviram de matéria-prima para a criação de uma paisagem literária, ao mesmo tempo real e reinventada.

Em Grande Sertão: Veredas, o norte de Minas, o sul da Bahia e o leste de Goiás viram cenário de uma travessia épica de jagunços, narrada em primeira pessoa pelo personagem Riobaldo. Esse percurso é, na verdade, "um mapa simbólico", explica a professora doutora da USP Marcia Morais, autora do livro A Travessia dos Fantasmas – Literatura e Psicanálise em Grande Sertão: Veredas (Editora Autêntica/PUC Minas, 2001).

"Essa cartografia transcende o geográfico, o regional e o referencial para ser, de fato, representação de inscrições identitárias – da ordem do subjetivo e histórico-social, do universal e do imaginário. Não é por acaso que Riobaldo, dentre as múltiplas 'conceituações' de sertão que constrói no diálogo virtual com seu interlocutor diz que 'O sertão é o mundo'; esse mundo é exterior e épico e, como 'tudo é e não é', esse mundo é também interior e lírico", diz.

Dentro da gente

O sertão entranha-se nas palavras de Rosa. "O matagal cerrado de vocábulos novos e episódios pontuais exige do leitor persistência e acuidade, lâminas agudas para abrir a picada", afirma o professor Paulo Soethe, do departamento de Literatura da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O primeiro papel do trajeto geográfico é, como explica o estudioso, interno à obra. A travessia pelo sertão é formativa. Nela, Riobaldo toma consciência da precariedade e das ambivalências humanas – e de que o caminho é mais significativo do que a chegada.

A professora Márcia Morais destaca um dos locais de passagem dos personagens Riobaldo e Diadorim: Guararavaçã do Guaicuí. Lá, os dois vivem um momento ameno e idílico em que o narrador percebe que seu sentimento pelo amigo era amor. "Naquele lugar e tempo", relembra Riobaldo, seus destinos foram traçados.

As idas e vindas por rios, vales, serras, cidades, vilarejos e fazendas refletem, inclusive, aspectos psicológicos do protagonista. "O percurso, com os caminhos e descaminhos do bando, determinado pela alternância de objetivos e chefias, imita ainda o narrar incerto de Riobaldo e seus companheiros, os caminhos e descaminhos da memória, a alternância de sentimentos ligados às lembranças", diz Soethe.

O sertão é o mundo

Em Grande Sertão, o autor presta um tributo à sua região de origem e a transforma em símbolo das contradições, tensões e possibilidades do país. "Parece-me que, na profunda reflexão sobre a modernização do Brasil, o romance, em particular na figuração do espaço, encerra considerações pertinentes, hoje como nunca, sobre as possibilidades de nosso país, mas, também, sobre os riscos que já se anunciavam na década de 1950, em especial a violência e a ameaça de desagregação irreversível do tecido social", observa o professor.

Ao concentrar sua obra na específica geografia sertaneja, Rosa fala de todos os lugares – e de todos. É justamente isso que o torna um escritor que extrapola seu tempo e seu quintal. "A grande literatura sabe dar sempre o salto. Há uma interioridade humana que nos irmana – a nós todos e ao universo. O leitor se reconhece como contemplado na literatura roseana, independentemente de seu lócus, e esse lócus, qualquer que seja ele, está contemplado no sertão de Guimarães Rosa", explica Morais.

O impacto da obra de Guimarães Rosa gerou um movimento reverso. Se a sua ficção originou-se da observação da realidade, hoje, o olhar sobre a geografia sertaneja é direcionado pela sua literatura.

Em Cordisburgo, cidade mineira em que nasceu, se revêem cenários da obra de Guimarães Rosa. "Tudo o que se lê nos textos faz-nos atribuir à terra, ao sertão, ao sertanejo, à humanidade e ao mundo o seu valor intrínseco, a sua riqueza interior, que a nossa contemporaneidade tem feito esquecer com seus valores de consumo, de velocidade, de ruído etc.", diz a professora.

Grande Sertão: Veredas, curiosamente, deixa marcas na própria geografia da qual se apropriou. Soethe lembra que, na Região Centro-Oeste, há uma enorme área de preservação chamada Parque Grande Sertão: Veredas. A homenagem se estende no mapa e alcança o estado do Amazonas, onde está o Pico Guimarães Rosa. Sem esquecer que a travessia sertaneja realizada por Riobaldo e os outros jagunços já se tornou rota turística.

* * * * * *

"Eu ouvi aquilo demais. O pacto! Se diz - o senhor sabe. Bobéia. Ao que a pessoa vai, em meia-noite, a uma encruzilhada, e chama fortemente o Cujo - e espera. Se sendo, há de que vem um pé-de-vento, sem razão, e arre se comparece uma porca com ninhada de pintos, se não for uma galinha puxando barrigada de leitões. Tudo errado, remedante, sem completação... O senhor imaginalmente percebe? O crespo - a gente se retém - então dá um cheiro de breu queimado. E o dito - O Côxo - toma espécie, se forma! Carece de se conservar coragem. Se assina o pacto. Se assina com sangue de pessoa. O pagar é a alma. Muito mais depois."Fragmento de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

"E, Diadorim, às vezes conheci que a saudade dele não me desse repouso; nem o nele imaginar. Porque eu, em tanto viver de tempo, tinha negado em mim aquele amor, e a amizade desde agora estava amarga falseada; e o amor, e a pessoa dela, mesma, ela tinha me negado. Para quê eu ia conseguir viver?" Fragmento de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.