
São Paulo, 2004. Um produtor japonês esquece a caipirinha que pediu em um bar da cidade e fica embasbacado pelo que vê e ouve no palco. Um trio entrosadíssimo relê Baden Powell e John Coltrane, brinca de tocar Paulinho da Viola e Dorival Caymmi. O encontro fortuito resultou em Volume 1, primeiro disco do Trio Corrente, de 2005. O álbum de releituras era uma homenagem às influências dos paulistas Fábio Torres (piano), Edu Ribeiro (bateria) e Paulo Paulelli (baixo). Seis anos depois e com muitos shows especiais no currículo, o Trio Corrente lança Volume 2, em que apresenta suas próprias composições, igualmente de cair o queixo.
"Hoje em dia é mais seguro optar por criar músicas do que fazer releituras. É uma das nossas conquistas nestes dez anos de trajetória", conta Torres que, como os outros dois instrumentistas, lançaram seus discos autorais recentemente. Some-se isso ao que aprenderam ao conviver e tocar ao lado de figuras como Paquito dRivera, Anthony Wilson, Stacey Kent, Leila Pinheiro, Hamilton de Holanda e Leny Andrade, e é possível ter uma boa noção do que se esperar dessas 13 faixas, maior parte delas de autoria do trio.
"É muito bom para nós tocar com artistas tão díspares. Sempre abre portas. A Stacey Kent [que recentemente regravou Garota de Ipanema e fez show com os três, em maio] só veio porque sabe da qualidade musical do Trio Corrente", gaba-se o pianista. Ao lado do baixista, aliás, Torres tocou também com Rosa Passos. Enquanto Edu Ribeiro trocava uma figurinha com Yamandú Costa. É só peixe grande.
Disco
Em Volume 2, o Trio Corrente é unânime e uníssono. "Refém da Solidão" (Baden Powell/ Paulo César Pinheiro) abre o disco com força. O preciso piano de Torres dialoga com a versatilidade do contrabaixo de Paulelli. Segue-se com a sutileza de "Bem do Mar", de Dorival Caymmi, até que "Venezuelana", de Fábio Torres, resume o que é, enfim, o álbum.
Sem esforço, o trio ecoa o suingue de Cesar Camargo Mariano e Paulo Braga, por exemplo, que acompanhavam Elis Regina em seu auge. Ao mesmo tempo, "O Guarani da Palhoça", de Edu Ribeiro, relembra o que Herbie Hancock e Tony Williams fizeram ao tocar ao lado do gênio Miles Davis. O trio "corrente não é prisão, é água, é o fluxo, ensina Torres" consegue o que muitos buscaram. Fazer a síntese e a simplicidade da canção brasileira conversar com a prolixidade do jazz. As belas melodias de Tom Jobim mais o experimentalismo de um Coltrane, tudo isso regado a choro.
Apesar dos pesares, a música instrumental brasileira nunca deixou de reverberar e talvez tenha no Trio Corrente hoje um de seus melhores exemplos. "É muito difícil para um músico viver de carreira instrumental. Mas é um bom momento", diz Torres. "Há vários festivais de jazz e de música instrumental por aí. Nunca vai ser como um show do U2, mas vamos conseguindo nosso espaço".
Serviço
Volume 2. Trio Corrente. Borandá. Preço médio: R$ 24,90. Instrumental.



