
Escreva "jornal literário" no Google e o primeiro resultado a aparecer é a página do Rascunho, a mais duradoura e conhecida publicação de sua espécie. A afirmação não considera os títulos bancados com verba de governo, como o Pernambuco e o Suplemento Literário de Minas Gerais, este o mais antigo do país.
Editado pelo jornalista Rogério Pereira desde abril de 2000, o Rascunho completa dez anos e a expressão "sobreviveu" não é um exagero, pois as dificuldades financeiras nunca deixaram de ameaçá-lo.
"O Rascunho passou por fases muito distintas de um amadorismo puro no início para um semiprofissionalismo atual , mas todas sempre foram bastante complicadas devido às barreiras comerciais que um jornal dedicado à literatura sofre em um país não muito afeito à leitura. Mas acredito que a fase inicial era mais complicada, pois além da penúria, não tínhamos reconhecimento. Agora, a penúria ainda nos ronda, mas temos certo reconhecimento pelo trabalho", diz Pereira.
O Rascunho foi um dos nove selecionados no edital de apoio do Ministério da Cultura (MinC) que prevê a compra de assinaturas para bibliotecas do país. Uma polêmica empaca o processo: revistas que não foram contempladas questionam os critérios de seleção e entraram com recursos, pois o governo acabou escolhendo publicações como Piauí e Rolling Stone em detrimento de veículos menores e com menos saúde financeira.
A pendenga deve ser resolvida em um mês e, se tudo correr bem, o Rascunho receberá R$ 294 mil, valor correspondente a 7 mil assinaturas anuais de R$ 42 cada uma, considerando os 30% de desconto exigidos pelo MinC (o valor normal é R$ 60). "Este edital é a salvação do Rascunho por mais um ano", diz Pereira.
As dívidas do jornal somam R$ 80 mil. "Isso é uma ninharia para uma empresa de comunicação, mas uma fortuna para um jornal independente de literatura", explica o editor, que admite pensar sempre todos os meses em acabar com o Rascunho. O que o impede é a teimosia.
De 8 páginas, 20 colaboradores e nenhum assinante, ele chega à edição de número 120 com uma nova diagramação, 40 páginas, 60 colaboradores e uma tiragem de 5 mil exemplares. São 1.500 assinantes (cerca de 600 pagantes) e o restante é distribuído nas lojas da rede Livrarias Curitiba em quatro estados (Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo), em 25 embaixadas brasileiras pelo mundo e em outros dez pontos da capital paranaense.
Para imprimir o jornal, Pereira precisa de pelo menos R$ 10 mil por mês. Para tanto, há os projetos paralelos. "A partir do Rascunho, criei o Paiol Literário, fiz e faço curadorias literárias, criei o site de crônicas Vida Breve, abri o Quintana Café & Restaurante (um espaço dedicado à gastronomia e à cultura). Neste ano, sai o livro de entrevistas do Rascunho (pela Arquipélago Editorial). Tenho outros projetos na manga", diz.
Um concurso literário com o nome do jornal deve acontecer ainda neste ano. A Arquipélago tem interesse de editar as conversas do Paiol Literário, que recomeça em maio, e as crônicas do site Vida Breve, que reúne trabalhos de Eliane Brum, Fabrício Carpinejar e outros escritores. O próprio Pereira se prepara para publicar um romance e tem dado amostras dele no Rascunho.
Até lá, o diário segue, nas palavras do editor, com o mesmo "DNA meio turrão", de quem gosta de uma boa briga, mas "sempre respeitando os limites propostos pelo acordo bélico", dando liberdade aos colaboradores e espaço para réplicas e tréplicas.
"Isso movimenta, dá vida ao jornal, à cultura brasileira. Quando o Rascunho nasceu, tinha (e isso se mantém até hoje) a ambição de ser um amplo palco para discussões literárias. Não tem como ser este amplo palco sem uma boa discussão. Mas isso rendeu ao Rascunho a fama de mau, brigão. Isso não me chateia nem um pouco."




