
A vendinha que Jorge Luiz Skora mantém há 22 anos no bairro Santa Cândida virou atração semana retrasada. Carros eram parados, cachorros foram impedidos de seguirem seu caminho e frequentadores do Tia Marta o negócio dos Skora degustavam cerveja nas calçadas e não nos bancos que se alinhavam rente ao balcão. Sem contar os pedidos de fotos e autógrafos ao ator Jackson Antunes todos atendidos, diga-se.
O que acontecia era a gravação de Curitiba Zero Grau, filme do curitibano Eloi Pires Ferreira também diretor de O Sal da Terra (2008). Eloi e sua equipe venceram a terceira edição Prêmio Estadual de Cinema e Vídeo, que destina R$ 180 mil a três telefilmes e R$ 1 milhão a um longa-metragem em 2007 o vencedor foi Corpos Celestes (de Marcos Jorge e Fernando Severo) e ano passado Mysterios (Beto Carminatti e Pedro Merege).
As gravações começaram dia 16 de maio. O frio e a chuva contribuíram tanto para reforçar o inverno do filme quanto a trama de Curitiba Zero Grau. "Trabalhamos alguns temas que são peculiares à cidade, mas que ao mesmo tempo são universais. Se, em O Sal da Terra, tínhamos o homem em movimento na estrada, agora temos um movimento urbano", explica Pires.
O longa, segundo o diretor, também fala de como as pessoas se encontram ou se desencontram, e como atitudes pequenas podem afetar direta ou indiretamente o destino de alguém que não conhecemos.
O filme segue o rumo de quatro personagens, que se dividem no protagonismo da história. Há um empresário do ramo de automóveis, que vende carros seminovos; um motoboy; um catador de papel e um motorista de ônibus. Este é Ramos, interpretado por Jackson Antunes o Leonardo da novela A Favorita.
"O Ramos é um cidadão comum, mas o que o torna não tão comum é que ele tem um coração de ouro que acolhe pessoas desconhecidas em sua própria casa", explica o ator.
Curitiba Zero Grau não tem esse nome por acaso. O frio da cidade há muito é comparado ao comportamento do curitibano e essa fama lenda, mito ou fato está sutilmente tratada no filme de Eloi.
"Fazemos referência através do comportamento dos personagens. Mas não é nada explícito. Isso se tornou um folclore, mas não tem uma base na história e na cultura do nosso povo", diz o diretor.
Para o ator, a tese era confirmada até contracenar com o ator e músico curitibano Alexandre Nero, também na novela A Favorita.
"Rapaz, chega aquele moço, tão humilde e envergonhado, meio perdido no set da tevê. Eu falei Caramba, ele é muito tímido. Mas, de repente, ele me dá um disco e por trás disso se revela um roqueiro, um tribalista completamente diferente. Ele foi um amigo que a vida me deu e aí comecei a ver Curitiba com outros olhos", diz Antunes, que já formou sua opinião também sobre Eloi Pires.
"Ele é o primeiro diretor com quem eu trabalho que não tem storyboard. Isso é bacana porque, como a vida é imprevisível, imagino que o cinema também deva ser", afirma.
Momentos antes da entrevista, a reportagem acompanhou Jackson Antunes em ação, durante uma cena no bar Tia Marta. Ao final do take, o personagem esqueceu de pagar o pão que comprava. Conversas rápidas com Eloi e pronto. Ramos só assinou algo no ar, como quem pede a conta em um restaurante para um garçom que está longe. "Esses detalhezinhos enriquecem a obra", defende Antunes.
A cena foi repetida, no mínimo, cinco vezes. "O Eloi é muito detalhista e isso nos deixa muito tranquilos. Se precisar voltar, ele volta. Isso aumenta o custo de produção, mas também a qualidade do material", diz Salete Machado, que divide a produção com Talício Sirino.



