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Um épico diferente

O Guerreiro Genghis Khan, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, tem o mérito de investir na complexidade dos personagens

Filme defende a ideia de que Genghis Khan teve o apoio fundamental de sua mulher | Divulgação
Filme defende a ideia de que Genghis Khan teve o apoio fundamental de sua mulher (Foto: Divulgação)

Épicos no cinema podem ser chatos. Em nome da grandiosidade, cometem-se excessos. As­­pectos técnicos, como direção de arte, figurino e efeitos especiais se tornam mais importantes do que o roteiro. E os personagens acabam chegando à tela sem complexidade, unidimensionais e mais semelhantes a mitos (ou clichês) do que a seres humanos de carne e osso. O longa-metragem mongol O Guerreiro Genghis Khan, do cineasta russo Sergei Bodrov, consegue escapar dessa armadilha.

A grande sacada de Bodrov e de Arif Aliyev, que juntos escreveram o roteiro do filme, é não optar pelo óbvio. Em vez de contar a história do líder Genghis Khan, que nos séculos 12 e 13 conquistou imensos territórios nos continentes asiático e europeu, eles escolheram focar nos anos que antecedem o apogeu do personagem.

A produção, cujo título original – e bem mais sutil – é Mongol, narra como o pequeno Temudgin (verdadeiro nome do guerreiro) sobreviveu a uma infância perigosa e a uma juventude de intensos sofrimentos físicos e emocionais que quase lhe abreviaram a vida. Bodrov e Aliyev defendem uma tese que é a coluna vertebral do longa: Genghis Khan apenas se tornou o gigante que foi porque tinha como pilar de sustentação uma mulher que enfrentou de tudo, desde longas separações a abusos e estupros, para permanecer ao seu lado. Trilhando o mesmo caminho e chegando até a salvá-lo da morte. Foi seu grande amor e uma sábia conselheira.

Vivido na fase adulta pelo interessante ator japonês Ta­­danobu Asano, Temudgin é um ser marginal desde o nascimento. Essa condição o preparou para as imensas agruras que teria pela frente, mas o filme não é contruído a partir do pressuposto de que o personagem era um predestinado, um escolhido. Pelo contrário. O roteiro prefere arriscar outra hipótese. A de que, se o destino meteu o dedo na história do futuro Genghis Khan, foi quando colocou em seu caminho, quando ele ainda era pouco mais do que um menino, a voluntariosa Börte (a expressiva atriz mongol Khulan Chuluun, na idade adulta), de quem fica noivo na puberdade, mas que apenas reencontrará muitos anos depois.

Outro trunfo da história é a ambiguidade da relação de Tadanobu com seu misto de irmão e amigo Jamukha (o chinês Honglei Sun, conhecido por sua atuação em Estrada para Casa, de Zhang Yimou). De etnias distintas e inimigas, desafiam a tradição e os costumes, criando fortes vínculos afetivos. A política e a busca pelo posto de Khan, título nobiliárquico dos soberanos mongóis, os afastam e os transformam em inimigos.

Mas, apesar de toda essa preocupação com a construção psicológica dos personagens, O Guerreiro Genghis Khan não abre mão de ser um épico em alguns momentos, sobretudo nas sequências espetaculares de batalha, que lembram o chinês Herói, de Zhang Yimou. Vi­­sualmente, aliás, é sempre muito bonito, seja nos momentos mais grandiosos ou nos intimistas. Essas qualidades lhe renderam, além de enorme sucesso internacional, uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro e o prêmio, na mesma categoria, do National Board of Review.

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