Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Design

Um exímio marceneiro

A madeira “redescoberta” é a matéria-prima do designer e arquiteto paulistano Carlos Motta, que exibe seus móveis e outros objetos utilitários em mostra retrospectiva no Museu Oscar Niemeyer

Carlos Motta: apaixonado por marcenaria, surfe e pesca | Divulgação
Carlos Motta: apaixonado por marcenaria, surfe e pesca (Foto: Divulgação)
Algumas das mais de 100 peças de mobiliário que serão exibidas a partir de hoje na mostra retrospectiva do arquiteto e designer paulista Carlos Motta |

1 de 4

Algumas das mais de 100 peças de mobiliário que serão exibidas a partir de hoje na mostra retrospectiva do arquiteto e designer paulista Carlos Motta

 |

2 de 4

 |

3 de 4

 |

4 de 4

Quando era criança, Carlos Motta pegava pedaços de madeira e confeccionava casa de cachorro, estilingue, carrinho de rolimã. "Sempre gostei muito de marcenaria, é uma coisa que me atraiu a vida toda, me deu muito prazer", conta em entrevista, por telefone, de São Paulo, à Gazeta do Povo. Talvez por isso a profissão, que parece viver o seu declínio em um tempo de móveis modulados em MDF, seja a primeira a figurar no título da mostra Carlos Motta – Marceneiro, Designer e Arquiteto (confira o serviço completo da exposição), que abre hoje, às 19 horas, no Museu Oscar Niemeyer.

Uma hora antes, o artista realiza uma palestra sobre Design Sustentável, seguida de mesa-redonda com os designers e arquitetos Bernadete Brandão, Irã Taborda Dudeque, Ivens Fontoura, João Suplicy, Ronaldo Duschenes e Salvador Gnoato.

No início dos anos 70, o adolescente Carlos Motta ia surfar em praias isoladas do litoral paulista e encontrava o que para ele eram verdadeiras preciosidades trazidas pelo mar. "Madeiras lindas que eu carregava comigo e com as quais eu faria minhas primeiras peças", conta. Qual não foi sua satisfação ao descobrir, calouro da faculdade de Arquitetura em 1974, que o campus abrigava uma oficina de marcenaria. "Entendi que daria para juntar o projeto com a peça acabada. Foi mágico sair do plano, do desenho e passar para o tridimensional."

Diante dessa possibilidade, ele criaria naquele mesmo ano uma pequena oficina na Vila Madalena, onde desenvolveria uma trajetória como arquiteto e designer de móveis e objetos marcada pelo uso de madeiras de "descobrimento", ou seja, de demolição, de árvores caídas ou encontradas no mar e nos rios. Entre idas e vindas à Califórnia, para estudar marcenaria, Motta sempre retornou ao tradicional bairro paulistano, onde hoje funciona em plena ebulição o Ateliê Carlos Motta.

Dali saíram parte das mais de cem peças, entre mesas, cadeiras, bancos e outros objetos utilitários feitos com madeiras nobres certificadas ou reutilizadas que formam a retrospectiva organizada especialmente para o MON, com curadoria e produção executiva de Consuelo Cornelsen. Há ainda trabalhos inaugurais que datam de 1975. "Não é uma mostra completa, mas é bem emblemática, com carga bem clara dos meus conceitos, de como encaro as coisas", diz Motta.

"As coisas", a que se refere este surfista e pescador apaixonado, estão relacionadas a todos os aspectos de sua vida, não só à arquitetura e ao design. "O surfe, o trabalho, a família, a alimentação, a yoga, tudo o que faço na vida não está apartado. Não é que deixo de ser designer para ser pai, ou pai para ser surfista, tudo está ligado", explica ele, que aplica em seu trabalho a máxima dos três erres – reduzir, reciclar e re­­utilizar.

+ Um

Não é a primeira vez que as obras de Carlos Motta são vistas no MON. No ano passado, o designer participou da mostra de mobiliário Os Modernos Brasileiros +1, também sob curadoria de Consuelo Cornelsen. Em meio a representantes modernos como Oscar Niemeyer, Lina Bo Bardi, Sérgio Rodrigues, Flávio de Carvalho e John Graz, o designer contemporâneo figurava como o "+1". "Fiquei muito vaidoso", conta. "Historicamente, participo da trajetória dessas pessoas, está no DNA, na vivência. A in­­fluência deles sobre meu trabalho não está na concepção do produto, mas no fato de serem grandes intelectuais que deixaram um legado."

Naquele momento histórico, os anos 40 e 50, os móveis eram feitos com madeiras de lei como o jacarandá, o mogno e a imbuia. "Nem se pensava em utilizar madeiras de redescobrimento ou certificadas. Sérgio Rodrigues mesmo escreveu no meu livro [Carlos Motta e a Vida, lançado no ano passado por ocasião de uma exposição individual no Museu da Casa Brasileira] que nunca houve consciência do dano que se estava causando", conta Motta.

Além das peças trazidas por Motta de seu ateliê, o público também terá a chance de conhecer elementos de projetos realizados para espaços públicos como um banco, dentre os 2 mil da Basílica de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida do Norte; parte do mobiliário de 14 unidades do Sesc; do Palácio da Alvorada; da Pinacoteca do Estado de São Paulo, e do Museu de Arte Moderna de São Paulo. "Há ainda um projeto para um prédio de Hamburgo, na Alemanha, feito para o arquiteto Richard Meyer", conta.

Serviço

Carlos Motta – Marceneiro, Designer e Arquiteto (confira o serviço completo da exposição), no Museu Oscar Niemeyer – MON (R. Mal. Hermes, 999), (41) 3350-4400. Abertura, hoje às 19 horas. Terça-feira a domingo, das 10h às 18h. R$4 (adultos), R$2 (estudantes), livre (crianças até 12 anos, maiores de 60 e escolas públicas pré-agendadas). Até 28 de agosto.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.