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Bibliotecas pessoais

Um inventário da vida

O que há por trás de um acervo de livros e o que anima um colecionador? O Caderno G Ideias conversa com pessoas que dedicam tempo, dinheiro e tutano aos livros

Vera Vidal e seu gato Stefan: uma biblioteca pode abrigar muito mais do que livros | Jonathan Campos/Gazeta do Povo
Vera Vidal e seu gato Stefan: uma biblioteca pode abrigar muito mais do que livros (Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo)

O escritor argentino Alberto Manguel sofre o diabo toda vez que precisa mudar de casa. Ele carrega as pilhas de livros se perguntando por que continua guardando volumes que nunca vai reler e começa a criar desculpas para si mesmo. O dilema aparece em Uma História da Leitura (Companhia das Letras), um dos pontos altos de sua bibliografia quase toda feita de discussões literárias.

Se se desfizer de um livro, Manguel desconfia que, dias depois, vai precisar dele e de nenhum outro. Repete que encontrou algo interessante em todos os livros em que pôs as mãos (com pouquíssimas exceções). Procura lembrar os motivos que o levaram a comprar uma ou outra obra, e argumenta que os motivos devem reaparecer cedo ou tarde.

Mais adiante, admite ser ganancioso. Sente prazer de ver suas prateleiras tomadas de livros. "Delicio-me ao saber que estou cercado por uma espécie de inventário da minha vida, com indicações do meu futuro", diz o escritor.

Para saber um pouco mais sobre a relação entre homens e livros, o Caderno G Ideias encontrou donos de grandes bibliotecas particulares em Curitiba. São pessoas que organizam suas vidas em torno de seus acervos, que têm prateleiras em todos os ambientes da casa – inclusive no banheiro –, que convivem com rinite crônica e não se afastam dos livros.

Elas contam por que acumulam obras literárias como se o seu bem-estar dependesse disso (e, na verdade, depende), quanto tempo e dinheiro investem em suas coleções, como se relacionam com acervos herdados (imagine receber 40 mil volumes do avô) e de que forma lidam com aquele que é, de longe, o maior problema dos bibliófilos – o espaço.

"O amor às bibliotecas, como a maioria dos amores, deve ser aprendido", escreve Manguel em A Biblioteca à Noite (Companhia das Letras). Há quem se sinta angustiado diante de uma estante lotada – oprimido pelo que ainda não sabe. E há quem se sinta protegido – o conhecimento está ali, ao alcance das mãos.

O italiano Umberto Eco, autor de Sobre Literatura e do romance O Nome da Rosa, ambos publicados pela Record, diz que algumas pessoas cometem um erro absurdo: pensar que adquiriram a informação contida no livro apenas por possuir o livro.

Uma biblioteca pode ser também um arsenal para se confrontar com a solidão, ou uma forma de aproveitá-la. É o que sugere o crítico norte-americano Harold Bloom em Como e Por Que Ler (Objetiva): "Lemos não apenas porque, na vida real, jamais conheceremos tantas pessoas como através da leitura, mas, também, porque amizades são frágeis, propensas a diminuir em número, a desaparecer, a sucumbir em decorrência da distância, do tempo, das divergências, dos desafetos da vida familiar e amorosa."

Quando se dispôs a escrever a autobiografia Meu Último Suspiro (Nova Fronteira), o cineasta Luis Buñuel (1900-1983) fez uma apresentação emocionante falando sobre as armadilhas da memória. Para o diretor de O Cão Andaluz, a lembrança de uma história lida, ouvida ou assistida consegue, com o passar do tempo, ser tão marcante quanto à de uma história vivida. É, de novo, a noção da biblioteca como um inventário da vida. O homem é constituído por narrativas – a sua própria, as mitológicas e as da História.

Colecionar livros seria então preservar "amigos". Ou estaria próximo do ato de guardar fotografias, de preservar lembranças. Em entrevista ao jornalista Marcio Renato dos Santos (leia reportagem nas páginas 2 e 3), Vera Vidal diz que guarda todo tipo de memorabilia em meio aos livros – pedaços de papel, álbuns e cadernos.

Um leitor adulto vê hoje A Trilogia de Nova York, por exemplo, e é levado ao passado, lembrando o adolescente que foi e os interesses que tinha. Relê os primeiros parágrafos do romance de Paul Auster, escrito nos anos 1980, e tem uma amostra do quanto mudou como leitor e como indivíduo. Fecha o livro e o devolve à prateleira. Se olhasse para um retrato de duas décadas atrás, talvez não lembrasse tanto.

Caetano Waldrigues Galindo, professor de Linguística da Universidade Federal do Paraná, tem com a mulher, a professora de Literatura Sandra M. Stroparo, uma biblioteca de 5 mil volumes. Ele diz que, sim, é possível saber mais sobre alguém sondando as obras que posam na estante e admite que compra livros pelo mesmo motivo que outros compram joias, ou bebem cerveja, porque os livros o deixam "feliz".

Por trás de uma biblioteca, dá para supor que existe uma vida marcada pela solidão da leitura.

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