São Paulo (SP) Ninguém sabe ao certo quem é Lemony Snicket. Ou ninguém sabia. Ele de fato se chama Daniel Handler, tem 36 anos e vive em San Francisco, Califórnia. Seu heterônimo, Snicket, assina obras que se tornaram uma espécie de obsessão para jovens e crianças (e adultos?) nos EUA. Aos poucos, seu nome e o "mistério" em torno dele ganham o mundo.
A fama se deve sobretudo ao filme Desventuras em Série, com Jim Carrey e Meryl Streep, baseado nos livros sobre os órfãos Baudelaire. Esses e o conde Olaf são seus personagens mais conhecidos. Na história, os pais das crianças morrem em um incêndio misterioso e as três são adotadas pelo tio, Olaf. Na verdade, o maquiavélico conde quer mesmo a fortuna de que são herdeiros.
Na 19.ª Bienal Internacional do Livro, um lançamento se propõe a "dissipar a névoa" que envolve o passado do escritor: Lemony Snicket: Autobiografia Não Autorizada (Tradução de Ricardo Gouveia. Companhia das Letras, 248 págs., R$ 29,50). Da primeira à última página e até na sobrecapa, o livro é cheio de sacadas. Quem está habituado ao universo de Snicket/Handler, desconfia que não pode levar a tal "autobiografia não autorizada" a sério. E não pode mesmo. A idéia do autor é brincar com o personagem que criou para si.
"O livro que você está segurando nas mãos é extremamente perigoso. Se as pessoas erradas o virem com esta objetável autobiografia, os resultados poderão ser desastrosos. Por favor, faça uso da sobrecapa reversível deste livro imediatamente. Disfarçar este volume, bem com a você mesmo, pode ser a sua única salvação", é o aviso que aparece na orelha. O leitor tem então a possibilidade de camuflar a obra, com a de um suposto livro A Pândega do Pônei, de uma tal Loney M. Setnick, que "adora crianças e broas".
Essa atmosfera de "você está lendo o que não deveria ler" permeia todo o texto que, é bom que se diga, é ficcional. Não tem nada de autobiografia nem de Snicket e muito menos de Handler. Ainda que faça uso do humor que lhe é peculiar, o escritor é sagaz e lúcido como só os bons títulos infanto-juvenis conseguem ser: "Este livro não aparenta ser uma falsificação, o que não quer dizer que a história seja verdadeira somente que é contada com rigor", escreve Handler, "representante oficial de Lemony Snicket para todos os assuntos legais , literários e sociais", na apresentação.
O livro tem várias fotos e ilustrações. Alguns trechos reproduzem folhas de caderno, batidas à máquina, partituras musicais e páginas grampeadas. Ao longo do texto, palavras aparecem rabiscadas ou grifadas, como se o próprio Handler tivesse feito as alterações que promete fazer nas primeiras páginas. Cartas, bilhetes, anotações e fotos antigas sem foco servem para borrar ainda mais a imagem que alguém possa ter de Snicket. Para todos os efeitos, ele está morto, segundo notícia publicada em "O Pundonor Diário", incluída na "autobiografia": "O falecimento de Lemony Snicket, autor de Desventuras em Série, as supostamente verdadeiras crônicas das crianças Baudelaire, foi comunicado hoje por fontes anônimas e possivelmente não confiáveis". Mas não há com o que se preocupar, uma observação escrita à mão pelo próprio Snicket diz que o obituário tem muitos erros. "Mas o mais importante é: eu não estou morto!"
De Handler, a Companhia das Letras vem publicando obras desde 1999. Com a "autobiografia", já são 12 livros (confira quadro), inclusive Mau Começo e A Sala dos Répteis, muitos ilustrados pelo ótimo Brett Helquist, que já teve trabalhos publicados no jornal The New York Times. O filme com Jim Carrey se inspira em vários volumes de Desventuras em Série. GGG



