Esta é a primeira vez na história do mercado fonográfico nacional que alguém pode entrar em uma loja de CDs, ouvir e (se quiser) comprar um disco do saxofonista Pharoah Sanders. Ou da Alice Coltrane. Há ainda McCoy Tyner, Keith Jarrett, Archie Shepp, Gato Barbieri e Albert Ayler.
Nunca as gravadoras brasileiras se dispuseram a lançar qualquer coisa desses músicos. Agora, eles vêm em bando sob a rubrica The Impulse Story, mais criativa e sonora do que os surrados "The Best of" e "Greatest Hits". São dez antologias faltou citar John Coltrane, Charlie Mingus e Sonny Rollins, os três já tiveram trabalhados editados no país , lançadas pela Universal para marcar os 45 anos de um dos selos mais cultuados do jazz: o Impulse.
Não parece haver consenso se o artigo que precede o nome deve ser masculino ou feminino. Impulse, em inglês, significa impulso, instinto. De qualquer forma, aqui, a referência é ao selo, pois ele nunca chegou a ser uma gravadora e sim fez parte de uma (mais a seguir). Um detalhe no símbolo é a exclamação que vem em seguida do nome Impulse! , idéia de um designer anônimo e não costuma aparecer fora das capas dos discos.
Hoje parte do Verve Music Group, o Impulse é conhecido como "A casa que Trane construiu". Esse, aliás, é o nome do livro recém-lançado nos EUA como parte dos eventos que celebram a marca. The House That Trane Built The Story of Impulse Records (W. W. Norton) foi escrito pelo jornalista e crítico Ashley Kahn, um especialista em bastidores do jazz, responsável também pela seleção e pela ordem das músicas nas coletâneas The Impulse Story. Semelhante ao que fez o documentarista Ken Burns na série Jazz.
Colecionadores têm aversão a compilações e costumam se submeter aos preços dos importados (algo entre R$ 60 e o céu é o limite). Porém, a situação brasileira é peculiar. Se você nunca ouviu o pianista Keith Jarrett a não ser na banda de Miles Davis, antes de se dispor a comprar um CD estrangeiro, pode começar ouvindo a coletânea (que sai por cerca de R$ 25). Ali estão algumas das melhores composições do sujeito e, na pior das hipóteses, serve como uma boa introdução (confira quadro com destaques dos dez títulos).
Antes de narrar a saga do Impulse, Kahn escreveu o livro sobre a gravação de Kind of Blue, clássico de Miles Davis, considerado essencial em qualquer acervo que se leve a sério sendo ou não de jazz. Também é dele o livro que conta o processo de criação de A Love Supreme, a obra-prima de John Coltrane.
Trane como o saxofonista é chamado se tornou a primeira e então única estrela do Impulse, contratado em 61. O selo havia sido criado por Creed Taylor, produtor pago pela ABC Paramount para alavancar a gravadora, envolvida principalmente com rock (Paul Anka era o ídolo local). A American Broadcasting Company é uma das potências atuais da televisão americana. Na década de 60, tinha acabado de ser criada, a partir da extinta Blue Network (ligada à emissora concorrente, NBC).
A exemplo do canal de tevê, o Paramount segue forte no papel de um dos principais estúdios de Hollywood. Mais de 40 anos atrás, ele administrava também uma cadeia de cinemas. Nos início dos anos 50, o governo americano estabeleceu medidas restritivas a fim de evitar monópolios a lei antitruste. O estúdio teve de se separar dos teatros.
A rede de cinemas se uniu à emissora e, juntas, criaram uma gravadora, a ABC Paramount. A empresa procurou arrebanhar gravadoras menores e pagou dois dos melhores produtores disponíveis para cuidar dos discos, Creed Taylor e Sid Feller. A manobra definitiva foi a contratação de um certo Ray Charles, em um acordo inédito à época.
O cantor e pianista receberia pagamentos adiantados e aí entra a novidade seria dono de todas as suas músicas (antes, as gravadoras detiam o poder sobre elas). O episódio aparece no filme Ray. Assim, em 59, o músico deixou a Atlantic Records, a número dois do mercado a Columbia permanecia intocável na liderança.
Ray Charles lançou um sucesso em cima do outro. Genius + Soul = Jazz, um dos quatro primeiros títulos do Impulse, vendeu 150 mil cópias em dois meses, quando o comum era vender 10 mil. Em 61, saiu o álbum de estréia de John Coltrane, Africa/Brass. A exemplo de Charles, o saxofonista tinha controle total sobre sua obra. Usava o engenheiro de som que queria (Rudy Van Gelder, muito antes de virar sinônimo de qualidade) e definia inclusive o design de suas capas.
Trane cresceu e, com ele, o Impulse. Do jazz tradicional à vanguarda do gênero, o selo se tornou um clássico em preto-e-alaranjando, cores que predominam nos discos e que viraram sua marca.



