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Cênicas

Um Otelo enfraquecido

Marcello Escorel interpreta o mouro e Diogo Vilela é Iago em Otelo | Divulgação/ Verinha Valflor
Marcello Escorel interpreta o mouro e Diogo Vilela é Iago em Otelo (Foto: Divulgação/ Verinha Valflor)

Otelo, a versão sonhada por Diogo Vilela para uma das maiores obras shakespeareanas, aportou em Curitiba no sábado (4), depois de ter escapado de algumas ameaças de naufrágio.

Não sucumbiu, no Rio de Janeiro, à avaliação negativa de Barbara Heliodora, o nome de mais tradição, em atividade, da crítica de teatro – e a mais aclamada conhecedora de Shakespeare em terras tupiniquins –, para quem a montagem não conseguiu "se aproximar do que seja, realmente, a tragédia do Mouro de Veneza".

Tampouco em São Paulo a recepção foi melhor. "Péssimo", sentenciou Sérgio Sálvia, crítico da Folha de S.Paulo, desgostoso com a concepção baseada em excessos, truques histriônicos e um Iago "monolítico".

Seria injusto não dizer que, em Curitiba, Otelo foi bem recebida. Fez o público levantar-se, em peso, ao final e aplaudir de pé por prolongados minutos. Mas a verdade é que as mesuras dos atores, no agradecimento, conduziram os aplausos e quem freqüenta os teatros daqui sabe que raramente o curitibano não encerra assim qualquer espetáculo, seja para obedecer o protocolo ou por boa-vontade mesmo. Essa reação final, portanto, não reflete necessariamente o que houve durante a encenação.

É preciso perceber que uma peça como Otelo não se encaixa em um espaço como o Guaíra. O cenário, construído como uma plataforma elevada e quadrada, deixou sobrarem metros de palco nas laterais, inexplorados. As vozes dos atores não tinham projeção e, por vezes, não se fizeram entender, deixando o espectador sem compreender partes do texto.

Barbara Heliodora bem definiu a montagem: é a "tragicomédia de Iago". Não há dúvida de que, já na obra de Shakeaspere, o invejoso alferes aparece em primeiro plano, como condutor dos acontecimentos. No espetáculo co-dirigido por Vilela e Marcus Alvisi, no entanto, há um desequilíbrio de forças, determinado por um Otelo enfraquecido. Inverossímil se torna sua relação com Desdêmona, quando esta é interpretada por Marcella Rica – jovem e bela como a personagem exige; menos preparada para enfrentar o texto e o palco (o que se vê em sua postura tensa, por exemplo) do que seria desejável.

É mesmo preciso que, a cada fala de impacto de Iago, retumbem tambores (já não há força suficiente em suas palavras traiçoeiras)? Diálogos que acontecem sem que os atores troquem olhares e vozes impostadas e caricaturais são outras entre um punhado de escolhas igualmente questionáveis.

Nada rouba, contudo, a validade de ver essa obra canônica se realizar no palco. Que continuem a vir, então, outras montagens.

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