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Um país de cinéfilos

Segunda edição do Panorama Setorial da Cultura Brasileira aponta que ir ao cinema é, depois da religião, a prática mais popular fora de casa; porém, índice de consumidores culturais ainda é baixo

O estudante Richard Roch valoriza a experiência solitária de ver um filme na sala escura e integra os 9% da população que vai ao cinema uma vez por semana em média | Hugo Harada/Gazeta do Povo
O estudante Richard Roch valoriza a experiência solitária de ver um filme na sala escura e integra os 9% da população que vai ao cinema uma vez por semana em média (Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo)

Jovem, financeiramente independente e cinéfilo: é assim que o consumidor de cultura brasileiro pode ser definido – é o que mostrou a última edição do Panorama Setorial da Cultura Brasileira, mapeamento lançado na última terça-feira, dia 16. Entretanto, o consumo de atividades culturais, seja cinema, teatro ou exposições, ainda é uma realidade distante para mais da metade dos entrevistados, que responderam não quando perguntados se realizaram alguma prática ligada à cultura fora de casa no último ano.

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O levantamento mapeou 74 municípios das cinco regiões do Brasil, e entrevistou 1.620 brasileiros de 16 a 75 anos, das classes A, B e C, em novembro do ano passado (questionários aplicados pelo Ibope). Além dos dados, a publicação traz, ainda, 15 ensaios de pesquisadores da área de cultura, que analisam as estatísticas. É a segunda edição do projeto: a primeira, de 2011-2012, tratou sobre produtores e viabilizadores. Nesta edição (2012-2013), o foco foi o consumidor – o perfil consolidado deve ser divulgado em 2018.

Depois da atividade religiosa – a campeã do ranking, com 42% das citações – ir ao cinema é o que mais agrada ao brasileiro, hábito que vem em segundo lugar, com 38%. A barreira financeira (ir ao cinema é caro, se comparado a museus, cuja entrada, geralmente, é gratuita ou simbólica) parece não importar. "Percebemos que a questão econômica importa, mas não é determinante", diz a pesquisadora Gisele Jordão, uma das realizadoras do estudo junto com a MC15 (ela analisou mais de 3 mil planilhas para formatar a publicação).

Gisele acredita que a preferência pelo cinema se dá tanto pela divulgação ampla como pelo fato de a arte ser mais próxima do que o brasileiro já costuma fazer dentro de casa, ao assistir filmes na televisão. "Isso faz com que ele se sinta à vontade." A pesquisadora aponta um paradoxo: mesmo com esse gosto evidente, o Brasil ainda tem poucas salas (somente 7% da população das cidades brasileiras tem acesso, segundo o Ministério da Cultura). "E isso é uma maluquice, pois temos um consumo vocacionado para o setor."

Depois de assistir, há três anos, ao filme Melancolia, de Lars von Trier, em uma sala de cinema, o estudante de Ciências Sociais Richard Roch nunca mais abandonou o hábito. Ele faz parte dos 9% da população que declarou ir ao cinema uma vez por semana – o ritual acontece quase sempre sozinho, às segundas-feiras. "Quando vi Melancolia, a experiência foi absurda. Não só pelo filme, mas pela reação das pessoas. E isso me encantou muito", conta. "Prezo muito pelo momento em que saio da aula e consigo ir ver um filme. É uma coisa bacana para o dia, e também um tempo em que consigo ficar relativamente sozinho."

A "experiência completa" é o que atrai frequentemente o estudante de Direito Guilherme Ozório Santander Francisco para a sala escura. Para ele, que costuma ir "muito raramente" a shows, peças de teatro e exposições, o cinema é democrático, pois consegue expor uma ideia de maneira mais simples do que um livro, por exemplo. "Gosto dessa possibilidade que o cinema dá em um tempo relativamente curto", comenta ele, fã de filmes épicos como Doutor Jivago, de David Lean.

Barreira simbólica

Gisele Jordão diz ser "preocupante" que, em um país com as dimensões do Brasil, a maioria das pessoas não pratique nenhuma atividade cultural. "É grave, pois sabemos o que a cultura nos proporciona, como ela pode modificar as pessoas." Na pesquisa, por exemplo, somente 4% dos entrevistados citaram visitas a exposições e museus no último ano, 9% foram ao teatro e 1% à ópera.

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