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Literatura

Um silencioso calado

 | Marcelo Jr./ Abr
(Foto: Marcelo Jr./ Abr)

Entrevista com o escritor Luis Fernando Verissimo

Da China a Nova Iorque. Da velhinha contrabandista ao jogo de xadrez. Da vida pública à vida privada. Incluindo, é claro, Luana Piovani e, sobretudo, Patrícia Pillar – uma de suas obsessões. O olhar de Luis Fernando Verissimo é atento a tudo o que se move e mesmo ao que se esconde nesta contemporaneidade. Sua prosa leve, ágil e contagiante chega aos leitores por meio de colunas publicadas em inúmeros jornais brasileiros – na Gazeta do Povo às quintas-feiras e aos domingos.

Hoje, Verissimo está em Curitiba para autografar o seu mais recente livro de crônicas, O Mundo É Bárbaro e o Que Nós Temos a Ver com Isso. Desde 1998 na editora Objetiva, pela qual publicou 21 títulos, já vendeu 2 milhões de exemplares. Nesta noite, a sua presença deve provocar congestionamentos e a comercialização de centenas de volumes.

Conhecido por ser um "ótimo papo" e, simultaneamente, tímido, de poucas palavras, Luis Fernando Verissimo concedeu entrevista exclusiva – por e-mail – à Gazeta do Povo. Questionado a respeito desse comportamento, explicou: "Sou um silencioso calado". As respostas foram breves, em alguns casos, menos extensas do que as perguntas. Mas, de maneira geral, o escritor se valeu de seu peculiar humor e da indefectível inteligência para dar o recado.

Repercutiu a crônica "Meus Dois Pedidos", presente no livro recente, em que conta – com muita verve – quais teriam sido os dois pedidos que teria feito ao demônio. "Pensei imediatamente no Internacional. Está certo, antes pensei na Luana Piovani, mas aí achei que poderia dar confusão", escreveu, na crônica. Na resposta à Gazeta do Povo, bem-humorado, garantiu que, pelo seu time, venderia a alma novamente – obviamente, em tom de brincadeira.

Gaúcho de Porto Alegre, nasceu dia 26 de setembro de 1936, filho do escritor Erico Verissimo e de Mafalda Verissimo, 71 anos. Em 1967, entraria no jornal Zero Hora como copidesque. Desde então, não estaria muito tempo longe das páginas dos jornais, nas quais construiu reputação de ser um dos mais importantes cronistas da história da imprensa brasileira. Jazzista, também toca sax alto com músicos profissionais. A seguir, trechos da entrevista.

Gazeta do Povo – A glória do Inter justifica um pacto com o diabo. O que mais vale um acerto com o Tinhoso?

Luis Fernando Verissimo – Tirar o Internacional da fase ruim em que anda. Vendo minha alma de novo.

Se a Eva fosse a Luana Piovani, você – ou o senhor – gostaria de ser o Adão?

Gostaria, mas só na primeira parte. Depois veio o problema com as crianças, a história com a serpente, a expulsão do paraíso, e acho que a Luana não teria estrutura.

O que é melhor: um elogio público de Tom Stoppard ou uma mirada na Patrícia Pillar?

A Patrícia Pillar é melhor do que tudo.

Charles Parker ou Garrincha? Ou Alexandre Pato?

Foram gênios diferentes. Bom seria estar com os dois. Mas acho que o Pato ainda não entra nesse grupo.Se Robinho reinventou o drible, se Nei Lisboa reinventou o texto em canção popular, se este governo federal reinventou a esmola, se o final de tarde no Leblon reinventa o pôr-do-sol diariamente, Luis Fernando Verissimo – a exemplo do que diz (o poeta) Fabrício Carpinejar – reinventou a crônica em tempos recentes no Brasil?

Não inventei nem reinventei nada. Tudo já foi feito.

Obama ou McCain?

Obama é diferente de tudo que já aconteceu na política americana. Resta saber se não é diferente demais.

A verdadeira Bahia é o Rio Grande do Sul?

Penso no Rio Grande do Sul como uma anti-Bahia, no bom e no mau sentido.

Olhai os Lírios do Campo ou Ana Terra?

Ana Terra, que faz parte do melhor livro do meu pai, na minha opinião.

Elis Regina ou Maria Rita?

Elis, mas a Maria Rita está chegando lá.

Foi a prosa de Woody Allen que fertilizou, vitaminou, turbinou, engravidou o seu imaginário e a sua maneira de escrever?

Woody Allen, entre outros norte-americanos e ingleses. E os cronistas brasileiros.

O que há de novo na Rua da Praia (tradicional via pública no Centro de Porto Alegre)?

Nada.

Por que será que é quem fica em silêncio que domina e conduz a conversa?

Será que é assim mesmo? Meu silêncio nunca teve essa pretensão. Sou um silencioso calado.

A história de Erico Verissimo, incluindo os tempos da Editora Globo e a temporada nos EUA, é bem mais interessante, por exemplo, do que a história de Robinson Crusoe. Tem algo que só você sabe e quer lembrar?

Não é uma grande inconfidência, mas meu pai gostava de brincar de maestro. Botava um disco de Bach, Brahms ou Beethoven na eletrola e ficava regendo uma orquestra imaginária.

O que dá saudade de seus tempos de copidesque no Zero Hora?

Dá saudade de ter 40 anos menos.

Adaptar Shakespeare é...?

É mais dificil do que ler Shakespeare sem um glossário à mão. Precisa coragem.

Chega de saudade da Bossa Nova?

Não, ela merece todas essas festas, e uma longa posteridade.

Qual o segredo da fertilidade cultural do Rio Grande do Sul?

Não sei. Tem gente que diz que é a proximidade com os países do Prata. Ou será que é com Santa Catarina?

Em Curitiba, o melhor é passar frio?

Tenho ido com alguma freqüência a Curitiba. Gosto muito. Inclusive o frio, que é muito civilizado.

Serviço

Luis Fernando Verissimo autografa o livro O Mundo É Bárbaro e o Que Nós Temos a Ver com Isso (160 págs, R$ 28,80). Hoje, às 19h30. Livrarias Curitiba Megastore do Shopping Estação (Av. Sete de Setembro, 2775). Entrada franca. Mais informações (41) 3330-5000.

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