
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, um outro conflito, também sangrento, teve início no interior do estado de São Paulo e no norte do Paraná. Várias comunidades de imigrantes japoneses e seus descendentes se viram divididas em dois grupos: os kachigumi (ou vitoristas), que se recusavam a aceitar o fato de que o Japão havia sido derrotado pelas Forças Aliadas e de que o imperador Hirohito tinha admitido não ser a encarnação de Deus sobre a Terra; e os makegumi (ou derrotistas), que acreditaram, na contramão do nacionalismo exacerbado dos conterrâneos, na verdade dos fatos. Esses últimos foram apelidados por seus opositores de "corações sujos", e passaram a ser descriminados, agredidos e mortos entre os anos de 1946 e 1949.
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Essa história permaneceu obscura no Brasil até o início dos anos 2000. Era conhecida e comentada à boca pequena apenas entre os integrantes mais idosos da colônia japonesa no país, a maior comunidade de descendentes de imigrantes nipônicos no mundo. Coube ao jornalista paulista Fernando Morais (de Chatô), por meio do livro-reportagem Corações Sujos A História da Shindo Renmei, editado pela Companhia das Letras e vencedor do Jabuti em 2001, fazê-la emergir do passado. Dois anos mais tarde, o cineasta Vicente Amorim (de O Caminho das Nuvens e da produção internacional Um Homem Bom) compraria os direitos de adaptação da obra para o cinema.
Ficção
O longa-metragem Corações Sujos, que chegou na última sexta-feira aos cinemas brasileiros, não é uma transposição literal do livro de Morais para a tela. "Se eu quisesse fazer isso, teria de ter feito uma minissérie documental em vários capítulos", disse Amorim à reportagem da Gazeta do Povo por telefone, do Rio de Janeiro. O diretor e o roteirista David França Mendes, que trabalham juntos há duas décadas, preferiram usar a obra como base para uma história ficcional, construída a partir tanto dos relatos levantados e costurados por Morais quanto por uma pesquisa histórica e de campo feita por Amorim e Mendes ao longo de anos. O resultado é notável.
A trama de Corações Sujos, o filme, tem como protagonista o imigrante Takahashi (Tsuyoshi Ihara, um dos atores principais de Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood), um fotógrafo ainda jovem, casado com Miyuki (Takako Tokiwa, estrela da tevê japonesa), uma professora primária que dá aulas em uma escola clandestina o ensino do idioma, assim como colégios exclusivos para filhos de imigrantes, foram proibidos durante a Guerra.
O longa mostra o processo de transformação de Takahashi de homem comum, carinhoso com a esposa e afável com seus amigos e conhecidos, em um assassino movido pela intolerância decorrente de seu patriotismo cego, defendido por esses grupos ligados à Shindo Renmei (Liga do Caminho dos Súditos, na tradução), associação de caráter nacionalista criada no interior de São Paulo nos anos 1940. No filme, o mentor intelectual do grupo de Takahashi é o ex-militar Noboru Watanabe (Eiji Okuda, diretor e ator japonês veterano e muito premiado em seu país).
Roteiro
Como optou por criar um roteiro ficcional a partir da obra de Fernando Morais, o roteiro de Corações Sujos é, em certa medida, original. Escrito por David França Mendes, teve a colaboração e supervisão de Amorim, que o traduziu para o inglês, para que fosse então vertido para o japonês, já que 90% dos diálogos são nesse idioma.
A tarefa de fazer a versão do roteiro para a língua japonesa ficou sob a responsabilidade da escritora de Yuki Ishimaru, que já havia feito o mesmo trabalho em Cartas de Iwo Jima, indicado ao Oscar de melhor filme, trabalhando em parceria com Clint Eastwood. "Não foi um trabalho de mera tradução, mas de criação. Conversamos muito por Skype, até sobre pequenos detalhes, como o nome de uma ferramenta que na época não existia no Japão."
Também por Skype foram feitos os testes para a escolha do elenco. No Brasil, Amorim assistiu às audições coordenadas no Japão pelo diretor de casting Yutaka Tachibana, que também colaborou em Cartas de Iwo Jima. "Deu tudo muito certo, e como os atores vieram de lá um mês antes das filmagens [realizadas em Paulínia e na região de Campinas], pudemos ensaiar e discutir bastante as cenas."




