
Em se tratando de Steve Jobs, o biógrafo não tinha como dourar a pílula (leia-se encobrir suas maldades e esquisitices) nem era preciso esforço para mostrá-lo como um homem fascinante. O livro de Walter Issacson é uma biografia feita a pedido do próprio Jobs, que sabia que estava morrendo. Ainda assim o autor evitou uma visão idealizada do biografado. O realismo impera entre as pessoas que conviveram com o criador da Apple e do Macintosh. Todos foram testemunhas de sua genialidade, mas também de seu comportamento cruel.
O livro conta a vida de Jobs em ordem cronológica. Apresenta seus pais, que o adotaram ainda bebê, e o ambiente em que ele cresceu, no Vale do Silício, onde se concentra a indústria de computadores e softwares dos Estados Unidos. No caso de Jobs, o "onde" e o "quando" são fundamentais.
O fato de ele ter passado a infância e adolescência cercado por engenheiros, geeks e a nascente indústria de tecnologia de informação, imerso no ambiente da contracultura que marcou especialmente a Costa Oeste dos Estados Unidos nos anos 1970, influenciou suas convicções e tornou quase natural sua entrada no mundo da computação. Os primeiros capítulos, que falam da adolescência e da juventude de Jobs em colégios e universidades impregnados pelo lado subversivo dos anos 1960 e 1970 (movimento hippie, religiões orientais e uso de drogas) recriam o ambiente daquela época. Jobs foi um representante radical da geração paz e amor, que procurou gurus para se orientar, usou LSD, passou temporadas em comunidades rurais colhendo maçãs (daí a inspiração para a marca Apple), peregrinou pela Índia. Só faltou a ele o interesse pelas questões políticas.
Steve Jobs se deu conta de que era muito inteligente desde criança mais que isso, convenceu-se que era mais inteligente que as demais pessoas. O garoto que não fazia amigos com facilidade se tornou um adulto que escolhia a dedo suas companhias. Um dos escolhidos foi Steve Wosniak, o estudante de engenharia que conseguia executar os projetos que Jobs criava mentalmente. As experiências dos dois logo foram vistas por Jobs como uma forma de fazer dinheiro. Foi ele quem procurou investidores para financiar a produção das máquinas que a dupla estava criando na garagem do pai de Jobs Wosniak só queria se divertir e dar as máquinas de graça.
A Apple não nasceu pequena. Os investidores a tiraram da garagem em meio a projetos grandiosos de Jobs. E assim seria sempre: desde a caixa que protegia o computador até a campanha publicitária e as reuniões com os vendedores da Apple, Jobs queria que tudo fosse único e transmitisse sua mensagem, que ele acreditava ser libertária.
Isaacson recupera com sobriedade os eventos mais importantes da vida pessoal de Jobs: o amor e o respeito pelo casal que o adotou, o encontro com a mãe e a irmã biológica, os romances, o casamento, a filha que demorou para reconhecer, a dedicação aos filhos. Ainda que na vida pessoal ele também pareça levemente desequilibrado, nada se compara com a criatura assustadora em que se transformava dentro da empresa. Era grosseiro e cruel com os funcionários, mas capaz de levá-los a produzir coisas incríveis. Classificava as ideias dos engenheiros e programadores de "lixo" antes mesmo antes de conhecê-las. Às vezes voltava no dia seguinte e apresentava a mesma ideia como se fosse sua. Por outro lado, o perfeccionista Jobs não aceitava que se fizessem adaptações que reduzissem a qualidade dos produtos Apple. Por mais que esbravejasse, preferia que os desenvolvedores furassem orçamentos e prazos em vez de reduzir custos ou a complexidade de um projeto.
O livro também acompanha as últimas aventuras de Jobs, como um dos pais da dupla Woody e Buzz Lightyear, no filme Toy Story, primeira grande produção da Pixar em parceria com a Disney, e o desenvolvimento dos sucessos da Apple no século 21, o iPod, o iPhone e o iPad. As marcas de Steve Jobs estão por toda parte. GGG
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"A conexão entre o design de um produto, sua essência e sua fabricação foi ilustrada por Jobs e [o vice-presidente de design da Apple, Jonathan] Ive quando entraram numa loja de utensílios de cozinha durante uma viagem à França. Ive pegou uma faca que chamara sua atenção e a pôs de volta no lugar, desapontado. Jobs fez o mesmo. Ambos notamos que havia um restinho de cola entre o cabo e a lâmina, disse Ive. Steve e eu damos a maior importância a coisas desse tipo, que destroem a pureza e maculam a essência de um utensílio."
Trecho de Steve Jobs, biografia escrita por Walter Isaacson.
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Serviço:
Steve Jobs, de Walter Isaacson. Tradução de Berilo Vargas, Denise Bottmann e Pedro Maia Soares. Companhia das Letras, 632 págs., R$ 45. Biografia.



