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Um teatro convencionado

Livro publicado pelo diretor russo Vsévolod Meyerhold em 1913 ganha tradução direto para o português e apresenta um pouco de sua paixão pelo “novo teatro”

Meyerhold e retrato da mulher, Zinaida Reich, na década de 30 | Reprodução
Meyerhold e retrato da mulher, Zinaida Reich, na década de 30 (Foto: Reprodução)

É triste ler um compêndio de alguém que foi apaixonado por sua arte e hoje é pouco lembrado. Pior: Vsévolod Meyerhold critica em Do Teatro (1913) justamente dois de seus contemporâneos mais celebrados: Anton Tchékhov e Konstantin Stanislávski. É ainda pior saber que, anos depois da publicação do livro, ele seria morto pela máquina exterminadora de Stálin.

A obsessão de Meyerhold nos anos em que documentou seu trabalho, depois publicado na forma de manual-diário, era por um "novo teatro", em uma cruzada contra a encenação realista.

Em 1898, o então ator entrou para o Teatro de Arte de Moscou, dirigido por Stanislávski e Vladimir Nemiróvitch-Dântchenko, em que assumiu o papel do artista sonhador Treplev de A Gaivota, escrito por Tchékhov.

Mal recebido no início, aquele era um novo tipo de representação, não empolado, que se chamaria de naturalista e revolucionaria a história da encenação.

Mas Meyerhold não estava satisfeito. Três anos depois, ele parte em busca da realização de uma visão ainda mais ousada. Para ele, as pessoas não iam ao teatro para deparar-se com uma reprodução fiel da vida, e sim para presenciar um momento artístico. A concepção de atuação desenvolvida por ele em seu Teatro-Estúdio, que dirigiu e em que atuou, parte de convenções: em vez de imitar um ateliê de pintura, por exemplo, com todos os móveis e materiais reproduzidos nos mínimos detalhes, uma grande tela com uma pintura inacabada no centro do palco dava conta do recado. Alguns cenários de peça são, inclusive, descritos na obra, deixando o leitor com desejo de teletransportar-se para ver aquilo com seus próprios olhos. Algumas fotos pouco nítidas só aumentam a vontade.

Em meio a essa e outras escolhas descritas pelo diretor em Do Teatro, é tocante observar o quanto ele previu transformações futuras, como a valorização dos movimentos em cena. Outras defesas cobrem o "teatro de feira de atrações" (balagan, no russo), o uso de máscaras e o grotesco.

Uma das críticas lançadas pelo autor é contra escolas de interpretação anexas a um teatro. Por isso, "a escola deveria ser construída de forma que dela brotasse o teatro novo, e para os estudantes formandos deveria existir uma única saída: o novo teatro, por eles mesmos construídos, ou lugar nenhum."

Além deste livro, único material em que Meyerhold explica as bases de suas crenças e de seu trabalho, restou espalhado um arquivo que seu discípulo Serguei Eisenstein chamou de "o tesouro". No final de Do Teatro, aquele que seria o principal cineasta do nascimento do cinema russo debate com contemporâneos a cena teatral de então.

Apesar de ser um texto teórico, o livro amolece sob o calor da paixão russa daquele início de século 20. Há que se ler nesse clima, de forma a amenizar o descompasso das mudanças de capítulo, que passam de forma descontínua.

Sistema Stanislávski

A introdução do tradutor Diego Moschkovich é preciosa, entre outros motivos, por esclarecer a confusão que se formou em torno do método de atuação desenvolvido por Stanislávski. Descrito formalmente apenas em 1936 e levado para os EUA numa tradução simplificadora, o "sistema", como é chamado, acabou deturpado. Em vez de exigir que seus atores revivessem experiências passadas em cena, como se diz comumente, o diretor desejava que eles "colocassem a vida em movimento" na interação de cena uns com os outros. Infelizmente, de acordo com o tradutor, seus manuais nunca foram devidamente traduzidos para o português para que se entenda perfeitamente o que ele queria dizer.

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