Sempre que falam de comédia romântica para mim, a primeira coisa que penso é em dois atores nada engraçados vivendo situações que alguns podem dizer "oh, isso jamais poderia acontecer". E é verdade, várias situações que eu vejo em filmes desse gênero são incomuns e a comédia acaba virando o velho cinema pastelão, afinal, sempre tem alguém que acaba se sujando muito durante o filme, seja com bolo, vinho, torta, lama, tinta, etc.
André Novais de Oliveira nos traz "Pouco Mais de um Mês", um curta-metragem que conta a história de um recém casal de namorados, passando um dia juntos dentro de um apartamento. O curta foi selecionado para o Festival de Cannes 2013. Logo no começo do filme, vemos a penumbra de um quarto, cobertas que se mexem lentamente numa manhã tranquila. Uma conversa se inicia devagar, os dois falando baixinho assuntos que não têm conteúdo, são aleatórios. É uma conversa descontraída de um assunto que só eles sabem. É a manhã particular de um casal retratada na tela.
A escuridão desaparece ao abrir da janela, que revela o mundo, até então, distante para aqueles dois. É o apartamento da moça. Muitos dos vários assuntos sobre a redondeza são facilmente descritos por ela, que parece viver naquele lugar a muito tempo. O rapaz observa o movimento pela janela até que ela pede para ele fechar as cortinas, pois tem algo de interessante para lhe mostrar.
Com a cortina fechada, a luz que vem de fora bate sobre o teto branco e, como num passe de mágica, o quarto se torna um caixa-escura, como um projetor, mostrando tudo o que acontece lá fora através daquele raio de sol, refletido no teto do quarto. Um filme da vida real que acontece a poucos metros do quarto deles.
Um namorado tímido, que parece não saber como se comportar dentro da casa de sua namorada. Já vi muitos casais assim: a timidez que impele que façamos algo de errado ou vergonhoso, mas que acaba sendo a principal causa desse acontecimento, como a água que vaza do filtro que é enxugada pelo rapaz com um pano de prato que, na verdade, não deveria ser usado para aquela função.
Um café da manhã envergonhado e rápido, conversas sobre dúvidas no relacionamento e sobre pessoas que desconhecemos, um momento de silêncio, nada para se dizer ou tudo para se dizer, mas que não pode ser dito. A despedida, tão devagar e delicada. Não há carros de luxo, não há motoristas particulares, apenas um ponto de ônibus, esperando para que o transporte apareça.
O medo dela de entrar num relacionamento e se machucar é colocado na discussão, mas não intriga o rapaz, que deixa um ar de segurança e confiança, em um relacionamento daqueles raros e difíceis de acontecer, que podem ou não durar.
Uma comédia romântica, posso definir. Assuntos que nos levam a dar risadas curtas, verdadeiras, que nos fazem sorrir, nos remetendo ao casal comum dos dias de hoje, simples, com conversas fúteis que só os dois compreendem, momentos de silêncio, palavras que podem ou não estar em transição, seja por olhares ou feições. O romance verdadeiro, o engraçado que acontece mesmo em nossas vidas, uma situação da qual nós, admiradores dessa arte, podemos nos ver com nossa companhia no lugar dos dois atores. Um romance que acontece.



