
"Nada do que não foi poderia ter sido." Lógica e um tanto cruel, a frase aparece algumas vezes ao longo de O Filho Eterno, o novo e mais pessoal livro de Cristovão Tezza. Um romance "brutalmente biográfico" que narra a relação de um pai com seu primeiro filho, portador da Síndrome de Down.
Em uma frase: o livro do ano. Do tipo que precisa ser lido a qualquer custo, mais de uma vez, pelo maior número de leitores possível.
O protagonista, apresentado apenas como "ele", é um escritor que vive em Curitiba, dedicado à vida acadêmica meio a contragosto e autor de obras como Trapo e Aventuras Provisórias. É um Cristovão Tezza ficcional.
O escritor nascido em Lages (SC) vive em Curitiba desde sempre e é professor da Universidade Federal do Paraná. Vinte e seis anos atrás, estava no quarto do hospital, ao lado da mulher, esperando para conhecer seu filho, nascido horas antes.
"Súbito, a porta se abre e entram os dois médicos, o pediatra e o obstetra, e um deles tem um pacote na mão. Estão surpreendentemente sérios, absurdamente sérios, pesados, para um momento tão feliz parecem militares. Há umas dez pessoas no quarto, e a mãe está acordada. É uma entrada abrupta, até violenta passos rápidos, decididos, cada um se dirige a um lado da cama, com o espaldar alto: a mãe vê o filho ser depositado diante dela ao modo de uma oferenda, mas ninguém sorri."
A cena dá seqüência a uma série de descrições técnicas o modo médico de dizer algo, avançando pelas margens mostrando que o Felipe não era "normal". Ele sofria do que, nos anos 80, era mais conhecido por "mongolismo", um termo médico (e obtuso porque baseado nas características físicas dos mongóis) usado para se referir à doença definida pelo médico britânico John Langdon Down, em 1866.
O bebê downiano criou no pai uma crise que parecia inescapável e sem fim. "Ele recusava-se a ir adiante na linha do tempo; lutava por permanecer no segundo anterior à revelação, como um boi cabeceando no espaço estreito da fila do matadouro." Quando, enfim, conseguia ir em frente, o passo seguinte era tão difícil quanto o anterior.
Intuição
Hoje, mesmo pronto para falar da relação com o filho, Tezza admite que só conseguiu escrever a partir do instante em que virou um personagem (leia entrevista na página 3). Daí sentiu que a escrita do livro foi quase intuitiva, como se o texto todo estivesse pronto na cabeça. Talvez por isso, ao contrário de outros trabalhos, O Filho Eterno teve poucas alterações da primeira versão até a final.
Por se aproximar das memórias e do ensaio, o romance intercala a vida íntima e profissional do personagem/Tezza inclusive a experiência de trabalhar ilegalmente na Alemanha com suas opiniões sobre assuntos diversos. Sobra para a ditadura militar, a economia brasileira e até para um senhor que teve o impulso infeliz de buzinar quando o pai estava parado em uma preferencial, o detonador de um de seus raros acessos de raiva (em um episódio nervoso, hilário e, ao mesmo tempo, muito humano).
Assombro
Diante de um tema comovente por si só, Tezza escreveu um texto livre de sentimentalismos e dramas fáceis. Existe a redenção, mas ela não é simples e não acontece de um dia para o outro.
O pai se assombra quando um incidente mostra a intensidade da ligação que tem com o filho. Homem dos livros, avesso a misticismos, racionaliza muito do que sente. Disseca, analisa e questiona. Aprende as limitações do filho com afinco científico e, sempre que olha para ele, parece ter consciência delas. Tempo depois, entende que "Quem precisa de normalidade é o pai, não os filhos".
Aos poucos, a história mostra que o amor pelo Felipe e o afeto deste por todos são capazes de dobrar o pai turrão.
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Serviço: Lançamento de O Filho Eterno, de Cristovão Tezza (Record, 224 págs., R$ 34), com exposição de pinturas de Felipe Tezza. Original Beto Batata (R. Prof. Brandão, 678 Alto da XV), (41) 3262-0840. Dia 21 de agosto, às 19 horas.



