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entrevista

Uma senhora de histórias curtas

A premiada escritora norte-americana Lydia Davis fala sobre sua escrita muito particular

Lydia Davis, escritora norte-americana | David Ignaszewsk/ Divulgação
Lydia Davis, escritora norte-americana (Foto: David Ignaszewsk/ Divulgação)

Anos atrás, a escritora norte-americana Lydia Davis leu Machado de Assis. E gostou. Mas não tinha noção, até chegar a Paraty, onde participa da 11.ª edição da Festa Literária Internacional (Flip), de que ele era, nas palavras dela mesma, em entrevista coletiva concedida na última quinta-feira, um escritor "gigante", "o maior de todos" entre os brasileiros.

Décadas se passaram até que Lydia, hoje aos 63 anos, voltasse a ter contato com outro autor nacional. A escolhida foi Clarice Lispector e o livro, A Hora da Estrela. A escritora confessa que iniciou a leitura mais de uma vez. Teve de insistir.

Foi apenas quando se deu conta da sofisticação das artimanhas literárias de Clarice, cujo narrador é um homem que conta a triste história de uma mulher humilde, perdida e só em uma cidade grande, que a leitura engrenou.

Por mais que não tenha ousado se comparar a Clarice, Lydia tem noção de que, como a literatura da autora de A Hora da Estrela, sua escrita não é fácil, daquelas capazes de enfeitiçar o leitor à primeira vista, o fazendo mergulhar na história narrada, sem que ele se dê conta da técnica e do estilo de sua criadora.

Lydia, considerada pela crítica norte-americana como uma das grandes autoras vivas de seu país, prefere narrativas curtas. Ficções que podem ser contos que se estendem por várias páginas ou se resumir a uma única frase.

Exemplo disso é o livro Tipos de Perturbação, lançado recentemente no Brasil pela Companhia das Letras. A obra foi finalista do National Book Award (EUA) e venceu o International Man Booker Prize, prêmio britânico de grande prestígio, concedido a obras em língua inglesa.

"Não esperava ganhar. Havia autores mais velhos e experientes do que eu – e também mais jovens. E tenho consciência de que minha literatura não é considerada das mais fáceis. Fiquei bem feliz", contou.

Concisão

Embora já tenha escrito um romance, The End of History (2004), e não descarte a hipótese de voltar a escrever narrativas mais longas, Lydia disse preferir o conto, pela concisão, pela economia. "Fui muito influenciada por um autor americano chamado Russell Edson. Acho que histórias mais longas pedem mais organização, algo com que tenho certa dificuldade para lidar."

Natural do estado de Massachusetts, Lydia, além de professora universitária, é tradutora para o inlgês de autores franceses como Marcel Proust, Gustave Flaubert e Michel Foucault. Atualmente se prepara para lançar uma nova coleção de contos, que já tem título: Can’t and Won’t (algo como Não Posso e Não Farei, em tradução livre).

Como diz evitar convenções da literatura mais palatável e comercial, como a construção de cenas com diálogos entre dois ou mais personagens, Lydia diz encontrar inspiração em qualquer momento de seu cotidiano. Tanto que carrega consigo um pequeno caderno de anotações. "Pode ser algo que vejo na rua, uma frase que ouço no aeroporto, uma situação corriqueira, desimportante. Trabalho muito com fragmentos. E deixo várias histórias incompletas."

Nem tudo que move a literatura de Lydia, contudo, é tão prosaico, como uma mosca a bordo de um ônibus, tema de um dos contos de Tipos de Perturbação ("A Mosca").

Outra história do mesmo volume, "Questões Grama­­ticais" teve como inspiração a agonia de seu velho pai, que morria aos poucos em um lar de idosos, nos Estados Unidos. Triste, o conto busca expressar a perplexidade diante do irreversível processo de perda de um ente querido que se esvai lentamente, transitando entre o presente e o pretérito. Entre o é e o era.

Lydia participa hoje da mesa "Os Limites da Prosa", ao lado do irlandês John Banville, que lança no Brasil o romance Luz Antiga, pela editora Biblioteca Azul.

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