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Artigo

Valêncio, o furioso

Valêncio Xavier parecia estar, sempre, com pressa. Falava rápido, pensava rápido e escrevia às golfadas, como se manejasse uma caneta elétrica. Enquanto tantos escritores mal escondem, sob a manta da sabedoria, as fraldas da vaidade, ele se comportava como um discreto emissário – alguém que está sempre a serviço de um outro. Um intermediário, apressado, servindo a algo que o ultrapassa. Valêncio foi um mensageiro – mas de que? Só uma resposta me ocorre: ele foi um arauto da surpresa. Um escritor que se distingue pela mais incerta das sabedorias: a de nunca estar onde devia estar.

A imagem embaçada que agora nos deixa reflete essa agitação interior. Como capturar o foco de alguém que não fica quieto? Seus livros atestam a vocação de andarilho. Bastava esbarrar com ele, na Rua XV, numa tarde de vento, os cabelos espetados para as nuvens negras, as idéias a fervilhar sob eles. Está em seus livros, que nos agitam e provocam. Uma coisa, em definitivo, eles não são: mornos exercícios de retórica, ou solenes maquinações intelectuais. Parecem estranhos, com seus desvios, gritos e contorções, saturados em imagens, dispersos, em uma inábil captura do real.

Penso no que mais me perturba, Minha Mãe Morrendo e o Menino Mentido. Um velho se põe a recordar a distante infância. Ao rememorar, porém, constata que dela ainda não se livrou. Mesmo com os cabelos brancos e o corpo encurvado, ainda é um menino. As coisas não estão onde deviam estar, e é por isso que a literatura de Valêncio nos deixa sempre tão agitados. Lendo seus livros, não posso negar, algumas vezes me irritei. O que esse homem queria de mim? Por que me oferecia uma escrita tão furiosa?

Na Curitiba da classe média, Valêncio fugia da média. Na Curitiba da ordem e do urbanismo, ele exibia a beleza da desordem. Assassino da moda e do bom gosto, herói de si mesmo, foi um escritor que nunca desejou agradar ninguém. Tudo isso está em seus livros – toda essa vibração, de quem escrevia não para satisfazer, mas para não morrer. Sua obra fica, agora, como uma herança incômoda, que as futuras gerações de curitibanos devem decifrar. Mas conseguirão? Que outra coisa é O Mez da Grippe, senão uma armadilha? Na aparência, o livro é uma caixa de brinquedos, em que Valêncio, guiado pelos sopros da memória, coleciona, mistura, funde toda uma vida imaginária. Mas que cilada! Fluente, e até fácil, a escrita de Valêncio se torna um enigma, que ele empurra pela goela do futuro. Uma armadilha, sim, e, por mais que a desmontemos, estará sempre a nos oferecer novos disfarces.

Enfrentei alguns momentos delicados em minha breve convivência com Valêncio. Ele foi um homem difícil. Mas, só por isso, as palavras escorriam de seu peito. E seus olhos, esbugalhados de espanto, se desdobravam em tantas imagens. Para Valêncio, imagens eram, sim, literatura. Para ele, tudo era literatura. Recortes, rascunhos, tiras de jornal, miudezas, bobagens. Em sua velha casa, um dia, ele me apresentou sua coleção de inutilidades. Coleção? Não havia ordem, muito menos apego. Eram só objetos dispersos, que nem ele mesmo sabia classificar.

Em um estúdio de tevê, certa tarde, fomos convidados para falar, ao vivo, dos livros que lançávamos. O apresentador, por delicadeza, nos apresentou, antes, suas perguntas. Valêncio o ouviu e disse: "Só quero falar do que quero falar". O jornalista insistiu: "O senhor me perdoe. Só farei perguntas sobre literatura". Não se perturbou: "Isso não me importa". E deixou claro o que faria: "Você pergunta sobre literatura, e eu respondo sobre o que eu quiser". E foi exatamente o que fez. Porque, para Valêncio, a única tarefa do escritor é o espanto.

A obra de Valêncio Xavier nos fica, agora, como uma emboscada. Por muito tempo, seremos levados a atravessá-la. Tudo pode acontecer quando a lemos – da irritação mais raivosa à paixão mais extrema. Grandes obras são assim: não se deixam fixar. O escritor morre, mas os livros persistem, efervescentes. Para além de suas qualidades ou defeitos, a literatura de Valêncio preserva a exaltação de existir.

José Castello é escritor e crítico literário, autor de A Literatura na Poltrona (Record).

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