
A música brasileira, em um recital raro de fagote, é a atração de hoje do Teatro da Caixa. A Série Solo Música, idealizada pelo produtor paranaense Álvaro Colaço, traz em sua nova edição um concerto do fagotista paulista Fábio Cury, que apresenta a obra 16 Valsas Para Fagote Solo, de Francisco Mignone (1897-1986), um dos mais importantes compositores eruditos brasileiros depois de Heitor Villa-Lobos. De acordo com Colaço, não se tem notícia desse repertório ter sido executado em sua totalidade no Paraná.
Fábio Cury conta que o convite para participar do projeto de música solo havia sido feito antes mesmo de ele ter sido aprovado. "Geralmente, os instrumentos melódicos, como é o caso do fagote, se apresentam em conjunto com algum instrumento harmônico, geralmente um piano. A apresentação solo exige muito mais do intérprete, e essas obras, em especial, são muito difíceis, por isso me interessei em apresentá-lo no projeto", explica.
Cury já esteve algumas vezes em Curitiba, durante a tradicional Oficina de Música, como professor e camerista, além de participar do projeto Domingo no Campus, da Universidade Positivo, em um dueto com a pianista Josely Bark, em 2009.
As valsas de Mignone para fagote foram feitas sob encomenda para o instrumentista francês radicado no Brasil Noël Devos, explica Colaço. Cury completa: "Boa parte do repertório escrito para fagote que se tem no Brasil foi dedicado a ele. Os brasileiros têm sorte nesse sentido: são raras as peças escritas para o instrumento a partir da era romântica. A grande maioria são composições barrocas".
Cury, bacharel em fagote pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor na Universidade de São Paulo (USP), na Escola Municipal de Música e na Faculdade Cantareira, diz que, tanto em sua carreira musical quanto na acadêmica, procura valorizar composições brasileiras, como as de Mignone, que já executou na íntegra algumas vezes. "Ainda que tenham a singeleza de um solo, são obras que exploram toda a tessitura do fagote. Todas têm o mesmo compasso três por quatro, mas cada uma tem sua peculiaridade. Ora o fagote soa mais lírico e nostálgico, ora é explorado seu lado humorístico, ou virtuosístico. É um repertório muito versátil", afirma.
Um ato de excentricidade
A iniciação musical de Cury, natural de Jundiaí, foi, ainda criança, com a flauta doce. "O fagote é um instrumento muito grande, as crianças geralmente não alcançam as chaves, por isso geralmente começamos com outros instrumentos", explica. Na escola de Música onde estudava, havia uma orquestra que começava a ser formada, composta apenas de uns poucos instrumentistas. "Aos poucos, os estudantes foram abandonando certos instrumentos que não são de orquestra, como o violão e o piano, para aderirem à formação clássica de orquestra, e chegou um momento em que só havia disponível para escolha o fagote ou a trompa. Eu, com 11 anos, não sabia ao certo o que era um fagote, mas sabia que queria tocar um instrumento que ninguém mais tocasse. Foi, antes de tudo, um ato de excentricidade", lembra, divertindo-se.
Serviço
Série Solo Música - Fabio Cury (Fagote)
Teatro da Caixa (R. Cons. Laurindo, 280), (41) 2118-5111. Dia 14 às 20h30. R$10.



