
Apagar as memórias mais dolorosas do passado seria um alívio, talvez. Um personagem de Inveja dos Anjos, espetáculo que o Armazém Cia. de Teatro apresenta no Teatro da Reitoria, pensa que sim. E propõe a dois amigos de infância, com quem costuma se encontrar após o trabalho, que escrevam, cada um, a lista de todas as experiências ruins por que passaram na vida, para trocar entre si. Depois de lidas, as páginas devem ser queimadas, deixando seu conteúdo de tristeza para trás.
"É como se quisessem queimar o passado que se materializa em cena", diz o diretor Paulo de Moraes. O jogo surte o efeito contrário. As lembranças surgem diante do espectador, em uma narrativa fragmentada, que reflete na forma o conteúdo impreciso da memória, que parece estar se dissolvendo.
"As cenas são inconclusas, a emoção não é levada até o final. É como se acabasse em suspensão, para continuar adiante", sugere o diretor londrinense.
Paulo de Moraes nasceu, na verdade, em Cornélio Procópio, município próximo a Londrina (onde criaria sua companhia). Da cidade natal, manteve a recordação da estrada de ferro, que corta a avenida principal. "Adorava ver o trem passar", lembra. Foi essa memória imagética que transferiu para a montagem, criando um cenário igualmente atravessado pelo trilho do trem. "Queria que o espectador visse a peça como quem está em um vagão, vendo a vida passar pela janela".
A trama foi desenhada em conjunto com os atores, na sala de ensaios. Ao fim do processo, Paulo se uniu ao poeta e dramaturgo londrinense Maurício Arruda Mendonça para escrever o texto, voltado às relações familiares.
As obras de Paul Auster e Gabriel García Márquez foram suas fontes. "As relações familiares, em García Márquez, estão ligadas a verdades definitivas, juramentos e brigas para sempre", analisa. Isso determinou o tom de realismo fantástico de um ou outro personagem, como a mulher idosa que carrega um cabide vestido com a roupa do homem que foi o seu grande amor do passado. Mas a linguagem que permeia o espetáculo em geral é realista.
Sutilezas
O Armazém volta a investir em uma dramaturgia própria a exemplo do que costumava fazer em peças como Da Arte de Subir em Telhados, de 2001 depois de dedicar seus últimos anos à montagem de um texto de Nelson Rodrigues (Toda Nudez Será Castigada) e outro de Bertolt Brecht (Mãe Coragem e Seus Filhos). Como legado dessas experiências, aprenderam com o anjo pornográfico a prescindir da surpresa na narrativa e, com o autor alemão, a qualidade da sutileza da emoção das personagens.
Toda a expectativa positiva que a trajetória do Armazém e a inquietação das questões que discute possa causar, ganha força diante da ótima acolhida que Inveja dos Anjos teve em sua estreia carioca. Sessões lotadas depõem a favor de sua capacidade de comunicação com o público. Cinco indicações ao Prêmio Shell, do qual conquistaram as estatuetas de melhor texto e intérprete feminina (Patrícia Selonk), revelam a receptividade da crítica.
No Teatro da Reitoria, o grupo, que enfim assinou o contrato de patrocínio com a Petrobras, terá o desafio de se rearranjar em um palco menor que o do Rio de Janeiro, e diante de uma plateia bem mais numerosa. "A relação diferente com a plateia é minha expectativa maior aqui", diz Moraes.



