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Literatura

Versos de uma estrangeira

No centenário da poeta americana Elizabeth Bishop, que viveu duas décadas no Brasil, sua biografia será contada no cinema, mas seus livros permanecem esgotados

Na casa Samambaia, em Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, onde viveu com sua amante, a arquiteta Lota de Macedo Soares | Sponagle/Divulgação
Na casa Samambaia, em Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, onde viveu com sua amante, a arquiteta Lota de Macedo Soares (Foto: Sponagle/Divulgação)
Elizabeth Bishop passou a infância no Canadá com os avós |

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Elizabeth Bishop passou a infância no Canadá com os avós

Alguns dos versos mais importantes da língua inglesa na segunda metade do século 20 foram escritos no Brasil, por Elizabeth Bishop (1911-1979). Que o atestem os prêmios Pulitzer de 1956 e National Book de 1970. Escapando da corrente confessional predominante à época entre seus conterrâneos, a norte-americana, radicada em Petrópolis e depois Ouro Preto, atingiu uma alta densidade emocional e psicológica aliada à impessoalidade e à preocupação formal.

No entanto, no seu centenário de nascimento, celebrado em fevereiro, sua literatura está fora de alcance no país onde floresceu. Ela é valorizada no meio acadêmico e entre leitores fiéis de poesia, mas mesmo esses só encontram as boas traduções de Paulo Henriques Britto para livros como Poemas do Brasil e O Iceberg Imaginário e Outros Poemas, publicados pela Cia. das Letras, em sebos. Toda sua obra em português permanece esgotada na editora.

A Cia. das Letras informa que "discute" a possibilidade de reedição. Até lá, a poeta se revela ao público por sua biografia, contada no cinema e no teatro com especial interesse pelo seu romance com a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares, razão pela qual se fixou no Brasil.

Volta ao cartaz em maio, no teatro da Livraria Cultura, em São Paulo, o monólogo Um Porto para Elizabeth Bishop, que Marta Góes escreveu há dez anos para a atriz Regina Braga – e foi remontado nos Estados Unidos com Amy Irving (de Bossa Nova).

Ao mesmo tempo, Bruno Barreto (Última Parada 174) se prepara para filmar no segundo semestre o longa-metragem A Arte de Perder, baseado na biografia Flores Raras, Banalíssimas, escrita por Carmem Lucia de Oliveira. Glória Pires vai interpretar Lota e uma atriz de língua inglesa, ainda em negociação, fará o papel da poeta.

No campo literário, porém, o único lançamento previsto no país para o centenário é a tradução do romance The More I Owe You (Leya), de Michael Sledge, outra vez sobre a relação amorosa com Lota. Nos Estados Unidos, em compensação, uma agitação maior se arma para celebrá-la, com a publicação de antologias de prosa e poesia e da correspondência que manteve com a revista New Yorker.

Visionária

Para a crítica norte-americana, Bishop era uma poeta "visionária e meditativa". Descrevia a paisagem exterior para expressar as percepções de um mundo interior intenso. "Outra marca do estilo dela é fazer uma poesia formalmente austera utilizando vocabulário coloquial. Encontrar o tom certo em português é às vezes difícil", admite o tradutor Paulo Henriques Britto.

Bishop sempre perseguiu a palavra exata. "A ponto de deixar poemas inacabados à espera do mot juste", diz a professora Sandra Almeida, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), uma das organizadoras do livro The Art of Elizabeth Bishop. Foi chamada pelo poeta americano Robert Lowell, em seus versos, de "musa que transforma o casual em perfeito". Lowell, assim como Marianne Moore, espécie de mentora, foram seus principais interlocutores na poesia modernista norte-americana – e a correspondência entre eles hoje é considerada de alto valor literário.

Para a autora de Questões de Viagem, o exílio e as viagens eram os temas mais caros, conjugados a um forte sentimento de perda que remonta à infância sem pai, morto precocemente, nem mãe, internada por problemas mentais. "Ela era muito tímida e emocionalmente frágil. Certa vez, definiu-se como ‘a pessoa mais solitária que jamais viveu’", diz o estudioso Armando Olivetti Ferreira, autor de uma tese defendida na Universidade de São Paulo (USP) sobre os textos jornalísticos escritos pela americana sobre o Brasil.

Pessoalmente, Bishop mantinha uma postura feminista, embora a questão de gênero nunca tenha sido foco de sua poesia: quando aparecia, fugia à perspectiva autobiográfica. "Ela não gostava de ser incluída em antologias de ‘poetas mulheres’ pois seria uma forma de criar guetos. No entanto, vários de seus poemas exploram as subjetividades femininas e a orientação sexual da autora, apresentando uma crítica contundente aos papéis sexuais determinados por sociedades patriarcais", comenta a professora Sandra.

"Quanto ao fato de ser homossexual, Bishop era tão discreta e reservada que em Petrópolis algumas pessoas se disseram surpresas quando sua relação com Lota se tornou pública, por volta de 1995 – mais de 15 anos depois de sua morte! Isso, levando em conta o comportamento público deliciosamente transgressivo de Lota", completa Ferreira.

Brasil

Bishop viveu no Brasil – e aqui escreveu grande parte de sua obra – sem nunca ter se adaptado às cores locais. Sentia-se uma exilada, isolada ao círculo de amizades de Lota: um grupo de intelectuais, artistas e políticos falantes de inglês ou francês. "Foi só em seus últimos anos no Brasil, quando a relação com Lota se desgastou e mais ainda após a morte de Lota, que Bishop teve um contato mais direto com o meio brasileiro, dificultado pelo fato de que não tinha um interesse muito profundo pelo país.

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