
Quatro vidas que resumem uma vida que resume uma geração. Vida (assim mesmo no singular) era o título que Paulo Leminski gostaria de ter dado ao volume único contendo as biografias de Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski, publicadas separadamente pelo poeta ao longo da década de 1980. O volume que veio a lume postumamente, em 1990, agora revive pela Companhia das Letras, exatos sete meses após o lançamento de Toda Poesia, o catatau poético que chegou a bater o best seller Cinquenta Tons de Cinza no ranking dos mais vendidos.
Concebidas desde o início como partes de um todo, as vidas de Vida testemunham antes de tudo o seu autor. Testemunham-lhe as vidas: tanto a que poderia ter sido, e se foi, quanto a que afinal acabou sendo. Testemunham igualmente as vidas de uma geração inteira, que a vida do poeta expressa, abarca e contém.
"Imaginem um negrinho da senzala criado com todos os desvelos e sofisticações da casa grande. Esse foi Cruz e Sousa", diz Leminski. Para o bandido que sabia latim, o simbolista catarinense é um espelho e um antepassado: a contradição viva do negro erudito num país de analfabetos. A exemplo dos concretistas, que reivindicaram para si Mallarmé, Leminski celebra em Cruz e Sousa a emergência entre nós de uma consciência icônica, inserindo-o assim naquela "linha evolutiva" da lírica ocidental que, dizem, deságua no concretismo, e logo no próprio Leminski. Erudito e cosmopolita, Cruz e Sousa foi por isso mesmo um marginal em sua própria cultura, já que o simbolismo brasileiro (fenômeno periférico e de província) caracterizou-se, arremata, sobretudo por não ter existido.
Matsuó Bashô foi um samurai japonês do século 17 que trocou a espada pela "faca só lâmina" do haicai. Poeta andarilho, on the road, converteu o haicai (até então um mero divertimento trocadilhesco) num gênero metafísico: modo de vida e ascese espiritual. Leminski, que já foi chamado de poeta-piada e era faixa-preta em judô, certamente enxerga em Bashô um kami: bananeira totêmica (bashô significa bananeira) e ancestral sagrado, insuperável na faina intersemiótica verbivocovisual.
O Jesus de Leminski não é o Cristo do qual o poeta, ainda adolescente, ouviu falar no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, onde aprendeu latim. É um Jesus subversivo, socialista, utópico, lírico e metalinguístico. Enfim, o Jesus Cristo Superstar dos anos 1970: o Cristo dos hippies. Não há dúvida, porém: Leminski realmente acreditava nesse Cristo que lhe espelhava a imagem de poeta-profeta de fanopeias utópicas. Sensato, no entanto, ele adverte: "Só um energúmeno iria pedir a um profeta da Galileia programas concretos de reforma agrária".
A mais longa e mais bem trabalhada das narrativas do livro, a biografia de Trótski tem um interesse especial para o Brasil de hoje. Nela, Leminski, um entusiasta da Revolução Russa, passa em revista os mitos do nosso romantismo político, que são também os mitos da sua geração, geração que hoje nos governa. Assim, a imagem de um Lênin oportunista e pragmático, pondo habilmente o capitalismo a serviço do socialismo, adquire hoje um quê de profecia.
Não menos emblemática e profética é a vitória da "mediocridade metódica" de Stálin sobre o brilhantismo intelectual de Trótski. Aqui, Leminski retoma um de seus leitmotivs narrativos, já abordado na biografia de Cruz e Sousa: o tema da superioridade intelectual vencida pelo meio hostil e medíocre. Generoso, porém lúcido, Leminski não alimenta o mito do "anjinho libertário com que sonham os trotskistas ingênuos". Quando esteve no poder, Trótski "agiu de maneira tão implacável quanto Stálin".
Unidas pelas pontas, como um ouroboros, símbolo de infinitude e perfeição formal, as quatro biografias escritas por Leminski formam sem dúvida um todo: o todo de uma reflexão autobiográfica em terceira pessoa. Registros de uma vida que refletia sobre si mesma ao refletir-se em outras vidas, Vida consegue iluminar alguns dos pontos cegos que, tendo servido de farol para uma geração inteira, ainda hoje obscurecem a alma brasileira.



