
Faz algum tempo que Cacá Carvalho não traz suas inquietações a Curitiba. Mas, no norte do estado, está presente a cada novo espetáculo que cria. Confiante da qualidade do trabalho desenvolvido na Casa Laboratório para as Artes do Teatro, a curadoria do 41º Festival Internacional de Londrina apostou acertadamente em fazer da cidade o palco de estreia da peça Figurantes. Pessoas legadas a um desfocado segundo plano, carregadas passivamente pela vida (essa sucessão de compromissos entre o nascimento e a morte). Segundo Cacá, todos nós.
"Não é possível, a cada minuto, não brigar para ser pessoal. Não brigar para ser o protagonista da situação. E a culpa não está em ninguém, você se coloca na situação de figurante. Sofremos de um estrabismo absoluto", bradou o ator e diretor em conversa com a imprensa. A condição, na qual também se inclui, o incomoda.
Embora reconheça que durante uma entrevista, quando lhe é dada a palavra para divagar sobre suas ideias, experimente um momento de protagonismo. Aproveita as atenções que cativa, diante de jornalistas ou do público, para tentar apreender um tema que o interessa e do qual nunca antes havia tratado: "o silêncio que existe entre nós que vivemos nas grandes cidades".
"Entre" é sua palavra-chave. Aquilo que há de vazio no intervalo de dois seres humanos. A incomunicabilidade incontornável que já se impunha entre os personagens beckettianos e, desde então, é matéria-prima privilegiada do teatro mais ou menos absurdo. Figurantes fecha-se no microcosmo de um cenário urbano habitado por sete tipos facilmente reconhecíveis, pois com eles cruzamos a cada esquina, telefonema ou passeio pelo escritório, se é que não os somos, mas em quem pouco se presta a atenção. Não se distinguem.
A moça do telemarketing. Além de debochar da virose de gerundismo, alguém perde tempo para se lembrar de que há uma pessoa do outro lado da linha? A cada interlocutor que desliga na cara, ela se sente mais desimportante. "Tenho um corpo", precisa dizer em voz alta. Insinua-o em decotes e saias encurtadas, na tentativa triste de ser vista.
De modo semelhante, desespera-se o rapaz de classe média que comprou uma moto e está precisando de dinheiro. Ele pula alto pelo palco, com crescente violência, contraindo no corpo forte a raiva e a angústia de estar sem saída. "Existe uma grande necessidade de gritar e não se grita. De tentar falar mais, como se alguém fosse capaz de entender aquilo que deve ser dito", sintetiza o diretor.
A cena foi pensada como um quadro em suspensão, emoldurado, que por uns instantes se dilata e ganha vida. Os personagens congelados na imagem voltam então aos seus entretenimentos cotidianos, à maquinaria do trabalho (que enobrece, um deles repete e tenta acreditar), aos dramas insolúveis. Os diálogos se constroem de frases reticentes, descoladas umas das outras, que se diz quase automaticamente dia a dia, entremeadas por pedidos de ajuda, tentativas de soltar o grito travado na garganta. "O espetáculo é mais um emissor de sinais do que uma narrativa única."
Influência
A dramaturgia ficou a cargo de Cláudia Barral, escritora de Salvador. Muito antes, Cacá Carvalho havia solicitado aos atores que trouxessem os textos que gostariam de dizer. Surgiram com linhas de Clarice Lispector, Manoel de Barros, Beckett... sete vontades distintas. Em vez de se agarrar a apenas uma como fora o espetáculo anterior do grupo, O Homem Provisório, baseado no romance Grande Sertão: Veredas. Uniu-as todas, mas calou os autores, compondo cenas mudas. Não passou qualquer referência textual a Cláudia, quando ela passou uma semana assistindo aos intérpretes. Permitiu que a dramaturga preenchesse com suas palavras aquele silêncio e cortou excessos, deixando espaços vagos a serem preenchidos pelo espectador, como os que há entre uma pintura e quem a observa.
Descontextualizadas, as obras originais trazidas pelo grupo se converteram na paisagem interior que confere consistência aos tipos vistos sobre o palco, impulsionando o trabalho dos atores para o primeiro plano da encenação. A ação e os diálogos são menos importantes, exatamente porque projetam uma condição de vida em que rotineiramente não se faz nem se diz o que, necessariamente, importa.
Sob a influência de obras cinematográficas como Magnólia (de Paul Thomas Anderson), as sete vidas banalizadas se entrecruzam, em situações de solidariedade e descaso. Não se salvam de voltar à condição estática de figuras de um quadro, estagnadas. Presas como o figurante-símbolo do espetáculo, um peixe suspenso em seu aquário, este sim, em primeiro plano diante da plateia.
Entre as trivialidades ditas, salta um pequeno poema, dito por uma das personagens sem que os outros lhe dessem valor: "Viver o que se vive. Do jeito que se vive. Onde se vive. Pra que se vive?"
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A repórter viajou a convite do festival.



