Blog Carlos Ramalhete

O século dos jornais

Gustavo Corção
Foto: Reprodução

Cem anos da Gazeta do Povo! É uma verdadeira aventura, perpassando justamente o período da história que, um dia, será certamente conhecido como o tempo dos jornais. Antes dele, a informação era controlada, medida, sempre atrasada e parcial. Surgida a imprensa, há coisa de uns 500 anos, surgiram os primeiros veículos de comunicação assemelhados ao que hoje concebemos como jornais. Mas ainda levaria tempo, séculos mesmo, até que se chegasse à combinação necessária ao surgimento deste meio: um porcentual relativamente alto de alfabetizados, uma classe média numerosa e interessada nos acontecimentos políticos e culturais, uma sociedade em que ela pudesse participar ativamente, uma boa quantidade de escrevedores (pois o jornalista é antes um escrevedor que um escritor) e, finalmente, uma economia que permitisse o surgimento de uma imprensa ativa, com vários jornais se digladiando pelo leitor. O grande Chesterton, que escreveu na primeira metade do século passado, surfou esta onda a ponto de escrever dezenas de livros que, em sua maior parte, consistiam de compilações de artigos publicados em jornal. Ele mesmo se via antes como jornalista que como escritor ou filósofo.

E é a esta classe de escrevedores que, no Brasil, a Gazeta abriu generoso espaço. É para mim mesmo um privilégio ter meus textos publicados na mesma Gazeta de que foi colunista Corção. Corção, afinal, é quem eu quero ser quando crescer! Cony, outro magnífico artesão das letras, foi um dia por mim substituído, se é que alguém poderia substituí-lo. São 100 anos de letras; não de belas-letras parnasianas (ou não só), mas de letras belamente enfileiradas, testemunhando no ritmo frenético do jornal diário ou da coluna semanal a realidade cotidiana.

O jornal é isso: uma testemunha da história, que guarda no bojo de cada velha edição microfilmada ou só amarelada, naquele papel barato que não foi feito para durar, os acontecimentos e as opiniões de um momento após o outro. O historiador, ao ler jornais antigos, sempre encontra lá no fundo, em uma página perdida, os acontecimentos realmente importantes do momento que estuda. A primeira página, com suas manchetes, no mais das vezes interessa-se por coisas tão passageiras que a própria história mal registra. Mas, procurando bem, está tudo ali.

Esta, aliás, é a fraqueza maior do novo modelo em que o jornalismo se vê preso, com a internet e sua velocidade ainda mais estonteante: as manchetes, de baixo valor histórico, acabam sendo tudo o que se vê. As notinhas na página 17, que apontam os acontecimentos de real valor historiográfico, perdem-se no meio da informação irrelevante, mas que está na boca do povo. Fala-se da declaração infeliz de um ministro, mas se perde o acontecimentozinho que remodela a realidade.

Mesmo neste meio novo, aliás, está a Gazeta na linha de frente. Outros jornais abandonaram as edições impressas e não conseguiram se firmar nas redes virtuais. Na verdade, ainda não se descobriu, neste momento, um sistema realmente adequado de garantir o funcionamento de um jornal virtual. Será que os paywalls perdurarão? Não se sabe. Só o que se sabe é que a Gazeta continua na frente, tendo sido o jornal mais lido – logo, o que mais desperta confiança nos leitores – durante a acirrada eleição de 2018.

É uma longa e bela história, com transformações atrás de transformações, com personagens riquíssimos e um serviço inestimável prestado ao Brasil. E é um privilégio ímpar fazer parte destes 100 anos. Parabéns à jovem centenária Gazeta do Povo!

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