Os museus no mundo que assistiu um pedaço do Brasil queimar

Vista aérea do Museu Nacional do Rio de Janeiro, um dos mais antigos do Brasil, em 3 de setembro de 2018, um dia depois de um enorme incêndio ter atingido o prédio
Vista aérea do Museu Nacional do Rio de Janeiro, um dos mais antigos do Brasil, em 3 de setembro de 2018, um dia depois de um enorme incêndio ter atingido o prédio

Perder um museu com um acervo como o do Museu Nacional brasileiro é uma tragédia de proporções incalculáveis. Mesmo antes do fogo da biblioteca de Alexandria do século XXI se apagar, dedos já estavam sendo apontados, buscando culpados de ocasião para uma situação que remonta à década de 1950. Considerando que o Brasil está em ano eleitoral, não é de se surpreender. A perda deve servir para o esclarecimento e divulgação das funções de uma instituição como essa, para o que esse fogo significa.

A exposição de um museu ao público é apenas a ponta de seu iceberg, com uma quantidade muito maior de objetos e conhecimento preservada ali. Outro aspecto a ser lembrado é o de que museus não são meros “depósitos de coisas velhas”, mas lugares de produção e difusão de conhecimento; não se trata apenas do passado, mas também do futuro. Museus não deveriam ser vistos como meros passeios exóticos: estão nos pilares de sustentação de qualquer sociedade, são fios importantes no tecido social.

É onde se encontram muitas perguntas e se buscam as respostas: Quem somos? Da onde eu vim, qual a origem do meu nome? Onde estou, o que é esse lugar, o que explica ele estar assim? E isso pode influenciar e definir a política internacional de um Estado, a imagem que aquele país quer transmitir aos seus nacionais e aos vizinhos, justificar reivindicações ou marcar mudanças em sua política externa.     

Pax Britannica

O exemplo mais presente de um museu nacional talvez seja o do British Museum (Museu Britânico), em Londres. De sua fundação em 1753 até hoje, o museu deu à luz a diversas outras instituições de pesquisa, preservação e difusão de conhecimento. Foi no século 19 que o museu se tornou um nome conhecido por intelectuais e políticos do mundo inteiro. Pode-se precisar a data inicial: o ano de 1802.

Foi nesse ano em que o rei Jorge 3° doou ao museu a Pedra de Roseta, encontrada nas batalhas entre britânicos e franceses pelo controle do Egito, durante as Guerras Napoleônicas. A pedra contém um mesmo texto em três grafias: hieróglifos, demótico e grego antigo. Seu nome tornou-se sinônimo de chave, de decifrar, já que sua análise permitiu a compreensão dos hieróglifos egípcios.

Nos 150 anos seguintes, o museu se tornou o local de destino de incontáveis objetos arqueológicos, documentais e artísticos do mundo inteiro. Especialmente, de localidades que foram parte do Império Britânico, onde o sol nunca se punha. Seria impossível listar todos os tesouros que foram, ou estão, guardados e expostos ali. Além de doações por indivíduos e governos, muito desse acervo foi localizado por políticas do próprio museu.

O museu financiou e financia diversas expedições científicas pelo mundo. Para um único exemplo, em 1857, Charles Newton descobriu as ruínas e tesouros do Mausoléu de Halicarnasso, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Hoje, tais objetos produzidos por gregos, para um governante persa, em território atualmente turco, estão em Londres. A mensagem era clara: o Reino Unido era o centro do mundo civilizado, com o dever e o direito de tomar para si a custódia do patrimônio cultural mundial.

Um “fardo do homem branco” museológico. Para os estrangeiros, era uma demonstração da superioridade e alcance do poderio britânico. Já para a sua população, um museu nacional, como o britânico ou o brasileiro, possui forte influência no imaginário e na formação daquela nacionalidade, do sentimento pátrio daquela sociedade. Para um cidadão britânico comum de 1900, que dificilmente teria meios para viajar ao Egito, Índia, Fiji ou Quênia, o British Museum levava toda a glória de “seu” império e dos povos submetidos por ele.

Em 1997, com a devolução de Hong Kong para os chineses, príncipe Charles, herdeiro da coroa, disse que era o crepúsculo do Império Britânico. De fato, hoje o Reino Unido não mais controla dezenas de milhões de quilômetros quadrados, o que não quer dizer que o museu tenha perdido qualquer propósito nas relações externas do país.  

Ao contrário, o museu talvez seja a principal propaganda do antigo poderio britânico, uma vívida demonstração de que não se trataria de uma “nação qualquer”, mas um país com enorme alcance cultural e político. Isso também serve ao público, atraindo e encantando turistas. Apenas em 2017, o museu foi visitado por quase seis milhões de pessoas. E você pode até não notar a grandiosidade britânica ao visitar o museu, mas o seu cérebro notaria.

Egito, Grécia e devoluções

Isso leva ao segundo ponto da relação entre museus e a política internacional, que une países aparentemente distintos como Grécia e Egito. Objetos do mundo inteiro estão em museus centrais, como o britânico ou o Louvre francês. Por isso, diversos países reivindicam a devolução de objetos produzidos por culturas nativas daquele território, mesmo que com milhares de anos separando tais culturas dos Estados modernos.

Na maioria das vezes, tais exigências são dirigidas aos antigos dominadores coloniais: países latino-americanos aos espanhóis, Namíbia aos alemães, vietnamitas aos franceses, etc. A Etiópia obteve de volta o Obelisco de Axum, exibido em Roma até 2005, como resquício colonial. Referência à essa apropriação de tesouros é feita até na cultura popular, como no recente filme Pantera Negra.

Outros casos são mais abrangentes, como objetos da Grécia clássica e do Antigo Egito; inclusive, no Museu Nacional, um vasto acervo egípcio foi reduzido à cinzas. O British Museum é centro de diversas dessas disputas. Por exemplo, os Mármores do Partenon, elaborados sob supervisão de Fídias, quase dois mil e quinhentos anos atrás.

Metade deles está exposta no Museu da Acrópolis, em Atenas. A outra metade está em Londres, levados em situação bastante questionável do ponto de vista ético no ano de 1816. O diplomata escocês que realizou e lucrou com a operação possivelmente seria chamado de contrabandista para baixo em tempos atuais.

Múmias, sarcófagos e demais objetos egípcios estão presentes em todo o mundo, a maioria saqueada por ladrões de túmulos e contrabandeada do país. Por algumas décadas, na virada do século XIX para o XX, ter uma múmia egípcia em sua residência era sinal de status. A trituração de múmias servia até para pigmentos de tintas artísticas, a mummy brown. Compreensível que o país deseje seus tesouros de volta.

Egípcios, gregos e demais nações exigem o retorno de seus tesouros arqueológicos por orgulho mesquinho, por teimosia ou por mero rancor da dominação colonial? O Estado moderno grego foi fundado em 1832; o egípcio, em 1952. O propósito de retomarem seu patrimônio histórico é mostrar ao mundo, e aos seus cidadãos, que esses Estados, embora jovens, seriam os herdeiros de povos milenares, berços de arte e de conhecimento.

Mais que isso, tomar para si a custódia de sua própria cultura antiga é também enviar a mensagem de que aquele povo e aquele país está amadurecido. Não está mais submetido, ou necessita, da tutela de uma potência “civilizadora”. Ele é a sua própria civilização, independente, e assim que seus cidadãos devem se sentir. E é assim que ele deve ser tratado por seus vizinhos e por estrangeiros.    

O México asteca

Na América Latina estão outros exemplos de como a história, a arqueologia e os museus podem servir ao propósito de formação de uma identidade. Indo além, de como uma sociedade pode descobrir novos aspectos, origens esquecidas ou desconhecidas, redefinir seu caráter e seu papel.

No ano de 2018 é comum, quase automático, pensar no Império Asteca e outras civilizações quando falamos do México. Mas essa associação tem menos de 150 anos. Pode parecer muito, mas estamos falando apenas de quatro, talvez cinco, gerações de uma família. Até o último quarto do século XIX, a herança indígena estava enterrada, de forma figurada e literal. O México foi fundado em 1821 como um império aos moldes espanhóis, com forte influência institucional da Igreja Católica e sob as ideias racistas do período.

Essa soma significou a ideia de formação de um país de identidade branca e católico; as populações indígenas eram mão-de-obra e os antigos hábitos pagãos não deveriam ser relembrados. Após percalços e golpes no orgulho nacional, como a derrota para os EUA em 1848 e a intervenção francesa em 1863, essa auto-imagem ficava cada vez mais pálida.

Simultaneamente, diversas descobertas arqueológicas ocorriam no país; ainda hoje, qualquer obra ou construção no México corre o “risco” de topar com um tesouro do passado, e isso não é uma hipérbole. O governo passou a valorizar essas descobertas, adotando políticas nacionais, como a Lei de Monumentos de 1897, que autorizava a apropriação de terrenos para finalidades arqueológicas.

Em 1906, o principal museu do país foi reorganizado, o atual Museo Nacional de Antropología, onde está a Pedra do Sol, a pedra-calendário asteca. A própria identidade nacional mexicana começou a mudar a partir de então. De apenas uma das várias posses espanholas para herdeiro do vasto e poderoso Império Asteca. Uma junção de política e de ciência, preservando grande coleção das civilizações mesoamericanas.

Hoje, símbolos indígenas são comuns no Estado e na sociedade mexicana, e também na imagem que o país projeta. O primeiro estádio que recebeu duas finais de Copa de Mundo apropriadamente se chama Estádio Azteca. O sítio arqueológico de Teotihuacan recebeu mais de quatro milhões de visitantes em 2017. Além da entrada de capital, isso aproxima o México do cidadão estrangeiro e de possíveis países parceiros.

Museu de Israel

O principal caso da relação entre museus, arqueologia e política está em Israel. O Estado de Israel contemporâneo é um país fundamentado na arqueologia, e isso não é um exagero. É pela arqueologia que o sionismo secular comprova a presença histórica dos judeus na região, anterior à partição da Palestina em 1947. Demonstrar que judeus viviam naquele território há milênios sustenta a argumentação de que tais territórios não teriam sido tomados dos palestinos, mas apenas retornados aos seus ocupantes legítimos.

Exemplo é o sítio arqueológico da fortaleza de Elá, possivelmente da época do Rei David, três mil anos atrás. Embora descoberto em 1932, apenas na década de 1990, com financiamento da Autoridade de Antiguidades do governo de Israel, a fortaleza foi pesquisada. Não à toa o país possui leis rígidas sobre o patrimônio histórico e arqueológico.

Ao considerar que a população israelense é formada por judeus de diversas partes do mundo que, em algum momento, migraram para o país, é necessário fortalecer um senso de unidade nacional a essas pessoas de origens diversas. Isso passa pelo patrimônio arqueológico do país. Por exemplo, o sítio arqueológico de Masada, escavado na década de 1960.

Além de destino de visitação e preservação histórica, Masada fornece ao novo país um local de resistência e um conjunto de heróis, que preferiram a morte ao domínio romano; essa narrativa nacional é inclusive desafiada por alguns setores religiosos, já que os defensores de Masada cometeram suicídio em massa, e o judaísmo condena o suicídio.

O Museu de Israel, de 1965, estabelecido como museu nacional, e as descobertas em Jerusalém são talvez os exemplos mais visíveis dessa política. É nesse museu em que estão os Manuscritos do Mar Morto. A arqueologia em Israel também envolve descobertas e temas da Bíblia cristã, um fator que contribui para a aproximação de comunidades evangélicas ao redor do mundo com Israel e projeta a imagem do país além da política.

A atrocidade que catalisou a criação do Estado de Israel, o Holocausto, possui seu próprio museu, o impactante Yad Vashem. Ali é explicitada a corrupção moral nazista, além de preservar a memória das vítimas e das pessoas que auxiliaram os judeus nesse período. O museu, mais do que uma preservação histórica, é uma pedra fundamental na identidade israelense. O Ministério de Relações Exteriores de Israel considera a visita ao museu obrigatória para dignitários estrangeiros. A existência do país está condensada ali.    

E agora?

É uma metáfora cruel que o Museu Nacional brasileiro queime em um momento delicado e divisivo da história nacional. É parte da nacionalidade brasileira que pegou fogo. O descaso de décadas resulta na necessidade da reconstrução não apenas do museu, mas da relação entre o brasileiro e seu patrimônio histórico. A necessidade de compreender a função desse patrimônio e porque ele deve ser protegido, ainda mais com tantos em situação de risco.

Museus e institutos de pesquisa não possuem poderosos e milionários lobbies no Congresso, sugando verbas, perdões fiscais e refinanciamentos. É um papel que deve ser cumprido pela pressão cívica, desde as camadas populares até as mais abastadas. Museus no exterior são local de passeio, no Brasil são negligenciados. E isso é enfraquecer uma poderosa ferramenta de formação e projeção da nacionalidade brasileira para o mundo, que assistiu atônito um pedaço do Brasil queimar.

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