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Afinal, o nazismo foi de direita ou de esquerda? – Prolegômenos a um debate menos chinfrim (parte final)

Trabalho forçado para a construção de um canal entre os mares Branco e Báltico, usando prisioneiros dos gulags.
Trabalho forçado para a construção de um canal entre os mares Branco e Báltico, usando prisioneiros dos gulags. (Foto: Reprodução)

“Nós vamos vencer essa guerra, porque lutamos por uma ideia, e não pelo capitalismo judaico, que motiva os soldados do inimigo. Apenas a Rússia é perigosa, porque luta com o mesmo fanatismo com que lutamos por nossa visão de mundo” (Adolf Hitler)

Após a Segunda Guerra Mundial, como vimos no artigo anterior, tornou-se tabu comparar nazifascismo e comunismo. Se, nos anos 1930, os regimes foram tidos por suficientemente próximos para que se os reunisse sob o conceito de totalitarismo, tudo mudou depois da vitória aliada contra as potências do Eixo. Como a União Soviética houvesse sido decisiva para a vitória sobre Hitler – tendo, inclusive, sofrido as maiores baixas militares –, seus aliados ocidentais julgaram por bem fazer vista grossa em relação aos crimes de Stalin, o qual, antes de 1939, exercera com exclusividade o papel de genocida, voltando a exercê-lo depois de 1945.

Com efeito, a União Soviética fora pioneira no uso do mecanismo repressor mais característico do século 20, aquilo que o escritor francês David Rousset (sobrevivente de Buchenwald, e um dos primeiros a denunciar os campos soviéticos) batizou de “o universo concentracionário” (l’univers concentrationnaire). Lenin concebeu-o em 1918, com a finalidade explícita de encarcerar em campos de concentração fora dos centros urbanos aqueles que chamava de “elementos indignos de confiança”. Três anos depois, em 1921, já havia 84 campos de concentração instalados em 43 províncias russas. A partir de 1929, com Stalin, o sistema dos gulags ampliou-se enormemente e, apesar de o mundo livre ter preferido esquecer, continuou expandindo-se durante e depois da guerra.

Como escreve a historiadora Anne Applebaum em premiada obra sobre os gulags: “Ninguém quer saber que a vitória aliada teve outro lado, mais sombrio, ou que os campos de Stalin, nosso aliado, se expandiam justamente quando os de Hitler, nosso inimigo, eram libertados… Ninguém quer concluir que derrotamos um chacinador com a ajuda de outro. Ninguém quer lembrar quanto esse outro chacinador se dava bem com estadistas ocidentais”. Daí que, ao fim da guerra, toda comparação entre nazifascismo e comunismo não fosse, por assim dizer, considerada de bom tom. Era mais conveniente manter a sujeira longe do ventilador, para que, eventualmente, não viesse a respingar sobre todo mundo. Esse foi um dos motivos para a proibição de comparar.

Um outro motivo, dessa vez de ordem subjetiva e emocional, é bem mais razoável, tendo origem no choque universal provocado pela revelação dos detalhes do funcionamento dos campos de extermínio nazistas. Para os judeus sobreviventes, era como se palavras não bastassem para descrever todo o horror daquela experiência singular, inscrita indelevelmente no corpo e na alma das vítimas. De algum modo, a mera tentativa de explicar racionalmente o ocorrido e equipará-lo a outros casos de violência política, reduzindo-lhe assim o significado, soava como uma espécie de violação a tão dolorosa memória. Como observa Alain Besançon em A Infelicidade do Século: “A consciência da Shoah não se acomoda dentro da análise puramente política; ela se sente mal diante de um estudo comparativo, neutro, ‘científico’. Ela mantém inevitavelmente o sentimento de um acontecimento único neste século e em todos os tempos, requerendo algo distinto de um estudo objetivo: uma reverência especial, um silêncio sagrado”. Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, resume bem esse estado de espírito no livro É Isto um Homem?: “Talvez não seja possível compreender o que aconteceu, e nem se deva mesmo tentar compreendê-lo, na medida em que compreender é quase justificar (…) Aquilo tudo foi inumano, ou, mais ainda, anti-humano, sem qualquer precedente histórico, só comparável às manifestações mais cruéis da luta biológica pela existência”.

O medo da banalização do Holocausto, expresso de maneira tão contundente por Levi, é perfeitamente compreensível e digno de respeito. No entanto, a própria obra do escritor italiano é testemunha de que compreensão racional e condenação moral não são excludentes, talvez muito pelo contrário. Ademais, comparar não significa estabelecer identidade. Só se pode comparar objetos que, por óbvio, não sejam idênticos. Como nota o filósofo búlgaro Tzvetan Todorov: “A comparação é uma ferramenta de conhecimento indispensável nesse campo; ela produz, por suposto, similaridades e diferenças. A ciência é sempre sacrílega. Recusa-se a isolar os eventos ali onde quem os viveu em primeira pessoa tende a fazê-lo… Não é porque os eventos passados são únicos, cada qual com um significado específico, que devemos hesitar em ligá-los uns aos outros. Pelo contrário: longe de excluir a singularidade, só a comparação pode estabelecê-la”.

Dedicando-se ao esforço de comparação, e, corajosamente, violando o interdito consensual do pós-guerra, alguns estudiosos começaram a compreender melhor as muitas afinidades, tanto ideológicas quanto pragmáticas, entre o comunismo soviético e o nazifascismo, cuja inimizade havia sido mais circunstancial que essencial, expressando rivalidade no seio de um mesmo projeto revolucionário, que tinha nas democracias liberais, e, de modo mais amplo, na herança civilizacional judaico-cristã, o seu grande inimigo comum. A percepção dessas afinidades está na origem do conceito de totalitarismo, cuja mais célebre teórica foi a filósofa Hannah Arendt – a “intrépida Hannah Arendt”, como a chama François Furet.

Digno de nota é o fato de que, contrariando certo senso comum acadêmico da época, que costumava reunir conceitualmente fascismo italiano e nacional-socialismo, ambos pretensos representantes da “extrema-direita”, Arendt não aplica o conceito de totalitarismo ao regime de Mussolini, optando em vez disso por reservá-lo única e exclusivamente aos de Stalin e Hitler, tidos usualmente por inimigos essenciais – um de esquerda, o outro de direita. E, com efeito, sabe-se hoje que ambos os líderes totalitários pareciam conscientes de suas afinidades, que os distinguiam de tiranos e ditadores comuns. Nas palavras da filósofa: “Os nazistas, cujo instinto era infalível para discernir essas diferenças, costumavam comentar com desprezo as falhas dos seus aliados fascistas, ao passo que a genuína admiração que nutriam pelo regime bolchevista da Rússia (e pelo Partido Comunista da Alemanha) só era igualada e refreada por seu desprezo em relação às raças da Europa oriental. O único homem pelo qual Hitler sentia ‘respeito incondicional’ era ‘Stalin, o gênio’, e, embora no caso deste e do regime soviético não possamos dispor (e provavelmente nunca venhamos a ter) a riqueza de documentos que encontramos na Alemanha nazista, sabemos, desde o discurso de Kruschev perante o 20.º Congresso do Partido Comunista, que também Stalin só confiava num homem, e que esse homem era Hitler [isso, é claro, até o momento da invasão nazista à União Soviética]”.

A interpretação de Arendt em Origens do Totalitarismo insere-se numa tradição intelectual que identifica no aparecimento das massas humanas amorfas o elemento crucial por trás das revoluções políticas modernas. Começando com Gustave Le Bon (A Psicologia das Massas) e passando por Ortega y Gasset (A Rebelião das Massas), Emil Lederer (O Estado das Massas), Eric Hoffer (O Verdadeiro Crente), William Kornhauser (A Política da Sociedade de Massa) e Elias Canetti (Massa e Poder), esse tipo de análise vê no desmoronamento das antigas hierarquias sociais europeias, e na consequente atomização dos indivíduos, o segredo da atração que os movimentos totalitários exerceram sobre as mentalidades da época. Desprovido de outros laços sociais (de família, amizade, camaradagem), sugerem os autores, o homem-massa só adquire um sentido de vida quando participa de um movimento ou ingressa no partido. “A principal característica do homem da massa não é a brutalidade nem a rudeza, mas o seu isolamento e a sua falta de relações sociais normais” – diz Arendt, para então concluir de modo sintético: “Os movimentos totalitários são organizações maciças de indivíduos atomizados e isolados”.

Enquanto que, na Alemanha, as circunstâncias históricas da derrota na Primeira Guerra haviam preparado o terreno para o desenraizamento dos indivíduos, na União Soviética Stalin teve de produzir artificialmente a atomização social. Fê-lo mediante o uso habilidoso de repetidos expurgos, os quais, invariavelmente, precediam e preparavam o extermínio de um grupo. Com o objetivo de destruir todas as conexões sociais e familiares do indivíduo, os expurgos eram conduzidos de modo a intimidar não apenas o acusado, mas todo o seu círculo de relações, desde meros conhecidos até os parentes e os amigos mais próximos. O regime soviético manejava com raro talento o mecanismo da “culpa por associação”, como forma de fomentar a cizânia e o esfacelamento das relações pessoais. Assim, quando alguém era denunciado como traidor da revolução e inimigo do povo, seus antigos amigos logo o abandonavam à própria sorte: para salvar a própria pele, prestavam informações que corroborassem as provas inexistentes, vendo nesse estratagema um modo desesperado de escapar da mira dos órgãos de segurança. Stalin sempre usou o terror como método de dissolução de velhas lealdades. Como explica Arendt: “O totalitarismo jamais se contenta em governar por meios externos, ou seja, através do Estado e de uma máquina de violência; graças à sua ideologia peculiar e ao papel dessa ideologia no aparelho de coação, o totalitarismo descobriu um meio de subjugar e aterrorizar os seres humanos internamente”.

No fim das contas, a tese de Hannah Arendt baseia-se em três argumentos centrais. Primeiro, o de que o totalitarismo foi um fenômeno radicalmente novo, diretamente tributário da Primeira Guerra Mundial, na esteira da qual a Europa se viu econômica, política e moralmente arruinada (uma interpretação, sob esse aspecto, parecida com a de François Furet). Arendt recusava explicitamente as teorias que viam no totalitarismo uma continuação, posto que extrema, de velhos modos de exercício do poder. Assim, as analogias com o cesarismo e o bonapartismo pareciam-lhe fora de propósito. Bolchevismo e nacional-socialismo eram fenômenos sui generis, não versões extremas de algo previamente conhecido. Sua doutrina política baseava-se num conceito inédito de poder, assim como sua Realpolitik, numa noção excêntrica de realidade. Segundo, o totalitarismo caracterizou-se pela instabilidade e pela permanente radicalização. Em vez de se estabilizarem institucionalmente após terem assumido o controle do Estado, os regimes totalitários expandiam-se indefinidamente, visando à dominação mundial. Suas populações domésticas são continuamente mobilizadas por meio da guerra, da propaganda, dos julgamentos espalhafatosos e dos expurgos. Terceiro, o totalitarismo implicou um uso específico e permanente do terror como forma de governo. Uma vez vencidos os inimigos externos, as vítimas dos regimes totalitários, como vimos, passam a ser discriminadas por categorias e rótulos infamantes: “inimigos do povo”, “inimigos objetivos”, “classes moribundas”, “raças decadentes” etc. Ao eliminá-las, os donos do poder totalitário alegam estar apenas cumprindo um imperativo histórico, pois que aquelas categorias, sem lugar na sociedade do futuro, já estariam mesmo fadadas a desaparecer. O objetivo do terror é, entre outras coisas, criar indivíduos que acabam por aceitar a própria dispensabilidade. O “Novo Homem” é treinado para ser supérfluo, tal qual uma peça que, uma vez defeituosa, deve ser substituída em benefício do gigantesco mecanismo coletivo do Estado.

União Soviética e Alemanha, personificadas por Stalin e Hitler, não foram apenas os principais causadores da guerra mais devastadora da história humana, na qual pereceram mais de 40 milhões de pessoas, entre soldados e civis. Sua violência quintessencial deu origem à instituição dos campos de concentração, responsáveis por outras tantas milhões de mortes. Sua política de “revolução permanente”, segundo a expressão cunhada por Trotsky, consistia na ampliação indefinida, conforme a conveniência pessoal do ditador, da categoria de “inimigos do Estado” (ver, a esse respeito, Revolução Permanente: O Estado Total em um Mundo em Guerra, de Sigmund Neumann).

Os regimes totalitários eram inimigos mortais da estabilidade política, que ameaçava a sua retórica messiânica e utópica. Daí que fomentassem um clima constante de guerra, com base no qual conduziam seus expurgos e seus julgamentos políticos, obrigando pessoas inocentes a confessar crimes irrealizáveis. Recorrendo ao mecanismo da polícia secreta, mantinham a sociedade civil num estado perpétuo de sobressalto. Os indivíduos passavam a se enxergar como propriedade absoluta do Estado, um poder colossal que podia dispor de suas vidas como bem entendesse.

Inerente ao totalitarismo é o método do extermínio por categoria. Não se puniam as pessoas por algo que tivessem feito, mas por aquilo que eram – um judeu, um eslavo, um burguês, um kulak. Para a construção da sociedade futura, esses representantes do “Velho Homem” deveriam ser eliminados, não sem antes passar por um processo prévio de desumanização. O jargão desumanizador era, aliás, bem similar em ambos os regimes. Hitler declarou sobre os judeus: “Já não são seres humanos. São animais. Nossa tarefa não é, portanto, humanitária, mas cirúrgica. Caso contrário, a Europa perecerá sob a doença judia”. Algo parecido ao que Lazar Kaganovich, braço direito de Stalin, disse sobre os inimigos do Estado soviético: “Pensem na humanidade como um grande e único corpo, mas que, periodicamente, requer algum tipo de cirurgia. Ora, eu não preciso lembrá-los de que não se faz uma cirurgia sem cortar membros, destruir tecidos e derramar sangue”.

O que se depreende do conceito de totalitarismo é que, ao contrário do que sugere a rígida dicotomia esquerda/direita na qual a tradição marxista inscreveu o confronto entre comunismo e nazifascismo, ambos os regimes foram basicamente semelhantes em sua visão escatológica da política, cujo objetivo final consistia em nada menos que recriar a própria natureza humana. Como escreve Vladimir Tismaneanu: “Nascidos da cataclísmica barbárie e da violência sem precedentes da Primeira Guerra, esses movimentos apocalípticos proclamaram o advento do milênio neste mundo, ou, para usar a formulação do filósofo Eric Voegelin, tentaram imanentizar o escathon, construir o paraíso na Terra, eliminando a distinção entre a Cidade do Homem e a Cidade de Deus”. Mas, antes de qualquer outra coisa, o que realmente os aproximava era a prática macabra derivada dessa escatologia política: ambos os regimes reivindicaram o direito – se não mesmo o dever – de matar, e fizeram-no com métodos parecidos, numa escala até então desconhecida.

O problema é que, como notaram vários autores (Alain Besançon, Anne Applebaum, Martin Malia, entre outros), a memória histórica trata os crimes cometidos por nazistas e comunistas de maneira distinta, ainda que, ao menos sob o critério do número de vítimas, os segundos tenham sido piores. Como sugere Malia, essa assimetria historiográfica se explica em primeiro lugar pelo fato de que Hitler perdeu a guerra, ao passo que Stalin a venceu. “O resultado dessas circunstâncias opostas foi o de dispormos hoje de bases de dados muito desiguais para cada caso: a historiografia do nazismo é volumosa, rica e variada, enquanto a do comunismo, posto que copiosa (ao menos para o caso soviético), é fragmentária, fugidia e de difícil acesso”.  Já em 1945, por exemplo, muito por conta do louvável esforço da comunidade judaica em preservar a memória do ocorrido, os crimes nazistas tornaram-se amplamente conhecidos. Desde então, não deixaram de ser publicizados, a começar pelo Tribunal de Nuremberg, e, década e meia depois, pelo julgamento de Eichmann. Ademais, também foram fartamente representados nas artes em geral, e no cinema em particular, tanto de forma documental (como no filme Shoa, de Claude Lanzman) quanto na ficção (A Escolha de Sofia, A Lista de Schindler etc.).

Nada comparável ocorreu em relação aos crimes, igualmente bárbaros, cometidos pelo comunismo, cujos perpetradores, ao contrário dos nazistas, saíram praticamente incólumes. Muitos deles, aliás, desfrutando do prestígio do antifascismo, seguiram carreiras bem-sucedidas na política, nas forças armadas e no serviço público. Diferentemente do que se passou com os registros da atividade nazista, os arquivos soviéticos só foram abertos em 1991, e ainda mal começaram a render frutos em termos de pesquisa e publicidade. Antes disso, as denúncias sobre os horrores cometidos por Stalin costumavam vir apenas dos relatos dos dissidentes do bloco socialista, e a maior parte deles tendia a ser desacreditada pela intelligentsia ocidental filossoviética (muita gente acreditou, por exemplo, na campanha de assassinato de reputação movida pelo governo soviético contra Alexander Soljenítsin, autor de Arquipélago Gulag, e invariavelmente retratado como demente, antissemita e bêbado). Como escreve Anne Applebaum: “Relatos em primeira mão sobre o gulag eram frequentemente repudiados ou depreciados pelas mesmíssimas pessoas que jamais teriam colocado em dúvida o testemunho do Holocausto escrito por Primo Levi ou Eli Wiesel. Desde a Revolução Russa, informações oficiais sobre os campos soviéticos também estavam acessíveis de imediato para qualquer interessado – o mais famoso relato soviético sobre um dos primeiros campos, o do Canal do Mar Branco, foi até publicado em inglês. A ignorância, por si só, não basta para explicar por que os intelectuais ocidentais preferiram evitar o assunto”.

Com efeito, não se tratava apenas de mera ignorância. Nos meios jornalísticos e acadêmicos do Ocidente, o totalitarismo soviético sempre contou com um poderoso exército dedicado a acobertar os seus crimes – nomes como H.G. Wells, Bernard Shaw, Walter Duranty, Theodore Reiser, Bertolt Brecht, Jean-Paul Sartre, Anatole France, Louis Aragon, Henri Barbusse, Romain Rolland, Sidney Webb e muitos outros. Como explica a historiadora Ludmilla Stern, autora de uma tese acadêmica sobre a relação de intelectuais ocidentais com a União Soviética: “Minha descoberta mais significativa é que o apoio de intelectuais ocidentais nem sempre foi espontâneo, e que a União Soviética de fato influenciou e manipulou intelectuais em benefício próprio. Pude, enfim, identificar os mecanismos mediante os quais esses intelectuais foram levados a aceitar e propagandear o mito soviético. Minha pesquisa nos arquivos de Moscou entre os anos de 1995 e 2004 levou-me a descobrir os métodos utilizados pela União Soviética para atrair vastas parcelas da intelligentsia do Ocidente e conduzir sua simpatia para ações que a favorecessem. E, por fim, mas não por último, descobri que a percepção comum de que a atividade desses intelectuais era idealista e desinteressada não passa de uma fábula”.

Já sabemos que os regimes comunista e nazifascista estiveram irmanados em sua visão escatológica (e genocida) da política. No caso comunista, é bom dizer, o genocídio como método de governo não brotou magicamente da cabeça de Stalin. Ainda que em menor escala, essa política já fora defendida e implementada por Lenin e Trotsky. E assim o foi porque a imperiosa necessidade do extermínio em massa inscreve-se na própria lógica marxista de um conflito essencial e irredutível entre “classes” inimigas, uma delas (a burguesia) tendo de perecer para que a utopia da sociedade sem classes possa ser alcançada. De fato, o genocídio é um corolário do projeto comunista desde sua fundação intelectual. Para comprová-lo, basta consultar os escritos de Marx e Engels.

No capítulo 14 de Revolução e Contrarrevolução na Alemanha, por exemplo, encontramos esta defesa da unidade alemã contra o nacionalismo eslavo, que os autores consideravam um obstáculo à revolução: “Acabaram, assim, por agora e, provavelmente, para sempre, as tentativas dos eslavos da Alemanha para recuperar uma existência nacional independente… Essas nacionalidades moribundas, os boêmios, os caríntios, os dálmatas, tentaram tirar partido da confusão universal de 1848, de modo a restaurar o seu status quo político do ano de 800… O destino natural e inevitável dessas nações moribundas era de permitir que se completasse esse progresso de dissolução e de absorção pelos seus vizinhos mais fortes. Não é, decerto, uma perspectiva muito lisonjeira para a ambição nacional dos sonhadores pan-eslavistas, que tinham conseguido agitar uma parte dos boêmios e dos eslavos do sul; mas podem eles esperar que a história retroceda mil anos a fim de agradar alguns grupos humanos tísicos que, em toda a parte do território ocupado, estão penetrados e rodeados de alemães; que, desde tempos quase imemoriais, não tiveram, para todos os efeitos de civilização, outra língua a não ser a alemã; e a quem faltam as mais elementares condições de existência nacional, o número e a solidez de um território?… Depois do seu primeiro esforço, que se evaporou em 1848, e depois da lição que o governo austríaco lhes deu, não é provável que seja feita nova tentativa. Mas, se tentarem de novo, com pretextos semelhantes, aliar-se à força contrarrevolucionária, o dever da Alemanha é claro. Nenhum país num estado de revolução e envolvido numa guerra externa pode tolerar uma Vendée no seu próprio seio” (Revolution and Counter-Revolution: Or, Germany in 1848, London & New York: Cornell University Library, 1848[1896], pp. 99-101).

Em “O Conflito Magiar”, artigo publicado em 1849 na revista Nova Gazeta Renana, editada por Marx, Engels tornava a criticar os nacionalistas eslavos: “Essas relíquias de nações impiedosamente mantidas sob botas no curso da história, como dizia Hegel, esse lixo étnico [Völkerabfälle, no original] sempre se transforma em porta-estandarte da contrarrevolução, e assim permanece até o seu completo extermínio [gänzlichen Vertilgung, no original] ou perda de seu caráter nacional, na medida em que a sua própria existência em geral é, por si mesma, um protesto contra uma grande revolução histórica” (In: Collected Works of Karl Marx and Friedrich Engels, 1848-49, vol. 8, New York: International Publishers, 1849[1977], p. 234).

Já no texto “Pan-Eslavismo Democrático”, os pais fundadores do comunismo afirmavam que “nada na história é conquistado sem violência e crueldade implacável”, e que, portanto, deveria haver “uma batalha inexorável de vida ou morte” contra os reacionários eslavos, “uma luta de aniquilação e terror cruel – em defesa não dos interesses da Alemanha, mas dos interesses da Revolução” (In: Collected Works of Karl Marx and Friedrich Engels, 1848-49, vol. 8, New York: International Publishers, 1849[1977], p. 378).

Resta dizer que comunismo e nacional-socialismo não se aproximam apenas ideologicamente, por sua concepção apocalíptica da história, mas também política e militarmente. Sabe-se hoje que, já bem antes da assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, Hitler e Stalin foram parceiros num projeto revolucionário comum que visava à destruição da velha Europa. A ascensão militar nazista só foi possível graças a uma colaboração com a URSS, a grande responsável pelo rápido fortalecimento das forças armadas hitleristas. Essa história está bem documentada no livro O Exército Vermelho e a Wehrmacht: como os soviéticos militarizaram a Alemanha, em 1922-33, e pavimentaram o caminho para o fascismo, dos historiadores russos Yuri Dyakov e Tatyana Bushuyeva, que confirma as intuições prévias de autores como Ernst Topitsch e Viktor Suvorov. Fruto de uma minuciosa pesquisa nos arquivos de Moscou, o livro mostra como, nos anos que antecederam a Segunda Guerra, o regime stalinista investiu no rearmamento secreto da Alemanha, cedendo parte do território soviético para que as tropas alemãs se reestruturassem, longe dos olhos de britânicos e franceses, e driblando as sanções impostas pelo Tratado de Versalhes.

Dizem os autores na introdução: “Até recentemente, temas ‘inconvenientes’ eram esmagados pela censura ideológica, e ainda hoje o caminho até eles é espinhoso. A ideologia oficial orientou seus seguidores a justificar suas próprias falhas por meio de outras pessoas. Observa-se o persistente fenômeno da substituição de mentiras ou meias verdades por outras. A verdade não deixa de ser revelada por ser difícil de encontrar, mas por não ser afirmada. Contudo, já é hora de contar às pessoas uma amarga verdade, qual seja a de que nada menos do que o fascismo em carne e osso assolou o nosso país, e que o totalitarismo que comandou o destino das pessoas na União Soviética e na Alemanha foi uma das razões para a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Sob muitos aspectos, o fascismo de Hitler foi estimulado por Stalin. Poucos historiadores sabem que o Wehrmacht alemão (Reichswehr) saiu das restrições de Versalhes para se restabelecer em nosso solo. Na União Soviética, sob condições ultrassecretas, medidas militares conjuntas foram tomadas, campos de pouso foram construídos, tanques e aviões, operados. A nata do Wehrmacht fascista foi treinada lá. Está tudo registrado em documentos. Eles chocam até mesmo profissionais, e, no entanto, constituem apenas uma parte de segredos longamente ocultados”.

Para concluir este longo último artigo da série, ofereço agora a minha posição pessoal no debate. Não creio ser propriamente errado opor comunismo e nazifascismo com base na dicotomia esquerda/direita. Trata-se apenas de uma classificação reducionista, com base num critério demasiado restrito. Esses regimes só podem ser descritos como diametralmente opostos de acordo com uma escala interna à tradição revolucionária moderna. A noção de que o nazifascismo é inequivocamente de direita, como vimos, surge dentro do marxismo. E, ainda que nem todo adepto dessa chave interpretativa seja marxista, é sobre uma escala de medida estabelecida pelos comunistas em seu embate político contra o fascismo que emite o seu juízo.

Concebida como contínua, essa escala situa a “extrema-esquerda” (o comunismo) num polo, e a “extrema-direita” (o fascismo) no outro. Há, sim, boas razões históricas para se considerar comunismo e fascismo como antagônicos. Mas tão somente segundo essa escala particular, no interior da qual quem quer que se distancie do comunismo estará, necessariamente, se aproximando do fascismo, e vice-versa. Numa tal perspectiva, considera-se suspeita toda posição tida por intermediária. Foi o que se passou, por exemplo, na Guerra Civil Espanhola, em que os comunistas da Frente Popular, com apoio soviético, dedicaram-se primeiro a erradicar os inimigos internos à esquerda, tratados como criptofascistas (anarquistas, sindicalistas, trotskystas etc.) para, só então, enfrentar os fascistas propriamente ditos.

Se, portanto, usamos a régua marxista para medir a realidade política, somos realmente levados a concluir que comunismo e nazifascismo ocupam, cada qual, uma das extremidades do espectro político. Não se trata necessariamente de uma conclusão falsa, mas de uma conclusão pobre. O problema é o seguinte: quem disse que só há uma régua disponível? Como sugere o historiador Eugen Weber: “A distinção entre fascismo e comunismo é relativa antes que absoluta, dinâmica antes que fundamental”. Tomemos, por exemplo, a régua da tradição conservadora britânica fundada por Edmund Burke no século 18. Antirrevolucionária em essência, forjada pelo aço do ceticismo político (sensu Michael Oakshott), sua escala é equidistante em relação às extremidades da primeira régua, e o plano em que se situa é outro. De acordo com essa segunda régua, afastar-se do comunismo não significa em absoluto aproximar-se do nazifascismo. Ao contrário do que se passa na medida anterior, aqui o afastamento não é unidimensional, e não se passa numa mesma linha ligando dois pontos extremos. Medindo a realidade com essa régua conservadora (de “direita”, portanto), não seria errado concluir que comunismo e nazifascismo estão, ambos, reunidos num mesmo patamar (digamos, de “esquerda”).

Para uma maior concretude histórica, basta pensar, por exemplo, numa figura como o conservador Winston Churchill (arqui-inimigo do nazifascismo e do comunismo, respectivamente). A distância político-ideológica de Churchill para Stalin e Hitler, tomados conjuntamente, sempre foi muito maior do que aquela existente entre estes dois expoentes do totalitarismo, que, aliás, odiavam o primeiro-ministro inglês na mesma medida em que se admiravam mutuamente. Se Churchill pode ser considerado um digno representante da direita (e creio que poucos discordariam disso), fica difícil compreender logicamente como um excesso de Churchill (logo, uma “extrema-direita”) resultaria em nazifascismo, pois isso seria equivalente a afirmar que o excesso de uma coisa pode resultar no seu contrário – como se o excesso de coragem pudesse resultar em covardia; o excesso de sal, em doçura; o excesso de Batman, em Coringa. Em suma, em debates sobre a classificação político-ideológica desse ou daquele regime, dessa ou daquela pessoa, é preciso saber de antemão qual escala de medida está sendo adotada. Porque, não raro, esses debates costumam revelar menos sobre a coisa medida e mais sobre quem a mede. Portanto, a tese de que o nazifascismo é de direita está longe de ser uma verdade absoluta. Sua popularidade apenas revela a persistente influência da interpretação marxista no senso comum das classes falantes, ainda que, academicamente, já tenha sido desacreditada há tempos.

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