A suprema chantagem

Rio de Janeiro - O ministro do STF, Marco Aurélio Mello fala durante o 15º Colóquio da Academia Brasileira do Trabalho na OAB/RJ. (Tomaz Silva/Agência Brasil)
Rio de Janeiro - O ministro do STF, Marco Aurélio Mello fala durante o 15º Colóquio da Academia Brasileira do Trabalho na OAB/RJ. (Tomaz Silva/Agência Brasil)

O Brasil começou o ano de 2018 duvidando que Lula pudesse ser preso por seus crimes. O ano termina com o país avisando que não aceita que Lula seja solto na mão grande. A liminar circense de Marco Aurélio Mello serviu para mostrar que, em 2018, os brasileiros começaram a se libertar da sua maior armadilha.

Eleito presidente, Lula era o cara. A partir do mensalão, virou aquele que não sabia. Indiciado na Lava Jato, virou a alma mais honesta. No que se tornou réu, passou a ser uma célula de cada brasileiro. Às vésperas de ser preso, virou uma ideia. No xadrez, virou um perseguido. Na verdade, Lula sempre foi – apenas e exclusivamente – uma chantagem.

Em janeiro de 2018, o senso comum duvidava da prisão de Lula – já condenado – por uma razão abstrata: o ex-presidente era uma entidade acima das leis. Talvez ninguém admitisse isso conscientemente, mas era nisso que o Brasil acreditava. E um ano antes, o Brasil não acreditava sequer que Lula um dia pudesse ser réu. E ainda achava que ele seria candidato a presidente e retomaria o Palácio do Planalto – como lembrava o Datafolha quase todo mês, apesar de toda a pornografia explícita da Lava Jato.

Quem entendeu que a imunidade invisível de Lula estava no terreno da mitologia foi Sergio Moro. Deve ter sido o primeiro caso na história em que uma santidade foi enfrentada com o Código Penal.

Moro atravessou impávido o longo deserto do embate contra uma lenda. Nada floresce, nada venta a favor, nada ecoa no embate contra uma lenda. Ninguém melhor que Sergio Moro entendeu por que Lula é uma chantagem: como agir se você ergue a espada da justiça e instantaneamente submerge num vale de lágrimas? Como enfrentar um réu que te chama de “meu querido” e joga o povo contra você?

Moro teve o insight matador: chantagem não funciona sem recibo.

O Brasil refém da lenda Lula se cansou de dizer amargurado que o petista estava dando um baile no juiz. Mas esse juiz, sem passar recibo a nenhuma das bravatas atiradas contra ele, entregou a carne amaciada para o TRF-4, que executou (e ampliou) a condenação em segunda instância.

Por que ainda assim foi tão difícil prender Lula? Por que ainda assim, depois de oito meses preso, um ministro do Supremo tem a desfaçatez de ordenar a soltura de mais de 150 mil criminosos para beneficiar o delinquente número 1?

Porque a chantagem, mesmo enfraquecida e encarcerada, permanece. Onde e por que ela permanece?

A chantagem permanece, por exemplo, na panfletagem Lula Livre, que reúne gente célebre e supostos expoentes da sociedade legitimando, a céu aberto e com sorriso nos lábios, um criminoso condenado que assaltou o povo.

Mas atenção: ninguém nessa vasta e patética claque está interessado em um fio de barba do Lula – nem em qualquer ideologia a ele associada. Parem de se preocupar com socialistas imaginários ou esquerdistas de festim. É tudo um truque de poder – ou, mais detalhadamente: um truque vagabundo de pequenos poderes. Que só pode funcionar (e funciona) num ambiente, igualmente, vagabundo.

Olhe em volta, prezado leitor.

Você certamente já notou uma patrulha ensandecida vendo pecado politicamente correto em tudo – com momentos inesquecíveis como aquele feminismo de porta de cadeia dizendo que o voto no poste do Lula era a salvação da mulher. A pergunta inevitável: onde estão esses progressistas de auditório quando duas jovens juízas, Carolina Lebbos e Gabriela Hardt, fazem história enfrentando o maior corrupto do país?

Acertou, seu danado. Estão em silêncio sepulcral, porque esse empoderamento não serve aos sócios do truque fajuto supracitado. Elementar, não? Esses parasitas são de uma lógica cristalina.

Lula é, portanto, o elemento mais visível de uma grande chantagem emocional, de um “nós contra eles” mesquinho, de uma guerra de mentira contra o fascismo imaginário – tudo para alimentar essa igreja fisiológica na política, no mercado, nas artes, na vida. Uma espécie de maçonaria picareta especializada em abuso de reputação. Gulosos fantasiados de heróis.

O mesmo ministro do STF que soltou José Dirceu revogou a liminar de Marco Aurélio. Preste atenção, Brasil: você vai ter que matar de vergonha muitas vezes essas togas esvoaçantes até se livra de vez da chantagem.

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