Nada mais livre do que o mal

Mel Gibson e Jim Caviezel, nos bastidores do filme
Mel Gibson e Jim Caviezel, nos bastidores do filme "A Paixão de Cristo"

Onde abundou o pecado, superabundou a Graça.
– Romanos 5:20

 

Dois homens entram numa escola e atiram contra crianças e funcionários. Matam-se em seguida. De acordo com as primeiras investigações policiais, tinham armas de fogo, arco-e-flecha e explosivos. Parecem ter escolhido o horário do recreio para matar mais gente e sofrer menos resistência. Imagens do massacre são veiculadas na Internet por abutres com crachá de jornalista.

Súbito, a discussão sobre posse e porte de armas reascende. Quem defende um controle ainda mais rígido denuncia o morticínio como efeito direto do livre acesso a armas; quem defende o direito à posse e ao porte dialetiza: se professores ou funcionários estivessem armados, teriam freado o ataque.

Alguns dizem que o terrível acontecimento é produto do clima político nada amistoso dos últimos anos – “Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem”. Outros argumentam que, muito pelo contrário, chacinas assim brotam como fungos do ambiente de impunidade e laxismo penal – “Quando os crimes não são castigados logo, o coração do homem se enche de planos para fazer o mal”.

Não tenho respostas e sou incapaz de raciocinar a partir dessas premissas.

O que sei é que, desgraçadamente, politizaram a morte. Não foram crianças, alunos, filhos, professores ou funcionários que morreram ali: foram símbolos políticos, peões num tabuleiro, números numa estatística, bandeiras duma ideologia, eleitores em ato ou em potência. A política, que no Brasil já não respeitava a vida e a privacidade, agora não respeita a morte e o luto.

Sejam quais forem os rumos da investigação, as medidas cabíveis, as teorias criminológicas, as especulações sociológicas, as justificativas econômicas, as motivações políticas para esse caso ou para casos semelhantes, o que há, por fim, é a irrupção do mal no coração humano.

“O homem está condenado à liberdade”, ponderou o ateísta Sartre. A ironia da sentença, no entanto, é cristã. O homem é livre e capaz do mal, do mal gratuito e arbitrário, do mal que não poupa crianças, bichos, velhos, mulheres, outros homens.

A vida é breve, a civilização é frágil.

Vigiai e orai.

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