Os judeus e o amigo da onça

Foto de Marcelo Andrade para Gazeta do Povo
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O novíssimo amigo de infância do estado de Israel, Jair Messias Bolsonaro, tem declarado coisas que desagradam os israelenses. É notável a disposição presidencial em fomentar e fermentar turbulências políticas miúdas, internas e externas, sem necessidade aparente. Apenas porque sim. Declarar é preciso, governar não é preciso.

Depois de garantir que o nazismo é de esquerda, ancorado em bibliografia heterodoxa que, garanto, ele desconhece com rigor, agora ele filosofa que, embora não possa nunca ser esquecido, o holocausto pode sim ser perdoado.

Como era de se esperar, sua fala não foi recebida com benevolência pela comunidade judaica. Bolsonaro então reagiu dizendo que a culpa é dos que não o compreendem e querem afastá-lo dos amigos. Ele declarou o que declarou, disse o que disse, mas a desculpa de que tudo é sempre dito dentro ou retirado de um certo contexto está cada vez mais manjada e não convence.

Tanto não convence que os maiores interessados – os amigos do estado de Israel – reprovaram com veemência o disparate. O presidente teve enfim de se retratar, como de costume, mas anotem o padrão: a culpa é sempre do receptor. Ele é padre Manoel da Nóbrega; nós somos índios.

À parte isso, o que dizer a propósito da tese em si mesma?

De acordo com a Bíblia cristã, o único pecado que não pode ser perdoado é aquele contra o Espírito Santo. Todos os outros, até segunda ordem, estão sob o alcance do perdão. Aqui, um primeiro probleminha: estamos falando da teologia do pecado no âmbito cristão, e não judeu. O que cristãos compreendem e aceitam como perdão pode não corresponder àquilo que os judeus compreendem e aceitam. Direito deles; teologia idem.

Talvez Bolsonaro tenha adotado sem muita reflexão alguns chavões próprios do neo-reacionarismo brasileiro – inspirado no americano –, como, por exemplo, os termos “liberal-conservador” e, para o caso, “judaico-cristão”. Ele aprendeu as palavrinhas novas e as repete como criança pequena, sem compreendê-las direito.

Ainda que a civilização ocidental seja herdeira, simplificações à parte, do judeu-cristianismo, isso não significa uma identificação entre a teologia judaica e a teologia cristã. Há diferenças intransponíveis. O fato de o judaísmo continuar a existir enquanto tal, sem ser absorvido pelo cristianismo, deveria servir de pista para aqueles que parecem assumir que, se é judaico, também é cristão.

O conceito mais profundo de perdão, que adotamos no cristianismo, não pode ser projetado sobre o judaísmo sem as devidas considerações. Noutras palavras: os judeus que não se converteram ao cristianismo têm sua própria medida com que perdoar.

Há mais.

Se nos ativermos ao núcleo do problema – pode o holocausto ser perdoado? –, não é difícil encontrar a resposta: não, não pode. O holocausto não pode ser perdoado porque não se trata de uma pessoa, de um pecador, mas de um acontecimento de pecado que se confunde com o mistério do mal. O holocausto não é este alemão ou aquele judeu, mas o inominável genocídio de milhões de pessoas.

A trapalhada me faz lembrar de Wittgenstein, para quem muitos dos problemas filosóficos são apenas uma colocação equivocada das proposições; má gramática ou lógica deficiente da linguagem, por assim dizer. Este parece ser um exemplo de equívoco na própria elaboração da sentença, mais que um dilema ético ou teológico em sentido estrito.

Ironicamente, é possível dizer que Hitler, o próprio, pode ser perdoado; o holocausto, sua cria, não. Quando se perdoa o holocausto, o que se perdoa: que um povo tenha beirado a extinção? Quem perdoa: todos os judeus? Quem é perdoado: todos os alemães?

Não faz sentido nenhum. Perdoar um evento histórico que terminou no morticínio de milhões, e foi praticado por milhares? Há uma indeterminação moral na substância do evento – não no que aconteceu, que é imoral, mas na possibilidade de se perdoar ou não cada um dos envolvidos. Quem são eles? Quem os perdoa? Quem se arrependeu?

Voltemos ao próprio Bolsonaro. Pergunto: que papel lhe cabe na história? Que protagonismo ou interesse ele tem para perdoar ou ensinar perdão? Ele é judeu? É alemão? Acaso é o fiador do perdão ou da ofensa alheia? Se meu vizinho ofende outro vizinho, posso eu – e mais: devo eu – conceder o meu perdão ao vizinho ofensor, em nome do vizinho ofendido?

O perdão – assim como a culpa – é intransferível, não é coletivo; é teologia moral e impulso que brota no coração de cada homem, não política pública ou estratégia geopolítica que salta da fala de cada político.

Se porventura Bolsonaro quiser mesmo estreitar relações com judeus, americanos, índios ou australianos, tem de aprender antes de qualquer outra coisa a virtude do silêncio. Como também ponderava Wittgenstein, “sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”.

Judeus agradecem. Brasileiros também.

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