Uma conversa com Luciano Ayan – parte 2

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Luciano Ayan é pseudônimo para Carlos Augusto Afonso, analista político e consultor de TI, especializado em métodos de guerra política. Escrevo no blog Ceticismo Político. Leia a primeira parte da entrevista.

 

4 A palavra é: “polarização”. Tanto se fala nisso que aos poucos quase não se sabe se isso de fato existe. Embora o marco zero desse estado de coisas pareça ser aquele mês de junho de 2013, ouso recuar um pouco mais e apontar o escândalo do Mensalão, quando o PT começa a ruir, como o turning point da história recente, em que certa radicalização das discussões políticas e em torno dos políticos – e a tendência à judicialização da política e a politização do jurídico – viria a desaguar, tempos depois, na eleição de Bolsonaro. Faz sentido esse diagnóstico, ou sua reflexão aponta outros vetores?

Para ser sincero, eu achava que a reclamação por excesso de polarização era frescura, mas eu estava errado. De fato, estamos em um ambiente mais polarizado, em que há menos disposição de ouvir o outro lado. Em especial, isso se deve à Internet. Quanto ao papel do mês de junho de 2013, ele foi importante, mas basicamente aquele próprio evento era uma consequência do clima de antipolítica visto em vários países do mundo. Por um lado, o clima de antipolítica é o que ajudou Bolsonaro a se eleger; por outro, é o que pode permitir arroubos autoritários de setores extremistas, como já estamos vendo. Lavajatistas também possuem tendências autoritárias – embora tirem o monstro da jaula somente de vez em quando, ao passo que os olavistas vivem querendo tocar fogo no circo –, o que pode fazer a panela de pressão explodir.

Mas também há espaço para um clima de cansaço quanto a essa tensão constante, o que pode resultar numa ação centrista. O jogo está bem aberto nesse momento.

 

5 A oposição parece quieta, anestesiada, diante de um governo que é, a um só tempo, situação e oposição. É possível já antecipar lances (e alguns possíveis protagonistas) de 2022?

Até o momento, a oposição está perdida pois não sabe se posicionar diante desse clima de baixaria na base do governo. Por exemplo, vemos setores extremistas da direita agindo para aniquilar outros direitistas de um jeito que qualquer petista deve pensar: “Bem, nesse nível eu não vou chegar”. Dentro da direita, o jogo já está escatológico e tende a piorar.

Talvez o extremismo de uma parte da direita esteja tornando a oposição de esquerda “inútil”. Mas há um detalhe: aos poucos, a esquerda pode descobrir os macetes e mudar toda a situação.

Eu acho que ainda é bastante cedo para falar em 2022, pois muita coisa deve mudar. Há várias cartas na mesa, incluindo a implantação de um sistema autocrático – e também a possibilidade de que a democracia se mantenha firme. Para candidatos em 2022, acho cedo demais para comentar.

 

6 Direita e esquerda: são termos ou conceitos suficientes para analisar a política ou já não respondem às demandas teóricas e morais desses nossos tempos “líquidos”?…

A meu ver são suficientes, embora muitas vezes as coisas se confundam. Por exemplo, um governo de esquerda com foco nas pautas identitárias pode ter mais liberdade econômica que um governo de direita “iliberal”. Esse é só um dos exemplos.

O que vejo não é que direita e esquerda sejam conceitos insuficientes. Eles nos bastam. A diferença é que existem várias configurações nesse “lego”, por cada um dos lados. Para a direita, temos opções como liberalismo, conservadorismo, neoliberalismo, neoconservadorismo, reacionarismo, populismo, neofascismo e daí vai. Para a esquerda, temos marxismo, social democracia, terceira via, globalismo, trabalhismo, esquerdismo identitário etc. Com tantas misturas assim, pode haver muita confusão, mas a combinação dessas opções – às vezes, até existindo alguma “pulada de cerca” – no fundo tem elementos originados da esquerda ou da direita.

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