Farinha é pouca, corporações primeiro

Foto: Nelson Jr./SCO/STF
Foto: Nelson Jr./SCO/STF

“Pois é, tenho esse ‘estranho’ hábito. Sempre que penso ter direito a algo eu vou à Justiça e peço. Talvez devesse ficar chorando num canto, ou pegar escondido ou à força. Mas, como tenho medo de merecer algum castigo, peço na Justiça o meu direito”, afirmou o juiz Marcelo Bretas em janeiro.

“Existe esse benefício, que é questionável, e existe a previsão constitucional de que os subsídios do magistrado deveriam ser reajustados anualmente, o que não ocorre há três anos”, declarou o futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro, poucos meses depois.

“Agora poderemos enfrentar o problema do auxílio moradia”, afirmou na última quarta-feira o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli.

Assim como as tentativas de Bretas e Moro de defenderem o mau uso do auxílio-moradia, o reajuste concedido ontem pelo Congresso no salário dos ministros não pode ser caracterizado de outra forma: é indecente.

Idem para a postura de Dias Toffoli quando escancara a costura junto aos congressistas para fazer valer uma canetada capaz de pesar R$ 4 bilhões nas contas públicas, justamente em troca da revisão da ajuda de custo a magistrados nos casos em que não houver residência oficial disponível.

Ainda que essa questão seja de fato revista, Toffoli, Bretas, Moro e todo o poder Judiciário estão gratos. Não se pode deixar de mencionar, é claro, e talvez especialmente, o ministro Luís Fux, autor da liminar que em 2014 permitiu a toda a magistratura nacional contar com o benefício.

Seja como for, o recado do sistema ao governo recém-eleito já foi passado: não será com bravatas comuns em palanques ou temperamentos bravios que as corporações serão dobradas. Tampouco se a esses dois comportamentos se juntarem a ignorância e a arrogância típicas de quem não tem experiência na máquina pública, como é o caso de Paulo Guedes, que ontem chegou ao cúmulo de desmerecer a votação do orçamento para 2019 por desconhecer o trâmite da Casa.

Ironia das ironias, talvez seja proveitoso o fato de o futuro presidente ter passado os últimos 30 anos lutando pela manutenção dos direitos e o aumento de vantagens de grupos específicos (no caso, os militares). Afinal, nada pode ser mais proveitoso nesse momento do que a fluência no modus operandi daqueles pouco interessados nas urgências da sociedade.

Assim como nas administrações anteriores, não devem faltar narrativas tratando de justificar as dificuldades enfrentadas pelo próximo governo. Entretanto, se Jair Bolsonaro, Paulo Guedes e seus aliados forem realmente diferentes, como prometeram que seriam quando pediam votos, não devem se utilizar desse recurso.

No fim das contas, o jogo jogado em Brasília é antigo. Assim como são conhecidos os grupos de interesses tão bem organizados a ponto de atravancar o país.

É melhor já ir se acostumando.

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