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Em um momento em que organizações disputam talentos e buscam eficiência em estruturas cada vez mais complexas, o consultor Raul Zanon da Rocha Netto tem defendido uma tese que soa quase subversiva para o universo de Recursos Humanos: descomplicar é mais estratégico do que criar modelos sofisticados. A ideia, amadurecida ao longo de anos de consultoria, ganhou forma no livro “Remuneração Descomplicada”, escrito em parceria com Augusto Rompkowski e recém-lançado em Curitiba.
A obra se apoia em um diagnóstico que Zanon repete com naturalidade e certa provocação: processos de gestão e remuneração tornaram-se desnecessariamente difíceis, distantes do cotidiano real e, muitas vezes, incapazes de orientar decisões. “O RH foi acumulando camadas e mais camadas de métodos complexos. Só que isso não necessariamente entrega clareza. Nosso trabalho foi desmontar esse excesso”, explica o consultor.
Fio da meada
Um dos exemplos mais emblemáticos levantados por Zanon é o perfil de cargo, documento que deveria ser a base para auditorias, avaliações e trilhas de carreira. Segundo ele, nas empresas brasileiras, esse material raramente reflete o que acontece de fato. “É estratégico, mas quase sempre está desconectado. Quando o atualizamos com base no processo real, tudo entra no eixo: responsabilidades, rotinas, prioridades e até custos.”
O método proposto no livro parte de um princípio simples: facilita muito ajustar remuneração se as responsabilidades estiverem claras. A partir de diagnósticos conduzidos com a matriz de responsabilidades, Zanon relata encontrar rotinas ocultas, funções difusas e tarefas que geram desperdício, elementos que precisam ser organizados antes de qualquer revisão salarial.
O consultor afirma que, em apenas três dias de workshop, em média, é possível redesenhar estruturas, eliminar redundâncias e devolver precisão às práticas de gestão. “A metodologia possibilita enxergar distorções, como promover alguém sem que seu processo mude. Isso cria um problema no futuro e desorganiza a empresa inteira”.

Não simplista
A proposta, entretanto, não ignora a complexidade do sistema legislativo brasileiro. Zanon reconhece que a legislação impõe limites, mas defende que simplificar é possível desde que cada plano esteja alinhado ao contexto da organização.
Algumas empresas absorvem o método com naturalidade; outras exigem um processo mais cuidadoso. A remuneração descomplicada é um conceito a ser explorado. Não existe fórmula universal. Existe caminho praticável.
Entre os equívocos mais comuns, ele cita dois: a crença de que remuneração precisa ser complexa para ser justa e a prática de ignorar as próprias regras estabelecidas. Zanon compara as exceções recorrentes a um trânsito sem ordem. Algumas brechas são aceitáveis, mas quando cada caso vira exceção, a equidade desaparece.
Um dos pilares defendidos por Zanon é a transparência dos processos, especialmente em documentos como perfis de cargo, trilhas de carreira e políticas de gestão. A única informação que fica restrita ao RH é a tabela salarial. Para ele, o problema nunca é o sigilo, mas a maturidade da organização para lidar com a informação.
Perfis de cargo dinâmicos, atualizados com frequência, ajudam a alinhar expectativas e fortalecem o desenvolvimento profissional. “É essa clareza que permite que as pessoas saibam onde estão e para onde podem ir”.
Peso do emocional
Ao analisar tendências de atração e retenção, Zanon mantém pragmatismo: a remuneração fixa continua sendo o pilar essencial, mas o variável ganha força, desde que compreensível e transparente. Benefícios também subiram de patamar, especialmente diante da convivência de múltiplas gerações no mesmo ambiente.
Segundo Zanon, entre todos os debates atuais sobre gestão de pessoas, o tema home office permanece como um dos mais polarizados. Ainda assim, as pesquisas mostram um movimento consistente: profissionais de diferentes áreas valorizam cada vez mais modelos flexíveis, e a oferta de autonomia, seja híbrida ou remota, passou a influenciar diretamente tanto a permanência quanto a atratividade das empresas. “A flexibilidade, hoje, já é percebida como um componente central da experiência de trabalho, e não apenas como um benefício adicional”, pontua.
Portanto, acrescenta Zanon, manter a liderança atualizada tornou-se essencial. Ele destaca que os líderes precisam estar preparados para lidar com as novas demandas emocionais dos seus times, desde a sensação de isolamento e esgotamento até a busca por significado e equilíbrio. Complementa que esses fatores não afetam apenas o clima e as relações, mas também a forma como o colaborador enxerga a própria remuneração: quando há insegurança emocional, falta de reconhecimento ou dificuldade na relação com a liderança, o salário perde parte de seu poder de retenção e valorização. “Em outras palavras, a qualidade da gestão passou a influenciar diretamente a percepção de justiça, valor e satisfação com o pacote remuneratório”, observa.
O livro possui recursos gráficos e personagens, Jonas e Clara, que ajudam a ilustrar dilemas reais das empresas, aproximando teoria e prática. A narrativa dialoga com referências de obras técnicas que usam storytelling para facilitar a adoção de metodologias.
A abordagem de Zanon chega em um momento em que organizações revisitam seus modelos de gestão, pressionadas por transformações tecnológicas, exigências de competitividade e novas expectativas dos profissionais. De acordo com ele, “descomplicar não é reduzir a importância das coisas. É torná-las possíveis”.
