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Registro de Imóveis sem mitos: para onde vai o dinheiro dos emolumentos?

Entenda como os emolumentos são definidos por lei, repartidos entre fundos públicos e usados para garantir segurança jurídica e serviços gratuitos

O valor pago no Registro de Imóveis vai além do cartório: sustenta serviços públicos, atos gratuitos e a segurança jurídica da propriedade no Brasil.
O valor pago no Registro de Imóveis vai além do cartório: sustenta serviços públicos, atos gratuitos e a segurança jurídica da propriedade no Brasil. (Foto: Divulgação/Arisp)

ARISP | RIB-SP

19/01/2026 às 17:58

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Quando se fala nos valores cobrados pelos Registros de Imóveis, os chamados emolumentos, surge uma pergunta muito comum, de forma quase inevitável: afinal, para onde vai o dinheiro pago nos Registros de Imóveis?

A resposta surpreende muitos cidadãos. Ao contrário do que se imagina, grande parte dos valores arrecadados não permanece com o registrador. A legislação determina uma repartição obrigatória, com repasses automáticos para diferentes fundos públicos e políticas sociais.

Para onde vai o dinheiro pago

Segundo Moacyr Petrocelli, diretor de comunicação da Associação dos Registradores Imobiliários de São Paulo – Arisp, a arrecadação dos emolumentos é amplamente distribuída.

“A arrecadação não é integralmente destinada ao oficial do cartório. Uma parcela significativa é repassada a fundos do Poder Judiciário, ao custeio da gratuidade registral e a políticas públicas definidas em lei”, explica.

Esses recursos ajudam a financiar, entre outros destinos:

  • o reaparelhamento do Poder Judiciário;
  • o Ministério Público e a Defensoria Pública;
  • fundos que sustentam atos gratuitos, como registros de nascimento e óbito.

Na prática, isso significa que o valor pago pelo usuário contribui diretamente para o funcionamento de instituições públicas essenciais e para a oferta de serviços gratuitos à população.

Um modelo solidário e equilibrado

De acordo com Petrocelli, o sistema brasileiro foi concebido para conciliar sustentabilidade econômica e acesso universal.

“Trata-se de um mecanismo de justiça distributiva. Quem pode pagar contribui para viabilizar o acesso gratuito a quem não pode, sem custo direto para o orçamento público”, afirma.

A competência estadual para fixar os valores também permite levar em conta as desigualdades regionais do país, adequando a estrutura do serviço às realidades locais.

Moacyr Petrocelli, diretor de Comunicação da Arisp, explica como os emolumentos dos Registros de Imóveis são definidos por lei, repartidos entre fundos públicos e utilizados para garantir segurança jurídica, serviços gratuitos e a modernização do sistema registral brasileiro.Moacyr Petrocelli, diretor de Comunicação da Arisp, explica como os emolumentos dos Registros de Imóveis são definidos por lei, repartidos entre fundos públicos e utilizados para garantir segurança jurídica, serviços gratuitos e a modernização do sistema registral brasileiro. (Foto: Divulgação/Arisp)

O exemplo de São Paulo

Para ilustrar o funcionamento do sistema, o diretor da Arisp cita o modelo paulista.

“No Estado de São Paulo, aproximadamente 62,5% do valor pago permanece com o titular da delegação. A parcela restante é obrigatoriamente distribuída entre o Estado, o Município, o Tribunal de Justiça, o Ministério Público, a Carteira de Previdência e o Fundo de Ressarcimento de Atos Gratuitos”, detalha.

Segundo ele, um dos equívocos mais comuns é imaginar que a totalidade do valor pago vai para o registrador.

“Na realidade, os emolumentos financiam uma estrutura pública ampla, solidária e rigorosamente regulada.”

Tecnologia, proteção de dados e serviços digitais

Os recursos que permanecem com as serventias são utilizados para manter uma estrutura complexa e altamente especializada. Os Registros de Imóveis lidam diariamente com dados patrimoniais, pessoais e familiares, o que exige investimentos constantes em tecnologia e segurança da informação.

“Os investimentos em tecnologia, adequação à Lei Geral de Proteção de Dados e cibersegurança são indispensáveis. Eles reduzem fraudes, aumentam a rastreabilidade dos atos e garantem a confidencialidade das informações”, afirma Petrocelli.

Atualmente, os serviços registrais são amplamente digitalizados. Certidões, consultas e protocolos eletrônicos estão disponíveis de forma remota, ampliando o acesso e a transparência do sistema.

Um sistema reconhecido internacionalmente

Não é incomum ouvir que “cartório só existe no Brasil”. Trata-se, contudo, de um equívoco. Sistemas de registro de propriedade existem em praticamente todos os países do mundo. O que varia é o grau de organização, segurança jurídica e confiabilidade oferecidos.

Segundo Petrocelli, “no cenário internacional, o sistema brasileiro de Registro de Imóveis é hoje amplamente reconhecido como um dos mais eficientes e seguros do mundo”.

Estudos comparativos indicam que, quando confrontado com o modelo norte-americano, por exemplo, o sistema brasileiro revela-se estruturalmente mais eficiente, ao proporcionar maior segurança jurídica, previsibilidade nas transações e redução do custo global suportado pelo usuário final.

“Nos Estados Unidos, além dos custos ordinários da transmissão da propriedade, é indispensável contratar seguros imobiliários e assessoria jurídica privada de alto valor, justamente para compensar a menor confiabilidade dos registros”, explica.

Em tese de doutorado, a registradora Bianca Castellar de Faria, titular do 1º Registro de Imóveis de Joinville (SC), demonstra que o sistema brasileiro oferece maior eficiência e menor custo ao usuário final quando comparado ao modelo norte-americano.

Ref.: Bianca Castellar de Faria. Registro de Imóveis: Brasil x Estados Unidos - comparativo sobre segurança, eficiência e custo. Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2023. p.193.Ref.: Bianca Castellar de Faria. Registro de Imóveis: Brasil x Estados Unidos - comparativo sobre segurança, eficiência e custo. Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2023. p.193.

No quadro comparativo acima, por exemplo, a pesquisadora constatou que o tempo de procedimentos e seus respectivos prazos relacionados a uma transação de compra e venda de imóvel nos EUA é quase três vezes o do Brasil. Esse dado é importante para medir a eficiência dos sistemas.

Ref.: Bianca Castellar de Faria. Registro de Imóveis: Brasil x Estados Unidos - comparativo sobre segurança, eficiência e custo. Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2023. p.200.Ref.: Bianca Castellar de Faria. Registro de Imóveis: Brasil x Estados Unidos - comparativo sobre segurança, eficiência e custo. Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2023. p.200.

Em outra comparação, Bianca Castellar de Faria verificou que os custos de procedimentos relacionados a uma transação de compra e venda de imóvel nos EUA, no valor de US$ 50 mil (cerca de R$ 266 mil, pelo câmbio oficial), é mais que o dobro do Brasil.

Um ativo institucional para o país

Assim, longe de representar uma “jabuticaba” ou uma anomalia institucional, o Registro de Imóveis brasileiro constitui um ativo institucional relevante. Ele contribui para a redução de litígios, para a proteção do patrimônio das famílias e para o fortalecimento do ambiente econômico.

Os emolumentos, nesse contexto, financiam não apenas atos formais, mas um sistema público moderno, confiável e socialmente equilibrado — essencial para a estabilidade das relações patrimoniais e para o desenvolvimento do país.

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