Com o planejamento e os móveis adequados, um banheiro, por exemplo, pode ser também espaço para a prática de exercícios físicos.
Com o planejamento e os móveis adequados, um banheiro, por exemplo, pode ser também espaço para a prática de exercícios físicos.| Foto: Scavolini/Divulgação
  • Por Interprint
  • 17/06/2021 14:53

Se mesmo com a pandemia você ainda acredita que cada cômodo da casa tem uma função específica, talvez seja hora de rever alguns conceitos. De acordo com quem trabalha com arquitetura e design, a necessidade de trazer diversas atividades para dentro de nossos lares acelerou uma mudança no modo de viver que deve tornar os ambientes cada vez mais flexíveis para serem facilmente adaptados a diferentes usos.

“Digamos que a casa era um espaço que servia praticamente para dormir e comer, porque fazíamos todas as outras atividades fora. Ao ficarmos confinados em casa, começamos a ver que os ambientes eram totalmente rígidos. Foi aí que percebemos essa necessidade de criar espaços mais flexíveis, dependendo das pessoas que vivem nele e das atividades delas”, explica a designer da Interprint Isabel Cristina Restrepo.

A ideia não é totalmente nova. Na Europa, por exemplo, há marcas que, há anos, trabalham com móveis que se transformam para permitir que um único ambiente se desdobre em vários. “Eles têm isso como experiência, talvez porque trabalham há mais tempo com espaços reduzidos. E nós não tínhamos nos deparado com isso, porque temos a oportunidade de ter espaços mais amplos, exceto nos grandes centros”, avalia a designer Marta Manente.

A marca italiana Scavolini é uma das que já trabalha com móveis multifuncionais para permitir, por exemplo, que um único espaço abrigue quarto e living.
A marca italiana Scavolini é uma das que já trabalha com móveis multifuncionais para permitir, por exemplo, que um único espaço abrigue quarto e living.| Crédito: Scavolini/Divulgação

Aliás, foi nestes grandes centros, onde os prédios com microapartamentos se tornaram tendência nos últimos anos, que os móveis multifuncionais começaram a aparecer no Brasil, mostrando que era possível ter quarto, sala e cozinha em ambientes com área inferior a 30 metros quadrados.

Mas, na pandemia, a demanda por multifuncionalidade também foi identificada em residências maiores, que precisaram ser adaptadas.

Divisórias, novas linguagens e novos usos

Uma das adaptações mais vista neste período foi a instalação de divisórias para setorizar melhor ambientes integrados ou então permitir que eles se abram ou se fechem de acordo com as necessidades dos moradores. Conforme as designers, as divisórias apareceram em forma de paredes corrediças e portas dobráveis, mas também podem ser feitas com mobiliário. Neste caso, estantes e armários, fixos ou não, ainda cumprem a função de armazenamento e/ou decoração.

Ao mesmo tempo, aqueles que tinham acesso a terraços e varandas investiram em integrar esses espaços ao interior da casa, transformando-os em um “segundo living” - embora eles também sejam usados para alimentação e exercícios físicos, por exemplo. “Há um limite que está se apagando entre o indoor e o outdoor. Então, há marcas muito representativas europeias que estão desenhando mobiliário para o exterior com a linguagem dos espaços interiores. São sofás, poltronas e outros móveis extremamente confortáveis, com tecnologias contra intempéries, mas suas formas, seus conceitos são de móveis de interiores”, conta Isabel.

Para integrar terraços e varandas aos ambientes internos, os móveis começaram a ficar com “cara” de living
Para integrar terraços e varandas aos ambientes internos, os móveis começaram a ficar com “cara” de living| Crédito: Bigstock

A pandemia também fez com que móveis que antes eram utilizados em um cômodo ou de uma forma específica ganhassem novos usos. “Aquele carrinho de chá ou bar, por exemplo. Muitas pessoas começaram a usar essa peça no hall de entrada, porque, dependendo do modelo, você consegue colocar as chaves, todos os seus objetos e ainda tem espaço para colocar o sapato”, conta Marta.

Conforme ela, as novas aplicações dependem da criatividade dos moradores e também dos designers e arquitetos envolvidos na criação dos móveis e planejamento do ambiente. Outro exemplo da linha de móveis desenhada por Marta é um balanço em couro, que foi criado como objeto decorativo e acabou se tornando uma peça que traz ludicidade e bem-estar aos ambientes.

“O balanço traz memória afetiva da infância, né? Ao mesmo tempo, é uma peça superelegante que combina com diversos tipos de ambiente e que quebra a monotonia, a seriedade dos espaços”, comenta a designer. Um dos usos que, de acordo com Marta, se tornou comum foi como substituto de banquetas em cozinhas. Contudo, a peça foi incorporada desde residência a ambientes comerciais e corporativos, permitindo que os frequentadores vivenciem o espaço de uma forma diferente.

Criado como uma peça decorativa, o balanço em couro batizado Revoar vem contribuindo para tornar ambientes mais lúdicos e proporcionar bem-estar aos moradores.
Criado como uma peça decorativa, o balanço em couro batizado Revoar vem contribuindo para tornar ambientes mais lúdicos e proporcionar bem-estar aos moradores.| Crédito: Marta Manente/Divulgação

Futuro

Mesmo com o fim da pandemia e a retomada de atividades fora de casa, as designers acreditam que a ideia dos ambientes flexíveis deve se consolidar, o que vai demandar uma adaptação da própria indústria. “Há uma mensagem muito clara para os arquitetos e designers que é a de que deve haver foco em móveis multifuncionais, móveis de diferentes usos e, sobretudo, móveis que permitam que o espaço se transforme”, diz Isabel.

De acordo com as profissionais, já vemos algumas peças de mobiliário com esse tipo de característica, principalmente dentro da categoria dos móveis “soltos”, como uma poltrona que se transforma em banco, pufe ou mesa. Mas a expectativa é que móveis como esses se tornem mais comuns, assim como aqueles com rodas para facilitar o deslocamento, os com recursos tecnológicos para conectividade e os robóticos.

“É uma mudança que vai criar móveis robóticos, que, a partir de um botão, possam se mover, se dobrar, se guardar ou se adaptar. Haverá um maior desenvolvimento tecnológico para ferragens, materiais e acabamentos”, prevê Isabel.