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Para reduzir o contato entre as pessoas e frear disseminação do coronavírus, trabalho e escola foram para dentro de casa e demandaram uma reorganização da rotina das famílias em casa.
Para reduzir o contato entre as pessoas e frear disseminação do coronavírus, trabalho e escola foram para dentro de casa e demandaram uma reorganização da rotina das famílias em casa.| Foto: Bigstock
  • Por Interprint
  • 29/03/2021 00:00

Foi no improviso que muitas pessoas criaram um espaço para estudar e/ou trabalhar logo que a pandemia chegou e exigiu medidas como distanciamento e isolamento social para evitar a disseminação da Covid-19. Porém, a manutenção de atividades remotas em uma série de áreas - e a tendência de que o trabalho remoto se mantenha mesmo após o fim da crise sanitária -, fez com que os escritórios se tornassem peça-chave dentro das residências.

“Com o passar do tempo, as pessoas entenderam que não basta ligar o computador e trabalhar para ser produtivo em casa. Elas começaram a ver que precisam de um espaço adequado para guardar papéis e cabos, que sentar na cadeira de jantar não é bom, que a acústica é fundamental para trabalhar sem tanta interferência, que a iluminação ajuda muito na produtividade e na concentração. Com isso, arquitetos e designers vem sendo cada vez mais demandados a incorporar esses espaços de estudo e trabalho dentro das casas”, explica a designer de produtos da Interprint Carolina Vitola.

Idealmente, essa incorporação se dá pela transformação de um cômodo em escritório. Para situações em que isso não é possível, os profissionais da área criaram adaptações, como o cloffice. “O ‘cloffice’ une o closet com o trabalho. Então, dentro de um guarda-roupa, de um armário, você tem uma porta com uma bancada. Quando acabar o expediente ou a aula online, você fecha a porta e incorpora de novo esse mobiliário ao quarto, por exemplo”, explica Carolina.

Ao ser fechado, no fim do expediente, o cloffice também ajuda a separar o horário de trabalho do de lazer. Os projetos são do escritório britânico 2LG Studio (@2lgstudio) e do australiano Tecture (tecture_), respectivamente
Ao ser fechado, no fim do expediente, o cloffice também ajuda a separar o horário de trabalho do de lazer. Os projetos são do escritório britânico 2LG Studio (@2lgstudio) e do australiano Tecture (tecture_), respectivamente| Reprodução/Instagram

O mobiliário que abriga esse tipo de escritório pode ficar no quarto ou em um living, por exemplo, e costuma se utilizar da mistura de materiais, padrões ou cores para conseguir criar um ambiente diferente dentro de outro. “Os móveis continuam seguindo a estética da melamina de madeirados, mas para criar essa harmonia num ambiente que não é mais só um quarto, por exemplo, cai muito bem uma mistura de pedra e madeira, com materiais que representam com naturalidade a matéria-prima original e seguem a mesma gama de cores”, diz a designer.

Outra alternativa que começou a ser utilizada foi a reintrodução de divisórias, criando o que a arquiteta Marne Barbieri chama de “espaços flexíveis”. “Quando você estuda ou faz reuniões, precisa estar num lugar mais privativo, mesmo dentro de um apartamento com a família toda. Então, aqueles espaços que eram abertos, integrados, transformamos em espaços flexíveis, com portas deslizantes ou painéis que isolam e separam um pouquinho os ambientes quando necessário”, explica.

De acordo com a arquiteta, neste caso, é comum o uso de materiais melamínicos em paredes móveis ou em portas deslizantes ou dobráveis, principalmente em padrões madeirados, pela facilidade de compor esse novo elemento com a decoração já existente. Carolina cita também as paredes e portas feitas em vidros acústicos, que separam os ambientes sem prejudicar a passagem de luz ou reduzir o contato visual com o restante da casa, e painéis ripados com movimento, assemelhando-se a brises, que podem ser abertos ou fechados, dependendo da necessidade.

Portas de correr em vidro ou madeira, painéis dobráveis e outras divisórias tornam ambientes flexíveis, permitindo tanto a integração quanto o isolamento
Portas de correr em vidro ou madeira, painéis dobráveis e outras divisórias tornam ambientes flexíveis, permitindo tanto a integração quanto o isolamento| Max Vakhtbovych/Pexels

No caso dos painéis ripados, eles podem ser usados para setorizar ambientes sem, de fato, separá-los, ocupando o espaço de meia parede ou até menos, por exemplo. Conforme a designer, este tipo de divisória que não isola totalmente os ambientes também vem sendo reintroduzido, pois permite algum tipo de separação de espaços previamente integrados - que podem, então, ser usados simultaneamente por diferentes membros da família, em diferentes atividades, com menor interferência -, sem impedir a passagem de luz e servindo para armazenar objetos e decorar a casa.

Espaços de lazer

A pandemia de Covid-19 não trouxe apenas o trabalho para dentro de casa, mas também atividades esportivas, hobbies e práticas para o lazer. Conforme as profissionais, isso fez com que se criasse uma demanda por ambientes e mobiliário que possibilitassem, por exemplo, a prática de exercícios físicos e alongamentos dentro de casa, assim como que comportassem os materiais e resultados usados em atividades criativas, como pintura, bordado e patchworking.

Além disso, com o aumento do tempo passado em casa, as sacadas e varandas voltaram a ser muito valorizadas, ganhando móveis e decoração para se tornarem mais aconchegantes e serem melhor utilizadas. “As varandas estavam esquecidas e acabaram se tornando uma ampliação do espaço da casa, como um espaço de lazer, onde você pode fazer uma leitura ou manter uma mini-horta. Também estamos aprendendo a valorizar mais a natureza, voltando às origens e aos hábitos simples - e a varanda nos ajuda muito nisso, porque é uma entrada grande de luz natural”, explica Marne.

Em tempos de confinamento, quem tinha sacada ou varanda foi rei – e aproveitou para investir nesse ambiente, tornando-o mais aconchegante
Em tempos de confinamento, quem tinha sacada ou varanda foi rei – e aproveitou para investir nesse ambiente, tornando-o mais aconchegante| Bigstock

Hall de entrada

Outro espaço que ganhou relevância neste processo foi o hall de entrada, que além de servir como ambiente intermediário entre o exterior e o interior, tornou-se um espaço de higienização. “O hall está tendo muita atenção, o que deve se manter, porque é o local onde você pendura casacos, roupas e bolsas, deixa as chaves, faz a troca de calçados”, explica Marne.

Com isso, ele vem sendo pensado para acomodar esses objetos e dar conforto às pessoas nesse momento de “fazer a transição” entre o lado de fora e o de dentro da casa. Nesse sentido, são utilizados bancos ou similares, mesas e ganchos. Quando possível, o hall vem acompanhado de um lavabo, para que quem entra na residência possa higienizar as mãos ao chegar da rua, e é decorado com plantas. “Estamos trazendo mais verde, mais natureza para o hall, porque elas dão uma sensação de frescor, de purificação e leveza”, conta a arquiteta.

Arquitetura e saúde

Embora nem todas as epidemias e doenças tenham impactado a arquitetura e o design como estamos vendo acontecer no caso da Covid-19, transformações em decorrência de questões sanitárias fazem parte da história dessas áreas. A tuberculose, por exemplo, que fez muitas vítimas e assombrou a população entre a segunda metade do século XIX e a primeira do século XX, quando ainda não havia remédio para a doença, fez com que princípios como insolação, ventilação e até a assepsia se tornassem importantes - e fossem incorporados à arquitetura moderna.