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Religião e música

De Nick Cave a Rosalía: o custo de professar a fé em uma cultura hostil ao sagrado

Nick Cave: a dor e o luto convertidos em fé e música.
Nick Cave: a dor e o luto convertidos em fé e música. (Foto: EFE/EPA/TOLGA AKMEN)

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Uma característica central na modernidade é o cultivo da ilusão da libertação do transcendente, quando não seu banimento. Todos fomos condicionados a um ceticismo espiritual, no qual a fé, especialmente a cristã, é tratada como superstição ingênua, adorno de personalidade ou estratégia comercial de nicho.

Com o cansaço existencial que isso gerou, volta e meia reemerge um anseio difuso e tateante, porém profundo, pelo mistério divino traduzido a princípio como uma busca por sentido na vida que desemboca numa redescoberta religiosa, ainda que conflituosa. No mundo das artes, particularmente na música, isso se revela de forma mais emblemática.

É o caso de Nick Cave, que costuma transformar o próprio abismo interior em sacramento sonoro, sem a certeza de um convertido, mas com a fome de um. Calejado por tragédias familiares indizíveis, converteu o luto em oração visceral em vários de seus discos, em seu blog na internet, em entrevistas e livros. Seu último disco, Wild God (2024), é revelador. O próprio título já diz quase tudo sobre essa busca por uma resposta de Deus que ganha contornos selvagens.

Outro exemplo é o do controverso Kanye West, hoje Ye, que arremessou todo o seu prestígio secular na fogueira ao romper publicamente com a cartilha da indústria musical. Com o álbum Jesus Is King (2019) e a fundação do coletivo Sunday Service, causou um terremoto na própria carreira: baniu letras explícitas do repertório, impôs jejum criativo aos colaboradores e transformou corais afro-americanos itinerantes em espetáculos monumentais a céu aberto.

Contudo, o custo foi alto. Ao subordinar contratos bilionários com conglomerados de moda, marcas esportivas e circuitos tradicionais de turnês a uma agenda intransigente de devoção pública e iconoclastia bíblica, Ye absorveu voluntariamente o estigma, o escárnio da crítica cosmopolita, assumindo prejuízos materiais consideráveis que se tornaram devastadores quando a isso se somaram atitudes e falas suas que pouco tinham de evangélicas.

Mas mesmo uma transição mais suave e negociada enfrentaria resistência. Recentemente, Billy Corgan, líder do The Smashing Pumpkins e outrora sacerdote da aflição juvenil que moldou os anos 1990, revelou em seu podcast, The Magnificent Others, por que não expôs a própria fé antes: "Deus é o terceiro trilho do rock and roll", disse, referindo-se ao trilho do metrô que mata quem o toca. "Se você fala de Deus, pode muito bem jogar sua carreira no buraco."

Agora, porém, faz isso sem medo, tomando "a decisão de falar de Deus honestamente". Explicitamente se referiu a Jesus como seu Senhor e Salvador, algo impensável até anos atrás na indústria musical fora do nicho gospel. E mais, disse que se isso o prejudicasse, não se importaria. Mas professar a fé quando o capital da juventude e os riscos contratuais já caducaram custa infinitamente menos do que fazê-lo sob o fogo cruzado da conquista do estrelato global.

Ou seja, há aqui uma diferença fundamental com a comoção iconoclasta de Ye, pois desabafos outonais como o de Corgan oscilam entre a graça sincera de um espírito cansado do mundo e a melancólica evidência de que falar de Deus só é tolerado pela indústria quando o artista já não ameaça a hegemonia de seus ídolos vigentes. Mas talvez as coisas estejam mudando, como sugere o fenômeno de Rosalía e seu disco LUX (2025), profundamente espiritual e de sonoridade contemporânea.

Amparada na contemplação de Simone Weil e nas raízes católicas catalãs, a cantora articulou uma mística contemplativa de tal rigor teológico que arrancou elogios do cardeal José Tolentino de Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano e, no meio musical, foi recebida com entusiasmo, rendendo a indicação ao Grammy Latino de 2026 na categoria Álbum do Ano, dentre outras premiações recebidas.

Resta, claro, o escrutínio sobre o risco da mercantilização devocional. Contudo, figuras consolidadas têm pouco a ganhar comercialmente ao abraçar o estigma da cruz. O que transparece é mais uma busca por um sentido maior e mais profundo e, em alguns casos, como no de Rosalía, um encontro com o que se procurava. "Só Deus pode preencher os espaços se você tiver a predisposição, a atitude e a maneira de se abrir para que isso aconteça", disse a cantora em entrevista.

Os exemplos citados não parecem ser apenas notas de rodapé de um mercado intolerante ou indiferente à fé, talvez sejam símbolos de uma mudança maior na cultura, com reflexos cada vez maiores na indústria que a reproduz. Ainda que essa virada não se confirme, obras como a de Cave e Rosalía seguirão sendo convites ao preenchimento do vazio existencial, servindo de alento à secura espiritual.

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