
Ouça este conteúdo
Pablo Marçal foi o fenômeno surpreendente das eleições municipais de 2024 e Augusto Cury está se tornando o das presidenciais de 2026. Qual a semelhança entre ambos, se é que existe?
Se o sucesso de Marçal parecia se explicar pela orfandade (principalmente retórica) deixada no bolsonarismo, o crescimento das intenções de voto em Cury não permite o simplismo dessa explicação e revela algo que explica melhor ambos os candidatos. E não se trata da costumeira anomalia eleitoral, que entretém com candidaturas bizarras.
Ainda que sejam parte da continuidade do ciclo de outsiders competitivos surgidos na esteira de Jair Bolsonaro, parecem ser mais um sintoma de um país institucionalmente em estado terminal e exausto emocionalmente.
O que explica a preferência por ambos talvez tenha mais a ver com a cultura da autoajuda que, há mais de um século, ocupou um espaço que antes a religião, a escola e a família ocupavam: fornecer um manual prático de sobrevivência existencial.
O voto, neste cenário, parece menos uma escolha entre programas de governo ou por simpatias com candidatos e mais uma busca por terapia individual, um pedido de socorro de uma sociedade desencantada com as cartilhas partidárias e decidida a buscar refúgio nos vendedores de soluções da alma (e do bolso).
A invenção da autoajuda
Para compreender a profundidade desse fenômeno, é preciso recuar no tempo. A literatura que hoje chamamos de autoajuda nasceu como um subproduto direto das fraturas da modernidade. Seu marco inaugural remonta a 1859, ano em que o escocês Samuel Smiles publicou uma obra cujo título batizaria o próprio gênero: Self-Help.
Ao arrancar o homem de suas comunidades tradicionais, de seus laços rurais e do amparo religioso ancestral para jogá-lo no isolamento tumultuado das cidades industriais, o capitalismo nascente criou uma criatura inédita: o indivíduo absolutamente solitário, valioso enquanto útil e, por isso mesmo, completamente descartável.
Nesse contexto, o objetivo de Smiles com sua obra era simples: "estimular os jovens a se dedicarem com afinco às ocupações corretas, sem poupar trabalho, sofrimento ou abnegação para realizá-las, e para, na vida, confiarem no esforço próprio, em vez de dependerem da ajuda ou do amparo dos outros". Ou seja, a autoajuda nasce, na verdade, como um manual do self-made man, do homem que se faz sozinho e que se torna bem-sucedido. Como destaca o autor em seu prefácio: "Não cabe aos mortais controlar o sucesso; faremos mais — o mereceremos."
A autoajuda surgiu, portanto, como uma espécie de prótese psicológica de autoafirmação, um guia de bolso para que o sujeito moderno aprendesse a se automotivar e a suportar, sozinho, o peso de uma engrenagem que lhe era indiferente e, por vezes, o esmagava.
A maturação ocorreria no século seguinte, quando o ideal vitoriano do esforço moral de Smiles cruzou o Atlântico e se fundiu a uma corrente que, em paralelo, germinava no Novo Mundo: a 'ciência da mente' inaugurada por Phineas Parkhurst Quimby, cujas ideias sobre o poder do pensamento sobre o corpo e o destino desaguariam tanto no 'Pensamento Positivo' quanto na teologia da prosperidade; esta, anunciada por figuras como o pastor Essek William Kenyon e consolidada por Kenneth Hagin.
Especialmente depois da Grande Depressão de 1929, autores como Napoleon Hill e Dale Carnegie “laicizaram” a teologia da prosperidade. O foco migrou da mera disciplina moral para a reprogramação mental voltada ao acúmulo de riqueza e à persuasão. É dessa linhagem direta que descende a autoajuda da ambição radical encarnada por Pablo Marçal.
Voltado para o trabalhador informal e "uberizado", Marçal atualiza o evangelho da performance para a era digital: o sucesso financeiro deixa de ser fruto de condições macroeconômicas e passa a ser uma questão de "desbloquear o mindset". Se o indivíduo falha ou empobrece, a culpa é menos do mercado ou do Estado e mais de uma falha de engenharia em sua própria mente.
A autoajuda do fracasso
No entanto, a busca frenética por essa performance inalcançável cobra um preço alto da psique humana. E é precisamente na ressaca desse esgotamento coletivo que a autoajuda também operou em outro sentido. Se a linhagem de Marçal descende da teologia da prosperidade laicizada, a de Cury nasce de outra matriz, gestada no mesmo século: a virada terapêutica, quando a psicologia deixou os consultórios e se tornou mercadoria cultural.
Da terapia centrada na pessoa (Carl Rogers) à hierarquia das necessidades (Abraham Maslow), do evangelho da autoestima (Nathaniel Branden) à inteligência emocional (Daniel Goleman), foi se formando uma segunda linhagem da autoajuda, dedicada ao bem-estar ou, como demonstrou a socióloga Eva Illouz ao descrever o capitalismo emocional, à transformação da emoção em bem de consumo.
Augusto Cury é o herdeiro brasileiro dessa linhagem: o psiquiatra que trocou o divã e a academia pela literatura que promete ajudar na gestão da ansiedade, no domínio do pensamento errático, na proteção da mente contra o excesso de estímulos. Se Marçal vende o atalho para a vitória, Cury vende o refúgio para os que perdem. Ambos, porém, vendem a mesma coisa: a promessa de que a salvação é individual e está ao alcance de quem adquire o método.
Essa autoajuda não promete transformar o “autoajudado” em um bilionário digital, mas garante impedir que ele enlouqueça diante do burnout, da depressão e da ansiedade crônica. É a autoajuda que lida com os bagaços do sistema: os exaustos, os frustrados e, hoje em dia, os pais desesperados com o adoecimento mental de seus filhos diante das telas.
Parte desse eleitorado, é preciso dizer, não busca em Cury apenas o acolhimento da angústia, mas uma saída para o cansaço da polarização que opõe bolsonarismo e petismo. O voto nele é também um voto de rejeição, não às instituições, mas ao duelo binário que há anos sequestra o noticiário e esgota a paciência de muitos eleitores. Cury se beneficia de ser o candidato de fora dos dois campos, depositário de um descontentamento difuso que não encontra nome nem partido.
Qual a sua dor?
Na era da uberização e do engajamento algorítmico, o tradicional monopólio do saber detido pela academia e pelas chancelas institucionais ruiu. Ao eleitor que impulsiona essas candidaturas, pouco importa o rigor dos métodos científicos ou as contestações sobre a titulação acadêmica dos postulantes.
A validação contemporânea não é conferida por bancas universitárias, mas pela métrica da tela, pela capilaridade dos livros vendidos e, principalmente, pela capacidade demonstrada de se conectar com a dor do cidadão comum. O diploma formal tem se tornado cada vez mais um adereço burocrático de uma elite insular, enquanto o "resultado prático", seja a ostentação da riqueza ou o acolhimento da angústia, tornou-se o único lastro de credibilidade aceito.
Se os descendentes (in)voluntários de Samuel Smiles encontraram o caminho para disputar o comando da República, é porque as nossas instituições políticas se tornaram tão distantes e falidas que, diante do desamparo, o eleitorado começa a preferir entregar o país àqueles que parecem capazes de lhes dar uma chance de vencer na vida ou os anestésicos para o caso de perder mais uma vez.




