Publicidade
Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

Caos

O que Paulo Francis diria sobre o STF e o Brasil de hoje?

Os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes em sessão no STF. (Foto: Andre Borges / EFE)

Ouça este conteúdo

O Brasil continua o mesmo asilo de lunáticos em que os pacientes assumiram o comando. Desta vez o palco é o Supremo Tribunal Federal (STF), aquela corte que se imagina oráculo da República e não passa de um clube de vaidosos – e corruptos – com toga. Alexandre de Moraes, Mendonça, Toffoli, Dino e o resto da turma se digladiam em público por causa de um banqueiro preso, Daniel Vorcaro, e de mensagens que cheiram a favorecimento, para dizer o mínimo. Quem diria que o templo da constitucionalidade viraria novela das oito, com troca de acusações, afastamento de delegados da PF e ministros se vigiando uns aos outros como se fossem capangas de sindicato.

Whatsapp: entre no grupo e receba as colunas de Rodrigo Constantino

O escândalo do Banco Master é apenas o capítulo mais recente de uma história que o país já conhece de cor: elites que se protegem mutuamente até o momento em que o barco começa a afundar. Contratos milionários com o escritório da mulher do ministro do STF, clube do uísque, gratidão expressa por WhatsApp, consultoria a bandido com pedidos como: “devo sair do país?”. Nada disso surpreende quem já viu o Brasil funcionar. Surpreende apenas a desfaçatez com que esses senhores, depois de anos exercendo poder quase monárquico – bloqueando redes, prendendo, julgando e legislando ao mesmo tempo –, agora se acusam de abuso de autoridade. É a hora em que o ladrão grita “pega ladrão”.

Enquanto isso o país se prepara para mais uma eleição presidencial em que Lula e o herdeiro de Bolsonaro aparecem empatados nas pesquisas. Os dois lados usam o STF como arma. Um lado grita “golpe”, o outro grita “perseguição” – este com embasamento. O tribunal, que deveria ser o último reduto de alguma decência institucional, transformou-se em peça central da campanha. Fachin tenta apagar o incêndio convocando plenário e assumindo inquérito, Dino reintegra quem Mendonça afastou, Moraes pede investigação contra o colega. É a metástase de um poder que há tempo deixou de se contentar em julgar e passou a governar.

O brasileiro médio assiste a tudo isso com a mesma mistura de fascínio e nojo com que sempre assistiu à política nacional. A Corte que se apresentou como salvadora da democracia agora revela o que sempre foi: um grupo de homens que acumulam poder, contratos, viagens e influência, e que só se tornam inquisidores quando o inimigo é o outro. A Lava Jato, o mensalão, o petrolão – tudo já passou. O método permanece. Muda o nome do banco, muda o nome do ministro – ou nem isso.

Não esperem regeneração. O Brasil é a casa da mãe Joana das elites que fazem o que querem até o dia em que o espelho quebra. Paulo Francis já dizia que política dá sempre errado. Hitler queria acabar com o comunismo e com os judeus; o resultado foi a União Soviética superpotência e Israel. Aqui o STF queria ser o fiador da civilização, o editor da nação; o resultado é esta farsa de toga rasgada, eleição polarizada e um país que continua incapaz de distinguir Justiça de vingança. Quem não lê não pensa. E quem não pensa continuará votando – ou aplaudindo – os mesmos lunáticos.

Um trecho de Francis, publicado no ensaio Os melhores anos de nossa vida, vem bem a calhar. Depois de descrever a ilusão liberal dos anos JK, ele fecha o ciclo assim: “Foi tudo um sonho e uma ilusão e pagamos até hoje por pensarmos que o arcaico, o ressentido, o bárbaro, o cruel, o reacionário, nos entregariam a rapadura numa simples batalha cultural. As armas deles são outras. E, justiça seja feita, sabem usá-las. […] Olha em volta. Se queres um monumento, olha em torno. Não há arranha-céu tão alto que torne ‘eles’ invisíveis. ‘Eles’ permeavam tudo que fazíamos”.

O “eles”, no vocabulário de Francis, não é só o coronel de 1960. É a elite que ocupa o Estado, troca favores, se protege e, quando o espelho quebra, transforma a briga interna em crise institucional. A guerra Moraes–Mendonça, o relatório da PF, o contrato milionário com o escritório da mulher do ministro e o plenário marcado para “decidir se um ministro pode ser investigado” cabem nesse quadro sem esforço: o arcaico não entregou a rapadura; apenas mudou de toga. E toda esperança reside no voto de minerva de alguém como Cármen Lúcia, aquela poetisa que mescla festa com fresta e que decretou a morte do “cala a boca” para logo depois votar pela censura prévia – em caráter excepcionalíssimo!

Francis também resumiu o método político brasileiro numa linha que serve de epígrafe à semana: “O adesismo fisiológico é norma política nacional". E o complemento mais ácido, sobre esperança pública, é fulminante: “Todo otimista é um mal informado”. Estava errado? Há solução?

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.