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Opinião

Vou passar pano para Nolan e recomendar Odisseia

Filme adapta Homero com um Odisseu atormentado pela violência e pelas consequências de suas escolhas.

A técnica encontra a alma humana na nova obra definitiva de Christopher Nolan: A Odisseia (Foto: Divulgação)

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Vou passar pano para Christopher Nolan. E recomendo que você dê uma chance a Odisseia quando o filme chegar ao streaming.

Houve muita discussão sobre as escolhas de elenco do filme, especialmente Helena, interpretada por Lupita Nyong’o, e Sinon, vivido por Elliot Page. Há, de fato, uma política de diversidade que Hollywood incorporou às regras do Oscar. Para um filme ser elegível a Melhor Filme, é preciso cumprir dois de quatro padrões de representação e inclusão estabelecidos pela Academia. Um deles é diretamente relacionado ao que aparece na tela. Os outros três dizem respeito a equipe criativa, oportunidades profissionais e distribuição/marketing. Portanto, não é absurdo enxergar nisso uma pressão sobre as escolhas de Hollywood.

Eu aceito (e defendo) que havia atores que poderiam ser melhores para aqueles papéis, tanto tecnicamente quanto pela adequação aos personagens. Mas isso não muda o essencial: Helena e Sinon não alteram o sentido da história. E é justamente aí que começa minha defesa de Nolan.

O diretor aceita as regras do jogo de Hollywood. O que ele não entrega, porém, é um filme moldado por elas. Odisseia é um filme preocupado com uma ideia muito mais antiga e muito mais interessante: o que acontece com um homem quando ele descobre que vencer uma guerra não significa necessariamente ter feito a coisa certa?

Nolan é, na minha opinião, o maior diretor vivo. É uma provocação, evidentemente, mas não uma provocação gratuita. Poucos cineastas conseguiram fazer cinema autoral, conceitualmente ambicioso e tecnicamente sofisticado alcançar simultaneamente o grande público. O Cavaleiro das Trevas Ressurge passou de US$ 1 bilhão, Oppenheimer chegou perto de US$ 1 bilhão e Odisseia já ultrapassou US$ 1,6 bilhão mundialmente.

Esse talvez seja o aspecto mais impressionante da carreira de Nolan: ele conseguiu transformar ideias que, em princípio, parecem pouco comerciais — tempo, memória, física, moralidade, culpa — em espetáculo popular. Não é apenas um diretor que faz filmes caros. É um diretor que conseguiu fazer o público pagar para pensar enquanto assiste a um blockbuster.

Mais importante: Nolan encontrou em Homero um personagem que parece ter sido feito para suas obsessões. Daniel Mendelsohn, classicista e autor de uma tradução recente da Odisseia, observou que o Odisseu do filme é “atormentado pela culpa” — um herói muito mais próximo dos protagonistas de Memento, Batman e Oppenheimer do que do herói homérico.

Justamente essa transformação que me interessa.

Uma adaptação não é uma reprodução. Quando uma obra literária passa para o cinema, nasce outra obra. Ela pode — e deve — ser comparada com a original, mas também precisa ser julgada pelo que pretende fazer por conta própria. Richard Brody, da New Yorker, critica Nolan precisamente por transformar Homero em algo excessivamente moderno. É uma crítica legítima. Mas também é, paradoxalmente, uma descrição bastante precisa do que o filme pretende fazer.

Cobrar que Nolan seja fiel em tudo a Homero seria, nesse sentido, cobrar que ele não fosse Nolan. A pergunta mais interessante não é se ele reproduziu a Odisseia, mas o que fez com ela.

O Odisseu de Homero é um herói da excelência, da astúcia, da força, da honra e da glória. Seu mundo não é organizado segundo a moral cristã moderna. A guerra, a violência, a vingança e a pilhagem pertencem a uma sociedade com códigos morais muito diferentes dos nossos.

Nolan desloca esse eixo.

Seu Odisseu volta da guerra carregando culpa. Ele não consegue simplesmente celebrar a vitória. A violência praticada em Troia passa a persegui-lo. O cavalo de Troia, que em Homero é sobretudo um instrumento da astúcia grega, transforma-se em Nolan no centro de uma crise moral. O problema não é apenas ter vencido. É a maneira como se venceu.

O filme chega a transformar isso em uma regra explícita: a lei de Zeus, a obrigação de respeitar o estrangeiro e o hóspede. Justin Chang, também na New Yorker, observa que essa lei é repetidamente invocada por Nolan como um princípio estruturador do filme.

É aí que a adaptação ganha uma dimensão particularmente interessante. Nolan não abandona o universo moral grego; ele parte dele. O código de Zeus continua existindo, mas passa a ser examinado por um personagem que sofre psicologicamente quando percebe que suas próprias ações não estão à altura desse código.

Nolan pega um herói cuja grandeza tradicional está associada à capacidade de vencer e o transforma em alguém cuja grandeza depende também de sua capacidade de reconhecer o sofrimento que provocou. A pergunta deixa de ser apenas “quem venceu?” (cuja resposta bastava para os gregos) e passa a ser “quanto custou vencer?”.

É uma mudança que traz a cultura cristã para dentro da história clássica.

O herói passa a ser aquele que se importa com a vida dos outros. Aquele que percebe que existem vítimas atrás da glória. Aquele que descobre que algumas virtudes, como fidelidade, prudência e caridade, podem valer mais do que a vitória.

Não estou dizendo que Homero era “primitivo” e Nolan descobriu a moral. Estou dizendo que Nolan deliberadamente olha para um mundo antigo através de uma sensibilidade moral moderna.

E essa é, para mim, a chave para entender o filme. A transformação de Odisseu não está apenas no que ele faz, mas naquilo que passou a ser capaz de sentir diante do que fez. O guerreiro continua sendo guerreiro; o que muda é o peso moral de suas ações.

Por isso também é importante observar as mudanças feitas no personagem. O filme praticamente elimina as infidelidades de Odisseu e coloca a relação com Penélope no centro da sua identidade. A família deixa de ser apenas aquilo para o qual o herói precisa retornar. Ela se transforma em parte daquilo que dá sentido à sua luta.

E o código de guerra segue a mesma lógica. Odisseu acredita que uma batalha precisa ser honrada quando os adversários têm a oportunidade de lutar sabendo o que está acontecendo. Por isso ele avisa antes de usar o arco contra suas caças. Por isso o cavalo de Troia pesa tanto em sua consciência: foi uma vitória obtida sem oferecer ao inimigo a mesma possibilidade de preparação.

É uma inversão muito eficiente do conceito tradicional de astúcia. A inteligência que permitia ao herói vencer passa a ser também aquilo que pode condená-lo moralmente. Nolan não elimina a astúcia de Odisseu; transforma seu significado. Nesse ponto a Odisseia de Nolan deixa de ser uma aventura épica e se torna também em um filme sobre responsabilidade.

Pode-se discordar dessa leitura. Aliás, deve-se. Mendelsohn considera que Nolan impõe a Homero valores que lhe são estranhos; Brody vê nessa modernização uma perda daquilo que torna o mundo homérico singular.

Mas uma adaptação que não pudesse discordar de sua fonte seria apenas uma ilustração dela. O mérito — ou o problema — de Nolan está justamente em ter coragem de discutir com Homero.

Mas talvez essa seja justamente a graça de adaptar uma obra de quase três mil anos.

Nolan não está tentando nos transportar intactos para a Grécia de Homero. Está tentando perguntar o que A Odisseia significa para nós. E eu acho que encontrou uma resposta forte, elegante e cinematograficamente respeitável.

Não quero convencer quem discorda. Quero apenas propor uma conversa. Se você viu o filme e enxerga outra coisa, deixe nos comentários. É justamente aí que uma obra como essa começa a ficar mais interessante.

Se não viu, dê uma chance quando chegar ao streaming.

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