
Os 93 anos da professora Ady Tramujas Samways foram muito ativos. Era catequista, ministra da Eucaristia, legionária de Maria e ainda tinha outras atividades na rotina. A idade não era empecilho e mesmo depois dos 90 mantinha a agenda quase inalterada. Quando estava em Matinhos, no Litoral do Paraná, caminhava 13 quilômetros todos os dias e ainda reclamava se os netos não acompanhassem o ritmo dela.
Nasceu em Paranaguá e morou lá quase a vida toda. Começou a carreira de professora em São Mateus do Sul, em 1941, mas logo voltou para a cidade natal. Confiante de que Deus estava ao lado dela, foi para a avaliação que a tornaria professora. “Ela tinha estudado muito. Antes da avaliação, alguém falou que estavam criando a “gasolina azul” para aviões e que não era para ela se esquecer dessa informação. Ady nunca tinha ouvido falar nessa gasolina, mas ficou com aquilo na cabeça. No fim do concurso, o avaliador perguntou se era verdade que estavam criando o produto e ela respondeu que sim”, contam os netos. Ao todo, foram 55 anos em sala de aula.
Diretora do Colégio Estadual José Bonifácio, em Paranaguá, lutou para que a Praça Portugal, ao lado da escola, não abrigasse bares. “Dizia que tiraria os alunos da sala”, contam os filhos. Quando deixou o colégio, os bares foram abertos e ela lamentava presenciar que tantos alunos estavam na praça. Dedicada à educação, quando soube do ataque aos professores em 29 de abril deste ano, em Curitiba, disse a uma das netas que gostaria de prestar solidariedade aos colegas.
O amor pelas crianças era gritante. Decidiu criar uma creche, em 1978, para que as mães pudessem deixar seus filhos e trabalhar. O terreno foi doado pelo prefeito da época, José Vicente Elias. O aterro para o local também foi doação. “Os caminhões da cooperativa (que são usados no porto) vinham ajudar com o aterro, quando estavam sem serviço”, destacam os filhos. Por fim, na Páscoa, fez ela um “pedágio” para arrecadar o dinheiro da construção do centro de educação. A creche Nossa Senhora do Rosário foi inaugurada em 1980. Hoje, são atendidas 75 crianças de 2 a 6 anos. Ady fazia questão de servir o almoço das crianças e ainda levava sobremesas nos bolsos. Ao fim de cada refeição, os pequenos ganhavam balas, pirulitos, bombons; cada dia havia uma “surpresinha” diferente.
Liderança de muitos movimentos na Igreja Católica, ela apresentou a Pastoral da Criança e a Liga do Câncer para a cidade. “Levava a Comunhão para quem não podia ir à igreja. A parnanguara saía para visitar os “velhinhos” de 70 anos, mas já tinha 90”, brinca a família. Os idosos e os enfermos também ganhavam docinhos.
Participava da Catedral Diocesana de Paranaguá e do Santuário de São Francisco das Chagas. O padre André Buchmann, responsável pelo santuário, foi aluno da mulher que, mais tarde, se tornaria uma das grandes incentivadoras de sua vocação. “Quando me encontrava na rua, ela dizia: ‘estou rezando por você’. Depois de ordenado, dizia: ‘continuo rezando por você’”. É o santuário que vai dar continuidade às atividades da creche.
Como gostava de viajar, estudava cada lugar e deixava os guias turísticos boquiabertos. “No final, as pessoas aplaudiam a “Vó Ady” e não os guias, pois eles falavam tudo decorado e ela, porque conhecia”, orgulham-se os netos. Falando apenas o português, conheceu vários países, até a China. Mas Ady tinha verdadeira paixão pela cidade de Nova York. Planejava os passeios que queria fazer e, na volta, fazia um diário de viagem.
A devota incansável de Nossa Senhora tomava sopa de legumes todas as noites. “Não cansa?”, questionavam. “Quando eu chegar ao céu e Jesus me perguntar o que eu quero, vou responder: ‘tudo, menos sopa de legumes’”, respondia. Dona Ady estava fraca e passou duas semanas internada. Com toda a família reunida, foi ao encontro de Deus. O médico que cuidou dela no período em que esteve no hospital teve aulas com a senhorinha antes de ir para a faculdade. Velada no Santuário de São Francisco das Chagas, de onde era benfeitora, a igreja permaneceu cheia o tempo todo. “Era uma pessoa muito conhecida, empreendedora, e uma mulher de coragem”, destacou o padre André Buchmann.
Deixa dois filhos, nora, genro, oito netos, 13 bisnetos, os alunos, as crianças da creche, os catequizandos e os velhinhos que visitava.
Dia 28 de junho, aos 93 anos, de causas naturais, em Paranaguá.
Lista de Falecimentos - 24/07/2015
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