
Todas as vezes que um dos netos de dona Alzira Barbosa de Gusmão chegava em casa e pedia: “bença (sic), vó”, ouvia: “bençoi (sic)”. Esse era o jeito simples e carinhoso com que ela abençoava aqueles que amava. O “Deus te abençoe” abreviado tornou-se a marca de Alzira e o motivo de muitos sorrisos e brincadeiras. Um dos netos – o que gostava de “pegar no pé” e fazer gracinhas para ver a avó sorrir – deu o apelido de “bençoizinha”; logo a família toda adotou.
A voz era aguda e delicada e as mãos já estavam trêmulas por causa do Parkinson, mas quem a via, aparentemente frágil, de bengala e com a coluna bem curvada talvez não soubesse das tempestades pelas quais dona Alzira passou e do legado de força e serenidade que deixou para os filhos e netos.
“Bençoizinha” perdeu o “amor de sua vida” no ano 2000. Três meses após o falecimento de seu esposo, com quem foi casada por quase 50 anos, sofreu um grave acidente de carro com parte de sua família. Era fevereiro de 2001, Alzira, a filha Eli, um genro, três netos e uma bisneta viajavam em uma caminhonete em direção a Curitiba quando o eixo da roda quebrou e o veículo, sem direção, foi capotando em uma ribanceira na serra. Alguns deles foram arremessados para fora do carro e, mesmo assim, sofreram arranhões. O genro fraturou algumas costelas, uma das netas teve um leve traumatismo craniano e Alzira precisou passar algumas horas com um balão de oxigênio. Quem se feriu com gravidade foi a outra neta, Érica Letícia, que tinha 15 anos na época. Os médicos chegaram a dizer que ela poderia ficar em estado vegetativo e essa notícia, além de toda a dor do acidente, causou uma enorme preocupação na família. Os anos se passaram e hoje Érica Letícia está bem. É formada em Nutrição e aprendeu a conviver com a cadeira de rodas.
Logo após o acidente, Alzira teve de cumprir o que dizem ser o papel de avó: ser mãe duas vezes. Certa vez, por causa dos cuidados que a neta precisava, Eli precisou viajar e deixou o caçula, Alisson, com ela. Para amenizar a saudade que o pequeno sentia da mãe e da irmã, “Bençoizinha” enchia o neto de paparicos, o que incluía bolinhos de chuva, doces e salgados.
Novamente a matriarca precisou ser forte para enfrentar situações em que se inverte a “ordem natural das coisas”. Nos últimos cinco anos, já com o Parkinson em estágio avançado e com a debilidade física – devido à idade e às lesões na coluna adquiridas no acidente de carro –ela se despediu de dois filhos em um intervalo de apenas sete meses. Geraldo, o primogênito, teve um derrame durante uma sessão de hemodiálise e não resistiu; Eli, a filha caçula, morreu durante o segundo transplante de fígado. Mais tarde ainda recebeu a notícia da morte de um neto que ela criou, vítima de morte violenta. Era impossível não se abalar ou não sofrer.
Dona Alzira não era de falar muito. As lições que ela ensinou nem sempre foram ouvidas, mas, sem dúvida, foram vistas e sentidas. “Com a história da minha avó, aprendi o quão forte podemos ser se quisermos. Aprendi a ter fé, coragem, a não desistir e amar incondicionalmente”, afirma Alisson.
De vez em quando a avó até dizia um: “eu te amo” ou “estava com saudade”, mas tinha um jeitinho tímido. O amor que tinha pelos seus ficava subentendido e nas entrelinhas do dia a dia. As palavras até poderiam não ser ditas, mas o amor era demonstrado nos gestos concretos e no cuidado com a família.
Aos domingos, gostava de ouvir a neta Solange, que é locutora, no rádio. Dizia que ela tinha uma voz linda e até dançava, quase que sem querer, com Alisson. O rapaz se desdobrava para vê-la sorrir. “Quando eu fazia palhaçadas, ela dava um sorriso de canto de boca. Tentava disfarçar que achava graça, mas às vezes não aguentava e caía na risada”, conta o neto.
Evangélica e membro da Congregação Cristã do Brasil, Alzira participava de todos os cultos e atividades da igreja, quando a saúde ainda a permitia. Morreu em casa, em 29 de junho, nos braços dos filhos Avelina e Marcelino e da neta Solange. Pediu que a guardassem no coração, que Jesus perdoasse os pecados dela e que abrisse os caminhos para a salvação. Deixa cinco filhos, 18 netos, 11 bisnetos, seis irmãos e muitos sobrinhos.
Dia 29 de junho, aos 83 anos, após complicações devido a uma queda, em Sarandi.
Lista de Falecimentos - 14/07/2015
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